Na aldeia e no mundo

Como um não-índio pode ajudar os índios a descobrirem seu lugar a partir do conhecimento de sua história e da história dos povos que os cercam

Giovani José da Silva

  • Imagine entrar numa sala de aula e saber-se um estranho. Encarar uma turma que tem outros hábitos, língua e crenças. Assim foi meu primeiro contato com os índios da Reserva Indígena Kadiwéu, em 1997, na aldeia Bodoquena, a maior da reserva. Eu havia saído de São Paulo, capital, e ido para Porto Murtinho, região do Pantanal, no Mato Grosso do Sul, como professor da rede pública municipal de ensino.

    A reserva tem aproximadamente 538.536 hectares, onde vivem hoje cerca de 1.600 índios das etnias Kadiwéu, Terena e Kinikinau. Os Kadiwéu vivem distribuídos em quatro aldeias: Barro Preto, Bodoquena, Campina e Tomázia. São falantes da língua guaikuru e únicos representantes dessa família linguística no Brasil (os demais ficaram do outro lado da fronteira com o Paraguai). Autodenominam-se Ejiwajegi (lê-se “edjiúadjegui”) e são os descendentes dos antigos Mbayá-Guaikuru, os célebres “Índios Cavaleiros”, assim chamados em razão da destreza com que utilizavam o cavalo em incursões guerreiras entre os séculos XVII e XIX.

    Sabe-se da existência de escolas nas aldeias Kadiwéu desde a década de 1940. Como estive envolvido com questões indígenas desde o início do curso de graduação em história, fui chamado para avaliar a situação escolar dos índios. Em um ano de contato sistemático, observei que as escolas da reserva eram precárias e não correspondiam às expectativas das comunidades.  Passei, então, a colaborar com a prefeitura, para regularizar a situação das escolas, e incluí-las na rede municipal de ensino de Porto Murtinho.

  • Em fins de 1998 foi criada a Escola Municipal Indígena Ejiwajegi – pólo na aldeia Bodoquena e extensões nas aldeias Barro Preto, Campina, São João e Tomázia. Mas os índios Kadiwéu e Kinikinau (estes últimos da aldeia São João) mostravam-se descontentes com o fato de os estudos nas aldeias se encerrarem na quarta série do ensino fundamental. Quem desejava continuar estudando deveria ir à cidade e, por essa razão, muitos paravam de estudar. O impasse foi parcialmente resolvido em 2000, quando pedi para ser transferido para a escola recém-criada. Previ dificuldades desde o início, pelo fato de ser um não-índio, mas a vinda do sociólogo José Luiz de Souza (batizado de Wanixogowe – lê-se “Wanitchorrouê”, “o pássaro que voa alto”), de Santo André (SP), para me acompanhar nessa “aventura” pedagógica, ajudou-me muito. Não havia outros professores não-índios dispostos a ministrar aulas na aldeia, por causa das inúmeras dificuldades – falta de energia elétrica e água potável, difícil acesso, entre outras – e do preconceito. No tocante à minha disciplina, meu desafio sempre foi o de mostrar a importância das culturas indígenas, revelando os modos de ser e viver desses povos, que precisam ser valorizados a fim de serem substituídos, sem reflexão, pelos usos e costumes dos não-índios. Para os Kadiwéu da aldeia Bodoquena, a escola sempre havia sido o lugar para se aprender as coisas dos “brasileiros” (é assim que eles se referem aos não-índios, ou ecalailegi – lê-se “ecalailegui”) e de receber castigos, físicos e psicológicos.

    Era possível perceber entre os alunos uma constante expectativa por castigos. E também que, para eles, o ensino de história ministrado até então era marcado pela “decoreba” de datas, fatos e personagens completamente alheios à realidade em que viviam. Não havia, até aquele momento, espaço para a reflexão sobre quem eram eles próprios ou o que os diferenciava dos não-índios. Assim, tomamos como objetivos de ensino e aprendizagem: 1) identificar relações sociais no próprio grupo, na localidade, na região, e outras estabelecidas em outros tempos e espaços; 2) compreender que as histórias individuais são parte integrante de histórias coletivas; 3) dominar procedimentos de pesquisa escolar e de produção de textos, aprendendo a observar, colher e sistematizar informações.

    Quanto ao conteúdo curricular, estabelecemos o seguinte: como surgiram o povo Kadiwéu e outros povos; como viviam antigamente; diferenças entre os índios e entre índios e não-índios. Inicialmente, conversamos sobre os “tempos de antigamente”, e os estimulei a falar sobre tudo o que sabiam. Muitas histórias foram relatadas, acompanhadas de expressões tais como “Meu avô me contou...”. A partir disso, resolvemos que as pessoas mais velhas da aldeia seriam entrevistadas pelos alunos. Foram sugeridos seis temas: moradia, vestuário, brinquedos, alimentação, guerras e luto, e cada um escolheu o queria pesquisar. Os alunos voltaram com muitas histórias, compartilhadas pelos colegas. Foi contado, por exemplo, o mito de criação dos Kadiwéu, os quais teriam sido tirados pelo Criador, junto com toda a humanidade, de dentro de um buraco.

