
Inquietos. Dir.: Gus Van Sant. EUA, 2011
Pessoas amadas às vezes vão embora. Em algumas ocasiões, porque não amam suficientemente – deliberadamente ou por capricho do acaso, como nos ensinou Drummond em “Quadrilha”. Em outras, quando não querem se prender a alguém menor, partem porque têm bom senso. Há ainda aquelas que vão sem poder escolher. “Inquietos” (Restless), que estreou no Brasil no final de 2011, trata deste último caso.A película do norte-americano Gus Van Sant, entretanto, não é um filme triste. Apesar de ter sido rotulado como “melodrama”, provavelmente por conta da fórmula manjada garoto-encontra-garota-mas-ela-está-doente, o diretor conseguiu dar outra roupagem a velhos clichês (aliás, clichês nunca são clichês à toa, como prova boa parte da literatura ocidental). E foi além, subvertendo alguns rótulos geralmente atribuídos a gerações inteiras e dando imagem a sentimentos difíceis de serem retratados no grande ecrã sem uma certa afetação.
O filme traz um elenco bem afinado, locações outonais do Oregon e trilha sonora irrepreensível – destaque para a sequência inicial, na qual a simples, genial e aconchegante “Two of Us”, dos Beatles, literalmente carrega os espectadores para o ambiente no qual transcorre a história.
Os dois jovens protagonistas, Enoch e Annabel, se conhecem em um funeral. Ambos costumam entrar de penetra nestas cerimônias, pois compartilham, por caminhos diversos, certo fascínio pela morte. Ele, vivido por um melancólico, irascível, profundamente triste e lindo de doer Henry Hopper, perdeu os pais em um acidente de automóvel e costuma conversar com eles no cemitério. Ela, vivida pela angelical e etérea Mia Wasikowska, com roupas de vovó, corte de cabelo estilo gamine, paciente terminal de câncer, tem uma visão realista do mundo e sabe que a morte faz parte da vida.
As referências mais primárias deste enredo são bem evidentes. De acordo com o Gênesis bíblico, Enoque foi arrebatado e poupado por Deus do dilúvio, e não há notícia de que tenha morrido – o Enoch de Van Sant também chegou perto do outro lado, e sua fixação com o tema da morte assume feições de frustração com a separação definitiva em relação aos pais (ele sofre porque é incapaz de morrer).
Annabel, por sua vez, pode ser uma citação explícita do poema “Annabel Lee”, escrito pelo romântico norte-americano Edgar Alan Poe em 1849. Aliás, o enredo está quase todo ali: uma paixão fulminante iniciada na juventude entre o narrador e a moça que dá nome à obra, que morre jovem, e a quem ele devota um amor que atravessa a morte, dormindo junto ao seu túmulo. Segundo o próprio Poe, a morte de uma linda mulher é o “tópico mais poético do mundo”. Já se escreveu que o seu poema tem uma atmosfera necrófila. Há muitos elementos, portanto, para que este seja visto como um filme sombrio.
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Fantasma da Segunda Guerra
Pode-se ultrapassar essa primeira vista e pensar o filme para além das suas aparências imediatas, ainda assim em termos bem formais, simplistas, redutores: Annabel tem os pés no chão, é serena e bem resolvida com a vida e a morte, vistos não de uma forma religiosa, mas natural (seu ídolo é Darwin, o naturalista por excelência, símbolo da luta contra uma certa cultura transcendentalista extremista nos EUA); a morte, no seu caso, é sinônimo de libertação; Enoch, que possui uma relação ao mesmo tempo de proximidade e de distância com o desaparecimento final (ele conversa com um fantasma da Segunda Guerra Mundial); no seu caso, a morte é uma prisão; ele se apaixona pela primeira vez e vive uma jornada de amadurecimento no curto convívio com Annabel.
Nesta chave de leitura, poderia se dar o braço a torcer às feministas mais irritadiças: uma mulher precisa morrer para que um homem – que seria visto aqui como “o” protagonista – cumpra a sua jornada. Gus Van Sant é gay (o que, é bem verdade, não é um antídoto contra o machismo), e não abriu mão de tratar relações homoafetivas em seu trabalho (como “Mala Noche”, de 1985, e “Milk”, de 2008), quebrando alguns estereótipos geralmente atribuídos aos gêneros. É possível, entretanto, ver a história por outro ângulo: a personagem feminina é o centro de equilíbrio da relação e da trama, e dita, do início ao fim, o nível de racionalidade e de apreensão da realidade do personagem masculino – não porque se trata de uma mulher, mas porque sua proximidade com a morte é de outra natureza, o que faz com que a sua relação com a vida também seja de outra ordem – Annabel é sinceramente atraída por Enoch em todos os níveis da sua existência, mas também está interessada na vida dos besouros e das aves marinhas.
Entretanto, como escrevi acima, não se trata de um filme triste. Há, sim, elementos que podem ser atribuídos a um romantismo com o qual estamos acostumados, que inventou boa parte dos nossos sentimentos, e que pode nos levar às lagrimas com facilidade – poucas pessoas são indiferentes a um amor impossível, como tem demonstrado a perenidade de Shakespeare e Goethe. Mas Van Sant não ficou na reprodução do clichê – aliás, ele caçoa deste lugar-comum em uma cena que pega muita gente de surpresa.
Ainda assim, pode-se tratar aqui – uma vez que um filme, assim como qualquer discurso, não é apenas aquilo que pretende ser, mas também aquilo que fazemos dele – de uma obra sobre a vida, e sobre como ela pode ser ainda mais densa quando se tem consciência da sua exiguidade (“restless”, do título original, brinca com o eufemismo da morte, descansar, ou “rest”, através da sua negação – isto é, trata-se de uma afirmação da vida sobre a morte). É possível amar verdadeira e profundamente, e se transformar por inteiro, mesmo sabendo que a única pessoa que realmente importa na sua vida vai partir. Amor de verdade não vem com prazo de validade e não tem relação direta com presença ou ausência – não apenas o amor dito erótico, mas a necessidade de uma outra alma.
Van Sant pode estar dizendo que levar um afeto genuíno às últimas consequências vale a pena – se realmente é amor, é a coisa mais importante do mundo. Afinal, até onde se deve lutar por um sentimento que se julga verdadeiro? Se você não tem bom senso, até o fim – no caso de Enoch, ir até o centro da cidade, algo que não faz por conta de um trauma, e procurar um xilofone para presentear Annabel; no caso de um anônimo aleatório da vida real, gastar todo o dinheiro do aluguel em um mimo cafona. Annabel não teve tempo de aprender a tocar o instrumento; a musa que ganhou o presente inapropriado de um qualquer pode tê-lo mandado diretamente para o lixo. Mas as pequenas ações “heroicas” (bobas, se vistas externamente ou retrospectivamente) dão sentido à vida daqueles que ficam e guardam a doce maldição de, mesmo em condições adversas, poder amar – ainda que o objeto de afeição vá embora, seja por conta da morte, seja por conta do bom senso.




























































































