
A arte de sonhar
Ela faz do sonho a matéria de suas histórias. E finge que mente o tempo todo. Para Ana Miranda, é isso que a diferencia dos historiadores. “Eles fingem que estão dizendo a verdade. O nosso material é o mesmo, mas eu preciso mergulhar nele, transformá-lo”, explica a escritora, famosa por obras que passeiam entre a ficção e a fidelidade histórica e que já lhe renderam dois prêmios Jabutis e um da ABL.
Ana Miranda nasceu em Fortaleza e mudou-se para o Rio de Janeiro ainda menina. Depois seguiu para Brasília, onde o pai, engenheiro, trabalhou na construção da cidade. Na capital, cantava com a irmã, desenhava sem parar e enchia páginas de um diário com pura fabulação. De volta ao Rio, um dia sonhou com um roubo, um casamento e a trilha do ouro, tomou coragem e começou a escrever. E não demoraria muito para Boca do inferno (1989) sair do forno, um sucesso em várias línguas cujo personagem central é o poeta Gregório de Matos. “Mas na medida em que mergulhei no meu trabalho, fui fechando a popularidade que este livro me deu”, lembrando que em determinado momento decidiu seguir por um caminho “menos fácil”.
Convidada para apresentar seu próximo livro, sobre Xica da Silva, no Festival de História em Diamantina, a Revista de História a entrevistou nesta paisagem onírica de serras e memórias. Ainda receosa de falar sobre seu novo trabalho, conversamos com Ana Miranda na casa que pertenceu à “Imperatriz do Tijuco”. Ela não demorou a confessar: “Sou fascinada por ela”.
Ao se debruçar na sacada de treliças da construção colonial, a escritora maquinava uma dúvida: por qual dos dois caminhos que se abrem diante da casa teria seguido o contratador João Fernandes quando partiu para Portugal deixando Xica para sempre? Ana Miranda parecia mais uma vez sonhar.
RH – Você está morando no Ceará, não é?
AM – Sim. Eu moro em uma praia. São 27 quilômetros de Fortaleza. É uma praia muito bonita, com uma vista.Chama-se Prainha de Nossa Senhora dos Navegantes. Um amigo disse: “Ana, você é minha única amiga que tem um quintal com jangadas”. [risos]
RH - E te ajuda a escrever?
AM - Ai, quem me dera. O meu sonho era esse. Ficar na praia, escrevendo. Mas a única coisa que mudou é que o cenário é paradisíaco. O resto é tudo igual. Parece que eu estou no Rio de Janeiro. É a mesma coisa. Tem toda a parafernália de computador, email para responder... Às vezes o computador quebra e eu tenho que levá-lo lá no fim de mundo para ser consertado. Mas é um lugar assim muito revigorante do ponto de vista de se reconstruir internamente, não é? Cada vez que você vai mais para dentro de você mesmo, mais você vai indo para a sua infância, nas suas origens e tudo. Então eu senti aquele vazio, quer dizer, só o retrato. O Drummond ainda tinha um retrato na parede. Eu não tinha nenhum retrato na parede. Era só o prego. [risos]
RH – O que a atrai na História?
AM – Eu acho a História algo fascinante. E ela é muito mais ampla do que apenas a própria História. Isto porque cada um tem a sua. Para mim, a História foi o que me aproximou do Brasil. Foi com ela que aprendi a valorizar nosso país. A História tem uma questão, não digo terapêutica, mas de construção mesmo de você e da autoestima do país. E mesmo da linguagem, que é muito importante. Ela carrega um manto muito grande de palavras. Isto é uma coisa que aprendi desde o colégio, em Brasília.
RH – Sua formação teve influência na sua escolha pela arte?
AM – A questão mais fundamental da minha formação foram as escolas de Brasília. Havia escolas formuladas pelo Anísio Teixeira e por Darcy Ribeiro. Então eram escolas muito voltadas para o Brasil e um ensino que se chamava na época de “generalista”, que dava aos alunos uma base cultural ampla. Já muito pequena, eu estudava na Escola Classe pela manhã e na Escola Parque à tarde. Eu e minha irmã, Marlui Miranda, que é cantora, compositora, musicista e trabalha com música indígena. E nós demonstramos muito cedo uma certa aptidão para as artes.
