Um dos grandes prazeres de qualquer viagem é a oportunidade que temos de comparar realidades diferentes. E para quem fica, ler os relatos de viajantes também costuma ser uma experiência enriquecedora. Não à toa, esse gênero literário faz sucesso desde o século XVI.
Mas os estudos históricos tendem a privilegiar as narrativas de viagens de grandes cientistas e desbravadores. Deixam de lado experiências de professores, diretores de escola, inspetores de ensino, médicos, bacharéis, jornalistas, religiosos e políticos envolvidos com projetos educacionais. Esses relatos também nos permitem compreender muitos aspectos da vida social.
Afinal, professor também viaja! Alguns, por interesses particulares; outros, em missões de trabalho. As viagens oficiais costumam ser descritas em relatórios. Nem por isso são menos inspiradoras. Quando pegam a estrada, professores e dirigentes são obrigados a deixar de lado o conhecimento “de gabinete”, dos livros e regulamentos. Quando vêem com os próprios olhos outros tipos de ensino, desmancham ou reforçam a imagem que têm das culturas estrangeiras.
A prática de se visitar outras localidades, dentro e fora do país, para conhecer sistemas educacionais não é algo novo. No século XIX, missões pedagógicas rendiam relatos divulgando as novidades ou experiências bem-sucedidas dos locais mais “adiantados”, que poderiam ser “copiadas” por aqui.
Foi o que aconteceu com Antônio Herculano de Souza Bandeira Filho (1854-1890), que viajou para a Europa, em fins do século XIX, imbuído de uma tarefa educativa. Nascido na província de Pernambuco, onde recebeu o grau de bacharel e depois o de doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, Bandeira Filho era um homem letrado. Escrevia artigos sobre diversos temas e participava ativamente de discussões públicas a respeito de assuntos de interesse nacional.
No Rio de Janeiro, sede do Império, foi nomeado diretor da segunda seção da Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça. Em 1880, concorreu a uma cadeira na Escola Normal da Corte – instituição dedicada à formação de professores –, onde passou a lecionar Filosofia e disciplinas ligadas ao Direito. No ano seguinte, obteve licença do governo para ir à Europa para um tratamento de saúde.
Apesar da recomendação médica de evitar trabalhos intelectuais prolongados, o Ministério do Império o incumbiu de uma missão: visitar jardins-de-infância e produzir estudos a respeito das Escolas Normais de alguns dos “principais” países do continente – França, Áustria e Alemanha.
A viagem durou menos de um ano, e o resultado dessa mistura de quarentena com investigação de campo foram dois relatórios enviados ao Ministério. A primeira característica que chama a atenção é o tom humilde utilizado. Como que se justificando antecipadamente diante de prováveis críticas à sua análise, Bandeira Filho previne o leitor sobre possíveis “enganos” e pede desculpas pelos “muitos defeitos que ela encerra”. Argumenta que escreveu em situação adversa: “em viagem, na ausência dos documentos que colecionei”. Por isso, o relatório era, em suas palavras, apenas “uma indicação das minhas impressões”.
Se soubesse a repercussão que teriam seus escritos, ele não se preocuparia tanto. Os relatórios publicados pelo governo imperial conferiram ainda mais notoriedade ao professor, tanto que, um tempo depois, ele foi nomeado Inspetor Geral da Instrução Primária e Secundária do Município Neutro (como então se designava a sede da Corte). Mais do que isso: suas análises sobre o sistema de ensino “europeu” (mesmo tendo conhecido apenas três países) entraram na pauta pública do governo. No texto, ele chegou a alertar para a impossibilidade de simplesmente transplantar para o Brasil os modelos europeus, devido às diferenças culturais entre os países. Ainda assim, viu seus relatórios gerarem planos para uma profunda reformulação da Escola Normal.
E o que ele dizia? Em síntese, chegou a três grandes conclusões. A primeira: diferentemente do que ocorria no Brasil, em parte alguma da Europa havia Escola Normal mista. Cada sexo tinha uma escola separada. A segunda: também em parte alguma as Escolas Normais funcionavam à noite, pois este era um período impróprio para os exercícios de prática pedagógica. Por último, afirmava que, comparado ao que se ensinava na Europa, o programa da Escola Normal da Corte era sobrecarregado “na parte científica, com prejuízo da parte literária”.
