Sem descanso

Inaugurando a nova seção sobre cinema da RHBN Online, o filme 'Inquietos', de Gus Van Sant, aborda as expectativas de vida e morte a partir da relação de um jovem casal

Rodrigo Elias

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    Inquietos. Dir.: Gus Van Sant. EUA, 2011


    Pessoas amadas às vezes vão embora. Em algumas ocasiões, porque não amam suficientemente – deliberadamente ou por capricho do acaso, como nos ensinou Drummond em “Quadrilha”. Em outras, quando não querem se prender a alguém menor, partem porque têm bom senso. Há ainda aquelas que vão sem poder escolher.  “Inquietos” (Restless), que estreou no Brasil no final de 2011, trata deste último caso.

    A película do norte-americano Gus Van Sant, entretanto, não é um filme triste. Apesar de ter sido rotulado como “melodrama”, provavelmente por conta da fórmula manjada garoto-encontra-garota-mas-ela-está-doente, o diretor conseguiu dar outra roupagem a velhos clichês (aliás, clichês nunca são clichês à toa, como prova boa parte da literatura ocidental). E foi além, subvertendo alguns rótulos geralmente atribuídos a gerações inteiras e dando imagem a sentimentos difíceis de serem retratados no grande ecrã sem uma certa afetação.

    O filme traz um elenco bem afinado, locações outonais do Oregon e trilha sonora irrepreensível – destaque para a sequência inicial, na qual a simples, genial e aconchegante “Two of Us”, dos Beatles, literalmente carrega os espectadores para o ambiente no qual transcorre a história.

    Os dois jovens protagonistas, Enoch e Annabel, se conhecem em um funeral. Ambos costumam entrar de penetra nestas cerimônias, pois compartilham, por caminhos diversos, certo fascínio pela morte.  Ele, vivido por um melancólico, irascível, profundamente triste e lindo de doer Henry Hopper, perdeu os pais em um acidente de automóvel e costuma conversar com eles no cemitério. Ela, vivida pela angelical e etérea Mia Wasikowska, com roupas de vovó, corte de cabelo estilo gamine, paciente terminal de câncer, tem uma visão realista do mundo e sabe que a morte faz parte da vida.

    As referências mais primárias deste enredo são bem evidentes. De acordo com o Gênesis bíblico, Enoque foi arrebatado e poupado por Deus do dilúvio, e não há notícia de que tenha morrido – o Enoch de Van Sant também chegou perto do outro lado, e sua fixação com o tema da morte assume feições de frustração com a separação definitiva em relação aos pais (ele sofre porque é incapaz de morrer).

    Annabel, por sua vez, pode ser uma citação explícita do poema “Annabel Lee”, escrito pelo romântico norte-americano Edgar Alan Poe em 1849. Aliás, o enredo está quase todo ali: uma paixão fulminante iniciada na juventude entre o narrador e a moça que dá nome à obra, que morre jovem, e a quem ele devota um amor que atravessa a morte, dormindo junto ao seu túmulo. Segundo o próprio Poe, a morte de uma linda mulher é o “tópico mais poético do mundo”. Já se escreveu que o seu poema tem uma atmosfera necrófila.  Há muitos elementos, portanto, para que este seja visto como um filme sombrio.

     

    Fantasma da Segunda Guerra

    Pode-se ultrapassar essa primeira vista e pensar o filme para além das suas aparências imediatas, ainda assim em termos bem formais, simplistas, redutores: Annabel tem os pés no chão, é serena e bem resolvida com a vida e a morte, vistos não de uma forma religiosa, mas natural (seu ídolo é Darwin, o naturalista por excelência, símbolo da luta contra uma certa cultura transcendentalista extremista nos EUA); a morte, no seu caso, é sinônimo de libertação; Enoch, que possui uma relação ao mesmo tempo de proximidade e de distância com o desaparecimento final (ele conversa com um fantasma da Segunda Guerra Mundial); no seu caso, a morte é uma prisão; ele se apaixona pela primeira vez e vive uma jornada de amadurecimento no curto convívio com Annabel.

    Nesta chave de leitura, poderia se dar o braço a torcer às feministas mais irritadiças: uma mulher precisa morrer para que um homem – que seria visto aqui como “o” protagonista – cumpra a sua jornada. Gus Van Sant é gay (o que, é bem verdade, não é um antídoto contra o machismo), e não abriu mão de tratar relações homoafetivas em seu trabalho (como “Mala Noche”, de 1985, e “Milk”, de 2008), quebrando alguns estereótipos geralmente atribuídos aos gêneros. É possível, entretanto, ver a história por outro ângulo: a personagem feminina é o centro de equilíbrio da relação e da trama, e dita, do início ao fim, o nível de racionalidade e de apreensão da realidade do personagem masculino – não porque se trata de uma mulher, mas porque sua proximidade com a morte é de outra natureza, o que faz com que a sua relação com a vida também seja de outra ordem – Annabel é sinceramente atraída por Enoch em todos os níveis da sua existência, mas também está interessada na vida dos besouros e das aves marinhas.

    Entretanto, como escrevi acima, não se trata de um filme triste. Há, sim, elementos que podem ser atribuídos a um romantismo com o qual estamos acostumados, que inventou boa parte dos nossos sentimentos, e que pode nos levar às lagrimas com facilidade – poucas pessoas são indiferentes a um amor impossível, como tem demonstrado a perenidade de Shakespeare e Goethe. Mas Van Sant não ficou na reprodução do clichê – aliás, ele caçoa deste lugar-comum em uma cena que pega muita gente de surpresa.

    Ainda assim, pode-se tratar aqui – uma vez que um filme, assim como qualquer discurso, não é apenas aquilo que pretende ser, mas também aquilo que fazemos dele – de uma obra sobre a vida, e sobre como ela pode ser ainda mais densa quando se tem consciência da sua exiguidade (“restless”, do título original, brinca com o eufemismo da morte, descansar, ou “rest”, através da sua negação – isto é, trata-se de uma afirmação da vida sobre a morte). É possível amar verdadeira e profundamente, e se transformar por inteiro, mesmo sabendo que a única pessoa que realmente importa na sua vida vai partir. Amor de verdade não vem com prazo de validade e não tem relação direta com presença ou ausência – não apenas o amor dito erótico, mas a necessidade de uma outra alma.

    Van Sant pode estar dizendo que levar um afeto genuíno às últimas consequências vale a pena – se realmente é amor, é a coisa mais importante do mundo. Afinal, até onde se deve lutar por um sentimento que se julga verdadeiro? Se você não tem bom senso, até o fim – no caso de Enoch, ir até o centro da cidade, algo que não faz por conta de um trauma, e procurar um xilofone para presentear Annabel; no caso de um anônimo aleatório da vida real, gastar todo o dinheiro do aluguel em um mimo cafona. Annabel não teve tempo de aprender a tocar o instrumento; a musa que ganhou o presente inapropriado de um qualquer pode tê-lo mandado diretamente para o lixo. Mas as pequenas ações “heroicas” (bobas, se vistas externamente ou retrospectivamente) dão sentido à vida daqueles que ficam e guardam a doce maldição de, mesmo em condições adversas, poder amar – ainda que o objeto de afeição vá embora, seja por conta da morte, seja por conta do bom senso.

     

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