RH – Você chegou a estudar no SIEM?
AM – Sim. Foi onde eu fiz o ensino médio. Era uma escola dentro da Universidade de Brasília. O Milton Hatoum foi meu colega de classe. Quando eu o encontro fico perguntando: quem era o nosso professor, Milton? Quem era o nosso professor de literatura? Para dar dois escritores... [risos]
RH – Nesta época já se interessava por literatura?
AM - No SIEM tinha literatura no currículo normal, mas à tarde nós podíamos fazer cursos na universidade. Naquele momento, eu desenhava mais do que escrevia. Desenhava e pregava nas paredes. Com 16 anos de idade, cheguei a fazer uma exposição. As pessoas me viam no futuro desenhando. Acho que até eu me via desenhando. Escrevia diários íntimos. Ninguém podia ler. Anotava os meus sonhos, em geral terríveis. Era uma coisa secreta. A não ser umas poesias que eu e a Marlui fazíamos desde pequenas. Desde muito pequenas nós fazíamos livrinhos de poesia por nossa conta. É curioso: além do fascínio pela natureza de Brasília, os desenhos que eu fazia também tinham esse aspecto onírico.
RH - E sua passagem pelo cinema?
AM - Nunca tinha me interessado pelo trabalho de atriz. Desde criança sempre me satisfez mais o trabalho autoral, de criação. Mas eu era uma moça nova ali do SIEM e chamava atenção. Diziam que eu tinha cara de Cinema Novo porque era muito tímida, com cabelos muito compridos, tinha uma certa atmosfera. E eu e minha irmã éramos muito famosas em Brasília porque a Marlui tocava violão e participava de festivais de música. Nós dávamos entrevistas na televisão. Então, quando os estudantes do curso de cinema fizeram o primeiro filme da universidade, me convidaram para ser atriz. E fui. Um dia me chamaram pra fazer um comercial também. Era uma propaganda de moto. Ficava sentada atrás de uma moto, com os cabelos voando. Eu gostava de trabalhar. E precisava trabalhar, não é?
RH – Como conheceu o Nelson Pereira dos Santos?
AM – Quando voltei para o Rio de Janeiro, nos anos 70, logo casei com o Arduíno Colassanti. Ele era um ator do Cinema Novo. E o Arduíno estava se preparando para filmar Como era gostoso o meu francês. Foi assim que conheci o Nelson Pereira dos Santos, que foi um grande mestre para mim nessa área do Darcy Ribeiro. Ele continuou a me dar uma formação nesse sentido de valorização do Brasil. E ali naquela vivência o Nelson me apresentou um universo indígena, colonial. Porque nós fomos para Paraty. E isso tem uma relação muito profunda com a minha escolha pela literatura. Até porque eu fui como mulher do Arduíno, mas ajudava bastante.
RH - Era um mutirão, não é?
AM - Era um mutirão. Naquele tempo cinema se fazia por amor. Às vezes ninguém recebia e mesmo assim continuavam trabalhando. Era um cinema muito pioneiro. E ali naquela convivência com o que seria o mundo indígena, o que seria uma vida na mata, eu vi como te
ria sido a vida colonial brasileira. Isso era uma coisa absolutamente nova pra mim. Sabe quando o velho é novo? É a verdade do tempo. Porque o tempo não existe, não passa de uma convenção. O tempo literário é absolutamente diferente do calendário. E, bom, foi em Paraty que eu tive o sonho que mudaria tudo.
RH – Que sonho foi esse?
