Irotilde Gonçalves

"Não é proibindo que não acontece. Acontece. Se fosse legalizado, o aborto não seria a 5ª causa de mortalidade materna no Brasil."

Entrevista por Bernardo Camara

  • Por cima do tabu

    Irotilde Gonçalves [Acervo pessoal]

    Há duas décadas e meia, um furacão passou pela vida de Irotilde Gonçalves. “Sofri cartas anônimas, telefonemas, jogavam muito ovo na minha casa. Foi bem ruim”. O motivo: ela estava cumprindo a lei. Assistente Social no Hospital Municipal Arthur Ribeiro Saboya, em São Paulo, Irotilde foi uma das pessoas que colocaram de pé o primeiro serviço de abortamento legal no Brasil e na América Latina, em 1989.

    O serviço começava a funcionar com um atraso de quase cinco décadas. Desde 1940, o Código Penal permite a realização do aborto em gestantes que correm risco de morte ou nos casos em que a gravidez resulta de estupro. Mesmo assim, não havia no país qualquer política pública ou estrutura estabelecida para atender essas pessoas. 

    A virada veio no governo de uma mulher. Quando Luiza Erundina assumiu a prefeitura da capital paulista, resolveu passar por cima do tabu e fazer a lei, enfim, valer. Mas não foi fácil: dos dez hospitais que faziam parte da rede municipal, apenas um aceitou criar o serviço. “Não sabíamos nada. Aprendemos com a prática. Sentamos, elaboramos um fluxo, estabelecemos as pessoas que fariam esse atendimento e começamos”, recorda Irotilde.

    O assunto foi aos poucos ganhando terreno na arena pública. Mas mesmo 25 anos depois, ele continua marginalizado pelo Estado. “Se fosse legalizado, o aborto não seria a 5ª causa de mortalidade materna no Brasil. São mortes perfeitamente evitáveis”, defende a assistente social, que conversou com a RHBN sobre um capítulo que começava a ser escrito em território nacional.

     

    São Paulo inaugurou os serviços de abortamento legal no Brasil?

    Sim. Na verdade, o Leonel Brizola já tinha feito essa proposta durante seu governo no Rio de Janeiro. Ela estava caminhando. Mas o cardeal do Rio não quis que tivesse. E não teve. O serviço seria na maternidade Fernando Magalhães.

     

    Que depois acabou tendo.

    Agora tem, depois que começou em São Paulo. O serviço aqui serviu de modelo para o Brasil todo. O ano de 1989 foi um marco em prol da saúde e das políticas sociais no Brasil. Principalmente em relação às mulheres. O Código Penal brasileiro existe desde 1940 [autorizando aborto nos casos de risco de morte da gestante ou em gravidez resultante de estupro]. E havia esse lapso de 49 anos. Aí no governo da Luiza Erundina ela tira isso do papel, dá luz a essa lei. Fez isso pela reivindicação dos grupos feministas. Há uns 20 anos já tinha essa luta. Mas com muita dificuldade. Falar em aborto na época era muito complicado. Ainda é. Mas era mais ainda. A prefeita nomeou a Maria José Araújo na Coordenação da Saúde da Mulher e começou uma pesquisa para definir em qual hospital seria feito o serviço. Esse processo demorou um pouco.

     

    Por que demorou?

    Tinha 10 hospitais na rede municipal. E nenhum aceitou fazer esse atendimento. Todo mundo achava que alguns hospitais mais ligados às mulheres, como as maternidades, iam abraçar a causa. Mas não. O hospital [Municipal Arthur Ribeiro] Saboya não tinha muito a ver, pois era referência para Politrauma. A gente tinha maternidade, ginecologia, centro obstétrico, só que tudo muito pequeno, para emergência. Mas tínhamos um diretor com uma visão muito boa. E eu também já estava aqui lutando por isso há muito tempo. Foi uma batalha, uma luta implementar. Mas o diretor apoiou. Aí formou-se uma comissão com médico, assistente social, psicólogo, assessoria de advogado e começamos o atendimento.

     

    Na época não havia referências por aqui. De onde vocês partiram para estabelecer um modelo de atendimento?

    Não sabíamos nada. Aprendemos com a prática. Sentamos, elaboramos um fluxo, estabelecemos as pessoas que fariam esse atendimento e começamos. Foi tudo construído aqui, porque na América Latina não havia esse serviço. Depois foi chegando a outros países. O Uruguai agora está muito mais avançado que o Brasil. Mas naquele tempo não se tinha nada. Tanto que fui para esses países falar como fazíamos aqui. Viramos modelo.

     

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    Como foi a reação dos funcionários do hospital?

    Tivemos que fazer um processo de sensibilização. Porque não dá para ter um atendimento desses num grupinho fechado, naquela equipe só. Todo o hospital tem que saber. Desde segurança, telefonista, todo mundo. Porque às vezes ligavam e a telefonista, que era contra, dizia que não se fazia aborto aqui.

     

    Fizemos esse trabalho de sensibilização por seis meses. Dentro do próprio hospital tinha muita gente contra. Tanto médicos, assistentes sociais, funcionários. Achavam um absurdo ter um serviço desses. Como eu estava aqui há muito tempo, todo mundo me conhecia. Me falavam: ‘Poxa, Tilde, que decepção”. No grupo de assistentes sociais, as colegas diziam que eu tinha me transformado em uma aborteira.