A repercussão do trabalho e as discussões que já estavam em andamento sobre o tema levaram o governo a formar, em 1882, uma comissão para propor mudanças no regulamento da Escola Normal. Em sua posição contra o ensino misto, Bandeira Filho ganhou o apoio de outras figuras públicas envolvidas com as questões educativas, como o bacharel Theophilo das Neves Leão (1832-1906) e o político Rui Barbosa (1849-1923). Como cada sexo desempenhava papéis sociais distintos, nada mais natural do que diferenciar a educação de meninas e meninos.
Alguns pontos geraram controvérsia entre a comissão, professores e até alunos. Um deles foi a proposta de mudança do horário de funcionamento da Escola Normal, que passaria do turno da noite para o da manhã. A idéia era aproveitar as horas mais vantajosas do dia para os exercícios práticos de pedagogia. O próprio diretor da Escola, Benjamin Constant (1836-1891), era contrário a essa medida. Ele argumentava que o ensino noturno permitia a freqüência dos professores-adjuntos – alunos que estavam se formando na carreira de mestre e que durante o dia auxiliavam os professores regentes nas atividades escolares. O debate sobre a mudança do turno gerou protestos dos alunos que trabalhavam durante o dia. Trinta e oito deles enviaram uma representação ao Ministério para que este rejeitasse a proposta.
Houve consenso quanto à freqüência obrigatória dos professores em formação. Mas não entrou em pauta uma política muito elogiada por Bandeira Filho em seu relatório: o internato. Segundo ele, a escola francesa e a alemã funcionavam nesse regime, que tinha a grande vantagem de isolar o futuro professor do mundo, controlando cada aspecto da sua vida. Assim a instituição poderia moldar melhor o caráter dos mestres, principal qualidade atribuída ao “bom professor”. Este era um princípio fundamental para que a escola cumprisse a função de homogeneizar, de “normalizar” os futuros professores. Para o normalista brasileiro, o regime de internato revelava a estrutura profissional das escolas francesas. A “vocação do professor não se forma na aula em uma ou duas horas de lição”, escreveu. Vocação e caráter estariam diretamente associados. Por isso, a formação do professor poderia ser comprometida pelas interferências do mundo privado. Daí seu encantamento pela formação de mestres em internatos ou seminários.
O trabalho da comissão gerou uma série de outras recomendações, como mudanças no currículo – com a supressão da cadeira de Instrução Religiosa – e até a transferência de sede da Escola Normal, que funcionava no prédio da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco, Centro do Rio. A construção dispunha de grandes salões, com capacidade para muitos alunos, e laboratórios de física e química que auxiliavam no ensino das cadeiras da Normal. Mas argumentava-se que não havia lugar para a instalação de um museu pedagógico, de uma biblioteca e de um ginásio, espaços julgados fundamentais para a formação dos professores. Além disso, o prédio da Politécnica não seria apropriado para receber alunas, pois não havia latrinas próprias para as mulheres. Assim, a mudança de sede também atenderia à demanda daqueles que pretendiam acabar com o ensino misto.
Consensuais ou controvertidas, as modificações inspiradas nas observações de viagem de Bandeira Filho ficaram todas no papel. O orçamento da Escola Normal não previra verba suficiente para adotar nenhuma delas. Mas o esforço não foi em vão: em 1888, o curso ganharia, enfim, um novo regulamento, destinando-se a “formar professores para as escolas públicas da instrução primária do município da Corte”, funcionando no turno diurno, com extensa grade curricular e normativa a cumprir.
Mais de um século depois, os desafios continuam. No Velho e no Novo Mundo, a formação prévia dos professores mobiliza dirigentes e educadores, que não cessam de viajar, de estudar a sua realidade e realidades estrangeiras, embalados pelo sonho de encontrar respostas para os graves problemas da educação e a tecnologia mais adequada para formar seus mestres.
José Gonçalves Gondra é professor da UERJ e co-autor dos livros Educação, poder e sociedade no Império Brasileiro (São Paulo: Cortez, 2008) e Viagens Pedagógicas (São Paulo: Cortez, 2007).
Marina Natsume Uekane é mestre em Educação e professora da rede municipal da cidade do Rio de Janeiro.
Saiba Mais - Bibliografia:
BINZER, Iná Von. Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
CHAMON, Carla. S. Escolas em reforma, saberes em trânsito – A trajetória de Maria Guilhermina Loureiro de Andrade (1869-1913). Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
LEITE, Mirian. L. M. Livros de viagem: 1803-1900. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.















































