AM – Eu já escrevia bastante nessa época. Tinha vários cadernos de sonhos anotados em diários e algumas histórias ficcionais. Aliás os meus diários eram ficcionais, eu mentia para mim mesma nos meus diários. Eu e minha irmã éramos muito unidas. Ela me contava tudo o que tinha acontecido na vida dela durante o dia. Quando chegava a minha vez de falar, mentia [risos]. Eu já era uma cabeça da fabulação, da imaginação, muito imaginativa. E lá em Paraty, durante essa experiência, eu tive um sonho sobre o caminho do ouro que ia para Minas, de Paraty a Ouro Preto, Vila Rica na época colonial. Eu estava no sótão de uma casa antiga de Paraty, vestida como uma pessoa do século XVII. Eu e algumas pessoas preparávamos uma festa. Era o meu casamento. De repente, alguém dizia: “O seu vestido de noiva foi roubado”. Eu ficava desesperada, descia as escadas, montava um cavalo e ia pela trilha do ouro atrás dos ladrões do vestido de noiva. Esse sonho me deixou muito curiosa. Eu queria conhecer melhor a história dessa trilha do ouro. E fui desenvolvendo um núcleo narrativo em cima disso.
RH – Foi um sonho profético.
AM – Pois é. E os meus casamentos nunca mais deram certo. Um casamento com a literatura. O vestido de noiva nunca mais foi encontrado. [risos] Dediquei-me mesmo à palavra porque nela encontrei assim lugar para uma aptidão muito vasta. Eu sofria muito. Via a Marlui sempre crescendo, crescendo. Porque ela fazia só música, sempre se aprofundando mais. Eu sempre perdida entre tudo que me ofereciam. Gostava de tudo, mas no fundo estava me preparando para ser uma romancista. E a romancista precisa ter essa experiência ampla do mundo. Mas você disse bem: um sonho profético. E não foi o único.
RH – Qual foi o outro?
AM – Eu também tive um sonho com o Padre Vieira. Eu estava escrevendo o Boca do inferno. Ele estava em pé, todo esfarrapado, na frente de uma casa muito pobre de palha. Aos seus pés estava uma índia remendando a sua roupa. Era no Maranhão, e aquele sonho foi tão nítido que parecia verdade. O Padre Vieira com uma índia. Eu fiquei durante anos pensando em escrever um livro a partir deste sonho. Mas o “Yuxin” nasce mesmo em 2002, quando fui passar um tempo na casa de minha irmã. Ela trabalha com a cultura indígena e aquilo tudo me inspirou. Eu queria que a índia fosse a narradora. Ela tinha que ter a sua linguagem própria. E isto é muito difícil encontrar e construir.
RH – Por quê?
AM – Não há muitos registros. E naquele momento, quando eu ia atrás de livros de índios para entender como eles falavam, não era um índio. Era um índio falando igual a um branco. Mas eis que um belo dia eu encontro um livro do Capistrano de Abreu, um vocabulário caxinauá. Não era exatamente o que eu estava pensando. Eu queria algo para o lado do Ceará porque o Padre Vieira andou ali na Serra da Ibiapaba. O Capistrano de Abreu me levou para outro lugar. Mas um lugar muito relacionado com o Ceará. O Acre é filho do Ceará. Eu tenho uma amiga acreana que mora em Brasília e fala com sotaque cearense. A maioria dos seringueiros era cearense, não é? O livro tinha umas 700 pá
ginas. O Capistrano de Abreu perguntava os nomes das coisas para os índios e ia anotando. E isso é um material fantástico para a construção de uma voz indígena, quer dizer, uma voz da floresta. Porque o índio não tem esse sentido de “eu” como nós temos. O índio tem a noção do “eu”, mas ela é totalmente relacionada, fundida, amalgamada com o que está em torno, com a natureza. Ele passa a ser um bicho, e o bicho passa a ser ele. Eu não sabia que peixe faz barulho. Mas peixe faz barulho. O peixe mocinho faz “toin, toin”. O livro foi se enriquecendo com a voz dos bichos, com o som da floresta, sabe?
RH – Como você se vê com relação aos dos escritores que fazem literatura histórica?