  • Variações do mito surgiram durante as apresentações das entrevistas e isso estimulou a discussão sobre o surgimento da espécie humana. Foi interessante perceber que, mesmo entre os alunos indígenas evangélicos, existe a idéia de que, se homens e mulheres vieram de Adão e Eva, estes devem ter sido tirados de um buraco! Não houve intenção de desqualificar nenhuma das interpretações (mítica, religiosa ou científica), mas de conhecê-las, compreendê-las e discuti-las. Após essa atividade, propus aos alunos que refletíssemos sobre as diferenças entre as pessoas e entre os grupos humanos.

    Os alunos sentiram que o conhecimento sistematizado por eles sobre o povo indígena do qual fazem parte tem tanto valor quanto o adquirido nos livros dos “brasileiros”. Com isso, atingiram nossos objetivos, identificando relações sociais no próprio grupo, percebendo modos de vida diferentes que os Ejiwajegi desenvolveram em outros tempos e espaços, compreendendo que as histórias individuais coletadas eram parte da história dos Kadiwéu. Também conheceram e aplicaram procedimentos de pesquisa escolar em história e produção de textos, aprendendo a observar, colher e sistematizar informações, tornando-se (nas palavras dos próprios alunos) “antropólogos de si mesmos”.

    A avaliação dos resultados foi feita em sala de aula, quando da exposição oral das entrevistas, da socialização e sistematização dos conhecimentos adquiridos, da confecção de desenhos e através de prova escrita bilíngüe, que solicitou aos alunos uma síntese do que haviam aprendido. Trabalhando o conceito de diferença, todos compreenderam que não eram inferiores aos não-índios, mas únicos e particulares. Ao se tornarem “antropólogos de si mesmos”, os Kadiwéu descobriram uma sociedade rica em tradições, que há muito vive em contato com os não-índios, que enfrenta problemas com invasores de terras até hoje e vive um contínuo processo histórico do qual eles próprios fazem parte. Enfim, descobriram e sentiram a importância de conhecer a própria história. Ganharam confiança para refletir e mostrar o que foram, o que são e o que desejam ser.  E eu aprendi, sobretudo, a enxergar melhor, nos meus alunos indígenas, tão diferentes de mim e ao mesmo tempo tão semelhantes, a riqueza da diversidade étnica e cultural de nosso país.

  • No Brasil vivem hoje mais de duzentos povos indígenas, falantes de pelo menos 170 línguas diversas e com modos de viver e representar a própria existência diferentes para cada povo. O desafio concreto de um professor de história é saber como abordar o passado em um meio onde, muitas vezes, os nomes daqueles que já se foram não podem sequer ser pronunciados, como é o caso dos Kadiwéu. Além disso, cada povo indígena desenvolve um modo muito particular de contar histórias. Relatos como a Guerra do Paraguai, por exemplo, são elaborados pelos Kadiwéu nas categorias concebidas por esses índios: as histórias de admirar (o que seria chamado de mitos, por antropólogos) e as histórias que aconteceram mesmo (narrativas de cunho verídico). Conhecer e compreender essas categorias, portanto, são fundamentais para interagir melhor com os alunos indígenas nas aulas de história. De acordo com os Kadiwéu, uma nova categoria de histórias foi criada entre eles com a entrada, na cena escolar, do professor de história do ensino fundamental: as histórias de ecalailegi, preocupadas com a comprovação da veracidade das informações através da consulta às fontes.

    Vencer a resistência, surgida entre todas as diferenças culturais existentes, foi outro grande desafio que se impôs ao meu trabalho como professor não-índio. Anos de castigos físicos e psicológicos na escola também deixaram marcas profundas entre eles. Senti que havia sido aceito não só quando homens e mulheres Kadiwéu, pais das crianças e jovens, pintaram as paredes da escola com motivos da arte desse povo, mas especialmente quando me batizaram de Oyatogoteloco (“a luz que brilha longe”) e me afirmaram que a história da minha passagem e a de Wanixogowe entre eles seria contada quando seus filhos estivessem dando aulas para as gerações futuras.

    Giovani José da Silva foi coordenador geral e docente do Curso de Formação de Professores Kadiwéu e Kinikinau entre 2001 e 2004. Doutorando em história na Universidade Federal de Goiás (UFG), foi vencedor do Prêmio Victor Civita 2001 – Professor Nota 10 e do 2º. Prêmio Educar para a Igualdade Racial e Étnica 2004.

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