Especial Dia do Historiador - Márcia Chuva

O lugar da controvérsia

Agnes Alencar

  • Professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Márcia Chuva fala do papel do historiador na sociedade brasileira de hoje. Historiadora com pesquisas múltiplas referentes à relação entre memória e patrimônio cultural, ela aposta na função desorganizadora do conhecimento histórico: desafiar sentidos dominantes e repensar posicionamentos. 
     
    Revista de História – O Brasil é um país desmemoriado?
     
    Márcia Chuva – De forma alguma! Vejo no Brasil uma ânsia por memória, uma guerra de memórias que se faz cotidianamente, em diferentes escalas e situações. Vejo muito trabalho investido para desconcertar memórias hegemônicas, na busca de espaços para disseminação de memórias soterradas, que têm se tornado visíveis a partir de novas pesquisas, fontes, abordagens, memórias recompostas a partir também de uma aproximação entre os movimentos sociais e a escrita da história. No dia a dia do nosso trabalho, enfrentamos uma luta para fazer valer o direito constitucional à memória, a começar pela abertura, guarda segura, tratamento e acesso a arquivos documentais, uma luta pela preservação de vestígios materiais de diferentes naturezas ameaçados por inúmeros fatores. O crescimento expressivo de trabalhos de história oral, como o acervo gerado ao longo do curto período de trabalho da Comissão da Verdade, é também prova inconteste de que os brasileiros reivindicam um espaço de reconhecimento de suas memórias.
     
    Vivemos, contudo, num país em que a grande imprensa é praticamente monopolizada – o jornal impresso, a TV, o rádio – dita valores, pauta questões, impõe sentidos que se repetem até se tornarem verdade. Fica reservado o espaço marginal e periférico para a diferença, para o contraditório e, com isso, muitas memórias e brasis parecem estar invisibilizados ou silenciados ainda hoje.
     
    RH – Qual o papel do historiador hoje?
     
    MC – É o papel do intelectual, ainda que esse papel possa ser interpretado de diversas formas. Entendo que o intelectual/historiador tem um lugar de ação política, não para dizer como as coisas aconteceram, mas para dar sua opinião, comprometer-se politicamente, participando de debates em fóruns político-acadêmicos, populares, nos meios de comunicação, nas redes sociais etc. O historiador pode dar subsídios para que temas socialmente cruciais sejam debatidos ou, ainda, para pautar novos temas. O intenso debate vivido na sociedade brasileira sobre a redução da maioridade penal, por exemplo, pode ser subsidiado pelo conhecimento histórico. A maioridade no Brasil foi determinada nos 18 anos, em 1927, a fim de proteger crianças de abusos em prisões. O que mudou nessa realidade em menos de 100 anos? Cabe ao historiador dar profundidade histórica a temas atuais, complexificar as questões, mas não dar a palavra final, como se fosse o detentor da versão mais acertada sobre qualquer coisa.
     
    Em julho de 2015, os manifestantes discutem, em Brasília, sobre mitos e verdades da maioridade penal. (Imagem: AGÊNCIA BRASIL / FOTO VALTER CAMPANATO)RH – Para além das instituições de ensino, onde atua o historiador?
     
    MC – O campo das instituições de memórias abrange um significativo universo de possibilidades para o trabalho do historiador. Esse campo é constituído por museus de história, de arte, etnográficos, arquivos públicos, centros culturais, instituições públicas de patrimônio cultural, centros de memória de empresas, de movimentos sociais, de entidades da sociedade civil, dentre outros. Além das instituições de memória, há também o campo da produção cultural, como o cinema, o teatro, a televisão. Trata-se de dar substância histórica com verossimilhança a temas e questões presentes na sociedade hoje, que se expressam em diversas linguagens e sujeitos. São todos eles espaços de escrita da história por meio de linguagens diferentes da escrita, tais como a linguagem do audiovisual, do vestuário, das exposições dos museus, do espaço urbano, da arquitetura etc.
     
    Mas é preciso destacar: essas inserções não devem ser vistas como uma alternativa secundária ou menos qualificada para aquele profissional que não seguiu uma carreira acadêmica tradicional. Quanto mais qualificado, maior a sua capacidade crítica e reflexiva e maior a sua contribuição em quaisquer desses espaços profissionais.
     
    A amplitude alcançada pelo mundo do patrimônio é surpreendente, sendo este, sem dúvida, um espaço de trabalho privilegiado para o historiador. Nos anos 1980, esse tema era praticamente circunscrito à formação do arquiteto, numa perspectiva estética da história da arte. Embora a História estivesse desde sempre presente no campo do patrimônio, não se configurou ali um lugar próprio para o historiador. No Conselho Consultivo do Iphan, órgão máximo na decisão daquilo que será reconhecido como patrimônio cultural brasileiro, por exemplo, sempre houve historiadores, em geral sócios do IHGB. No entanto, ao contrário do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), da SAB (Sociedade de Arqueologia Brasileira) e da ABA (Associação Brasileira de Antropologia), a ANPUH não dispõe de uma cadeira própria. Por que não buscamos um lugar de representação também para a ANPUH nesse Conselho?
     
    RH – Uma última provocação é sobre a utilidade da história: cabe dizer para que a história serve? Se cabe, para que serve?
     
    MC – Ernst Renan, em 1882, dizia que “O esquecimento da história é um fator essencial na formação de uma nação”. Eric Hobsbawm, por sua vez, atualizando Renan, afirmou que “o que faz uma nação é o passado (…) e os historiadores são as pessoas que o produzem”. Poderia então dizer que a História serve para produzir heróis, mitos ou mentiras, um passado apaziguado para harmonizar as tensões do presente. Mas a História hoje em dia tem desorganizado mais do que organizado, tem desconstruído sentidos dominantes, desafiado as narrativas hegemônicas. A História é o espaço para a controvérsia. Como diz o personagem principal do premiado filme de animação Uma história de amor e fúria: ”viver sem conhecer o passado é andar no escuro”. O historiador pode contribuir com a sua parte para cada um enxergar o que conseguir, alcançar e quiser.

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