AM – Difícil dizer. Eu acho que o único romancista que tem experiência histórica é o Saramago. E ele tinha uma hostilidade em relação ao gênero. Ficava irritado quando diziam que ele escrevia romances históricos. O Saramago dizia: “Eu não escrevo romance histórico. Escrevo romance nas lacunas da história”, o que é bem diferente. Eu estou mais para a posição da Marguerite Yourcenar. Você sabe que o romance histórico é um gênero muito polêmico. Ele é polemizado porque as pessoas querem uma distinção muita clara entre ficção e história. Mas essa distinção não existe porque todo romance é histórico. Todo romance historia o comportamento humano. É uma maneira de história, não é?
RH – Então você é uma historiadora?
AM – De maneira nenhuma. Eu não trabalho propriamente com a História – a arte, a ciência da História. Eu não sou uma historiadora. Nós trabalhamos com a mesma matéria. Agora, nós nos relacionamos com ela de maneira diferente. O historiador precisa ficar isento, permanecer de fora do material para ter capacidade de fazer as análises, não é? Ele tem de discernir da forma mais lógica, mais racional possível, aquele material que está sendo examinado. O ficcionista não: ele tem que mergulhar naquilo, transformar aquele material. Eu tenho que ser aqueles personagens porque senão eu não realizo o meu trabalho. Se eu ficar de fora, não escrevo. A postura é exatamente contrária. Tempos atrás, em um debate nos EUA, eu disse uma frase que tem tudo a ver com isso que estamos conversando agora: os historiadores são ficcionistas que fingem que estão dizendo a verdade, e os romancistas são historiadores que fingem que estão falando uma mentira.
RH – Como são feitas as suas pesquisas?
AM - Eu não chamo de pesquisa. Eu chamo de viagem. [risos] Faço tudo sozinha, nunca tive nenhum pesquisador e nem poderia ter. Dizem que o Maurice Druon tinha 14 historiadores trabalhando para ele. Mas eu não conseguiria fazer isso porque eu não sei o que eu quero. Eu vou cega, aberta. Não sigo atrás de uma informação. Não quero fazer reconstrução de nada. Eu viajo pelo material que vou encontrando. É um trabalho absolutamente selvagem. É um trabalho absolutamente racional. Eu leio muito. Acho que isto talvez seja o mais importante. Aliás, acho que gosto de ser escritora porque sou obrigada a ler. Adoro ler.
RH – E como foi lidar com o sucesso de Boca do inferno?
AM – Eu não esperava tudo aquilo. O Boca do inferno é até hoje o meu livro que vende mais. É ele que carrega a minha imagem de escritora. Agora, acho um livro muito respeitoso da constituição clássica do romance, cervantina, não é? Com aquelas formas narrativas, harmonicamente desenvolvidas, com diálogos, etc. É como se eu tivesse fazendo um exercício de domínio da técnica de construção do romance. Eu quebrei um pouco isso já no Retrato do Rei. Rompi com a linearidade. É uma obra um pouco mais ousada. Na verdade, na medida em que mergulhei no meu trabalho, fui fechando a popularidade que conquistei com o Boca do inferno.
RH – Por quê?
AM – Acho que fui me encontrando como escritora. Foi isso que aconteceu. A Lygia Fagundes Telles disse certa vez que eu sou uma escritora de imaginação e linguagem. É exatamente isso! Eu não sou como a Clarice Lispector, uma autora de sensações. Ela narra as sensações. São reflexões sobre o que ocorre dentro de uma mente com uma abstração, uma percepção muito abstraída. Eu sou imaginativa, fabuladora. Sempre fui de contar e inventar histórias. E gosto muito da trama e da imagem. Sou mais dessa linha do José de Alencar e do Guimarães Rosa. Estes autores, incluindo a Clarice, foram muito importantes para a minha trajetória como escritora. Eles me foram muito estimulantes. Eram muito corajosos e enfrentaram suas obras, sempre dispostos a se reinventarem e correrem o risco de serem incompreendidos. Quando eu estava escrevendo Desmundo, tinha medo de estar fazendo algo muito estranho. E foi a Clarice quem me deu coragem para voar. Hoje eu sei que foi no Desmundo, um livro carregado pela palavra, que eu consegui o que eu queria
realmente.
