Nelson Cantarino

“A agenda de Bretton Woods conseguiu evitar a repetição do caos econômico dos anos 1920”

Entrevista por Rodrigo Elias

  • Lições da economia pós-guerra
     
    Dos escombros da guerra, em 1945, o despertar do mundo para uma era de paz deparou-se com enormes desafios econômicos: países arruinados, perdas humanas e sociais incalculáveis, novos equilíbrios políticos a serem construídos. A história recente deixara duras lições sobre experiências a serem evitadas, como os fracassos da reorganização econômica após a Primeira Guerra e a crise de 1929. 
     
    Professor de História Econômica no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), em São Paulo, Nelson Cantarino enfrenta, nesta entrevista, os principais temas relativos à economia mundial após a Segunda Guerra, destacando a importância das instituições criadas na época e o papel da liderança norte-americana na empreitada. Seria possível imaginar uma nova etapa de regulação global da economia em face das crises atuais? Como melhorar a distribuição de renda e garantir o bem-estar social? São desafios à altura daqueles que enfrentaram políticos e economistas 70 anos atrás.
     
    Em termos de prosperidade geral e distribuição de renda, qual foi o impacto da reorganização econômica pós-1945?
    As instituições criadas a partir da agenda estabelecida em Bretton Woods conseguiram evitar, ao final da 2ª Guerra Mundial, a repetição do caos econômico dos anos 1920. Ao definir um padrão monetário, o ouro-dólar, a liquidez da economia internacional estava garantida. O Fundo Monetário Internacional (FMI) tinha como missão manter a paridade cambial de seus países-membros, diminuindo os riscos de crises de balanço de pagamentos. A ausência de um padrão monetário no entreguerras trouxe dificuldades para diversos países, como a Grã-Bretanha, que realizou uma tentativa frustrada de retorno ao padrão-ouro em 1925. 
     
    O Banco Mundial tinha como objetivo o financiamento da reconstrução econômica de países afetados pela guerra. O que contribuiu, certamente, com a estabilidade política e social do imediato pós-guerra. Outro ponto fundamental foi o estabelecimento do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), que normatizava concessões tarifárias e combatia práticas protecionistas, um dos motivos da diminuição do comércio internacional no entreguerras. 
     
    A prosperidade econômica que esse modelo proporcionou, associada às políticas de pleno emprego adotadas pelos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), levou ao período de crescimento dos anos 50 e 60 – os “anos dourados” do capitalismo, como escreveu Eric Hobsbawm. 
     
    Os Estados possuem, hoje, capacidade para propor regulações globais análogas àquelas dos anos 40?
    As regulações globais dos anos 40 foram propostas pelos Estados Unidos da América, então a liderança econômica clara e indisputada do bloco capitalista. Com a ascensão impressionante da economia chinesa nas últimas décadas e com novos grupos de influência como os BRICS, todo tipo de regulação global deve passar por negociações que tornam o processo mais lento. Um bom exemplo são os obstáculos para concretizar a Rodada de Doha, o conjunto de medidas visando à diminuição de barreiras comerciais e tarifárias, proposto pela Organização Mundial de Comércio (OMC), hoje presidida pelo brasileiro Roberto Azevêdo.
     
    Uma alternativa encontrada por potências emergentes é o foco no desenvolvimento regional. Recentemente a China encaminhou a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês), que deverá oferecer 50 bilhões de dólares em crédito majoritariamente custeado por Pequim e é visto por alguns como um rival para as instituições financeiras internacionais estabelecidas.
     
    Medidas do pós-guerra para assegurar pleno emprego fazem sentido atualmente?
    Discussão acalorada hoje na Europa (risos). Em um mundo em que a competição é global, países como a Alemanha tentam aumentar sua produtividade e reduzir custos através de mudanças no mercado de trabalho. O outro lado da prosperidade alemã da última década são os minijobs, contratos nos quais os trabalhadores recebem em torno de 400 euros por mês e sobre os quais não incidem impostos. Mas o trabalhador não tem direito a seguro-desemprego, seguro de saúde ou aposentadoria. O problema é que sem geração de riquezas não é possível distribuir renda. É o caso dos gregos e de suas políticas de bem-estar social. Repito: sem produtividade e geração de riquezas não há possibilidade de bem-estar social. Este é o drama europeu: o difícil equilíbrio entre o financiamento de seus Estados e sua inserção na economia internacional.
     
    Propostas como a taxação de grandes fortunas podem ter impacto positivo na preservação de instituições democráticas?
    Depende. Má distribuição de renda certamente acarreta riscos às instituições democráticas. Mas imagine o caso brasileiro. Escândalos recentes como a famigerada “lista do HSBC” mostram que parte das grandes fortunas brasileiras não está no país. A taxação dessas fortunas eleva ainda mais o risco de evasão de divisas. Acredito que a solução seja melhorar a distribuição de renda a partir da diminuição dos tributos do consumo, aqueles que oneram mais quem ganha menos, de políticas de transferência como o Bolsa Família e de uma tributação de renda progressiva.
     
    O próprio Adam Smith escreveu em sua obra A Riqueza das Nações (1776) que “os cidadãos de cada Estado devem contribuir o máximo possível para a manutenção do governo, em proporção às suas respectivas capacidades, isto é, em proporção ao rendimento de que cada um desfruta, sob a proteção do Estado”.

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