     

    Passamos por tudo isso para estabelecer o serviço. Agora as pessoas têm uma visão melhor, porque já se fala disso. Quando não se fala de um assunto, ele fica à sombra, na clandestinidade. E é hipocrisia pura, porque a gente sabe o tanto de aborto que existe. Não é porque é proibido que não existe. Existe sim, e mata mulheres sim. Mas é como se não existisse.

     

    Como as mulheres violentadas faziam antes do serviço existir?

    Infelizmente eu presenciei isso. Já trabalhava há muito tempo aqui, era assistente social do Pronto Socorro. Muitas vezes chegava uma mãe com a filha que tinha sido violentada. Uma adolescente, criança. E estava grávida. Ninguém atendia, não se falava disso. Era um crime. Então ela era orientada a procurar autorização judicial. E ia atrás disso. Só que era muito demorado. Quando saía o alvará, já estava no sexto mês de gestação. Aí já não dava mais para atender. Então aquela menina acabava sendo obrigada a ter essa criança. Ou a procurar serviços clandestinos.  

     

    Eu via o sofrimento das mulheres no hospital e isso me sensibilizava muito. Acho que isso que me moveu tanto. Quando você não tem contato com a realidade, você não tem dimensão do que é isso. Eu atendia mulheres que tinham sofrido violência, que provocavam aborto inseguro. E é cruel.

     

    O Hospital Saboya também começou a atender casos de anencefalia muito antes de o STF permitir isso em 2012, não é?

    A gente só atendia caso de estupro, previsto no Código Penal. Mas em 1993, saiu o primeiro alvará para fazer interrupção de fetos incompatíveis com a vida. Daí começamos a fazer esse atendimento, por meio dos alvarás. Era trabalhoso e muito triste. A mulher vinha, fazia todo o diagnóstico e pegava um relatório médico. Aí tinha que ir ao cartório, reconhecer firma de três médicos e ir ao fórum pedir autorização para fazer a interrupção. Isso tudo durante a gestação. Era muito cruel.

     

    Protesto em Brasília, em novembro de 2014, a favor dos direitos reprodutivos das mulheres. (Agência Brasil / Foto: Marcelo Camargo)

     

    O serviço no hospital acabou funcionando como um teste. Teve muitas complicações?

    Quando você tem apoio político – da diretoria, do médico – a coisa vai dando certo.  Foram pessoas ousadas, que tiveram muito interesse em fazer e acreditavam no que estavam fazendo. Era uma coisa muito séria. Eu lembro da primeira entrevista que dei à imprensa sobre o serviço. Foi para a revista da Folha de S. Paulo. Eu estava com muito medo, porque a gente estava mexendo numa questão que nunca se tinha sido mexido. Era tabu. Eu ficava repetindo para a repórter: ‘nosso trabalho é muito sério, nosso trabalho é muito sério”. Aí saiu no título da matéria: “Irotilde seriedade” (risos).

     

     

    E como foi quando vocês começaram a mexer nesse tabu?

    Éramos questionados por um grupo, admirados por outro, apedrejados por um terceiro. Teve de tudo. Foi um furacão.

     

    Teve ameaças mais sérias?

    Eu particularmente sofri cartas anônimas, telefonemas, jogavam muito ovo na minha casa... Foi bem ruim. Mas eu me fortalecia. Sou viúva, tenho dois filhos e na época eles me apoiaram muito nessa luta. Isso me deu muita força.

     

    Vocês recebiam pacientes de outras regiões do Brasil?

    Atendemos gente de fora, de outros estados. E várias mulheres do interior, da Grande São Paulo. Porque era o único serviço. Depois de uns cinco anos foi iniciado o atendimento no Hospital Pérola Byington e depois em outros. Aí começou a dividir.

     

    Levou muito tempo para que o serviço alcançasse outros locais do país?

    Foi bem demorado. Até hoje alguns hospitais não têm. Eu viajei por todo o Brasil. Você vê que a maioria dos serviços está instalada nas capitais. Agora você imagina o país com essa imensidão: no interior do Norte, do Nordeste, como essas mulheres têm acesso? Elas não têm.

     

    Como essas mulheres chegam emocionalmente?

    É incrível como elas chegam. Com todos esses anos não consegui ainda – e acho que não vou conseguir nunca – me impermeabilizar. É aquele momento de extremo estresse. Tem pessoas que não querem mais se alimentar, não dormem, não querem mais viver, têm muitas ideias suicidas...

     

    Além dos casos previstos em lei, havia muitas mulheres que fizeram o aborto ilegal e chegavam com complicações?

    Tinha e ainda tem, até hoje. Enquanto a gente atendia 1 mulher por mês para fazer o abortamento previsto em lei, chegavam 5 que tinham provocado o aborto de maneira extremamente agressiva e que vinham para limpeza de útero ou por complicações.

     

    Daquela época para cá, como você avalias as discussões relacionadas ao aborto no Brasil?

    Evoluiu bastante. Tem mais hospitais que atendem, a gente fala do aborto mais abertamente, não é algo mais tão fechado. Mas falta muito ainda.

     

    Falta o quê?

    A descriminalização do aborto. E sou favorável que ele seja legalizado. A gente vê outros países, como a Holanda, onde o aborto é legalizado: a mortalidade materna é muito baixa. Não é proibindo que não acontece. Acontece. Se fosse legalizado, o aborto não seria a 5ª causa de mortalidade materna no Brasil. São mortes perfeitamente evitáveis.

     

     

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