RH - Você poderia falar um pouco do seu próximo livro, sobre Xica da Silva?
AM – É um projeto encomendado por Eduardo Bueno. Não sou muito chegada a encomendas, uma atividade muito comum entre escritores hoje. Mas Xica da Silva é uma personagem que me interessa, por quem eu tenho encanto, paixão, fascínio, curiosidade. É uma biografia. Só que contrataram uma romancista para escrever uma biografia. Então, eles estão sabendo que eu não vou ser um biógrafo tradicional. Eu estou puxando bastante para o lado da mãe da Xica da Silva e para a relação que ela mantinha com a África. Porque havia dentro dela esse lado africano. Você não é diferente daquilo que você é. Você é aquilo que você nasce. Ela nasceu filha de uma negra nascida na África, chegou aqui já criança. Então, trouxe uma experiência africana. E ser negro não é ter uma cor de pele. É todo um modo de ser, de se mover, de pensar, de sentir o mundo. Ela era uma parda, uma mulata clara, mas tinha a vivência negra, foi criada por uma mãe africana dentro de uma casa de negros forros que tinham sido escravos e conseguido a libertação. Xica da Silva cresceu ouvindo falas e cantos africanos. Ela não pode ser dissociada disso de forma alguma. Neste momento, acredito que eu tenha encontrado uma maneira de estruturar esta história.
RH – Qual?
AM - Quando estou escrevendo a Xica da Silva, eu sou a Xica da Silva. [risos] Eu tenho que me pôr no lugar dela e das outras pessoas. Então, dividi estruturalmente entre cena, aquilo que eu vou imaginando, e o texto, onde estão os documentos históricos. Isso me possibilita imaginar a Xica da Silva, aquele momento crucial, quando ela ficou sozinha depois de toda a luta dela. Então, imagino a Xica da Silva vendo o João Fernandes i
ndo embora e ela ficando sozinha. Como ela poderia existir sem ele? Que vida era aquela sem o lado masculino?
RH – Qual é o traço mais forte da personagem?
AM – Acho que é a ideia de uma mulher que luta. Ela é uma figura de grande força e é usada por cada época com uma intenção diferente. É muito difícil recuperar exatamente a Xica da Silva. Ela passa por diversos estereótipos, sentimentos e preconceitos. Essa é a grandeza dela. Uma mulher que luta contra o encarceramento, não somente contra a escravidão. Existem muitos tipos de escravidão. E todos nós estamos submetidos a várias prisões, não é? Essa liberdade tão almejada do ser humano é sempre parcial. Não existe ninguém que seja totalmente livre. Você será sempre escravo das suas memórias, preso a todo um universo. A grande prisão humana é você mesmo.
RH – Quais são suas fontes principais?
AM - Bom, as fontes do romancista são os sentidos. Tudo que me entra pelos cinco sentidos – visão, olfato, tato, audição e gosto. Precisa ter uma experiência para transmitir experiência. Às vezes, de tocar alguma coisa, ouvir uma voz ou ver uma pessoa se alimentando... A fonte é a própria vida. Agora, eu tenho as fontes históricas. E eu procuro me manter fiel a elas. O James Elroy dizia assim: “se a história não me serve, eu mudo a história”. Eu não tenho essa coragem. Se a história não me serve, eu mudo a minha história, quer dizer, procuro sempre respeitar uma certa localização dentro de uma verossimilhança histórica. Porque a história também é uma loucura. Ela muda toda hora. Às vezes o próprio historiador se contradiz e volta atrás. O passado é uma coisa totalmente imaterial, e perdida. Não existe mais. O que existe é uma reconstrução constante de uma memória.















































































