Silvio Tendler

“Se o Jango não tivesse sido deposto, o Brasil não estaria hoje nas condições em que está.”

Rodrigo Elias

  • Temas e personagens não faltam: Jango, JK, Carlos Marighella, Josué de Castro, Glauber Rocha... Silvio Tendler é o “documentarista dos vencidos”, o “cineasta dos sonhos interrompidos”, como costuma ser chamado pela crítica. Seus filmes são resgates da memória brasileira que inspiram seus espectadores a refletir sobre os rumos do país. Difícil falar do cinema documentário nacional sem passar pelo seu nome. O gênero não ficcional ganharia com Tendler uma relação de proximidade com a História. E logo em sua trilogia inicial, no começo dos anos 1980, em meio ao processo de democratização, ele inscreveu seu nome na cinematografia brasileira com um sucesso de bilheteria: “Os Anos JK” (1980) conquistou cerca de um milhão de espectadores; “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1981) teve 1,8 milhão de ingressos vendidos, e “Jango” (1982), 800 mil.

    Carioca de 1950, hoje Tendler é também professor de Comunicação da PUC-Rio: “Eu diria que despontei para a vida lá pelos meus 14 anos, em plena ditadura militar. E, naquela época, era preciso fazer determinadas escolhas”. Ele fez as dele. Tornou-se cinéfilo, presidente do movimento cineclubista e um apaixonado pela história do país. Nos anos 1970, acabou deixando o Brasil de Médici para viver no Chile de Salvador Allende. Na França, cursou o mestrado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, escreveu sobre o cineasta Joris Ivens, foi aluno do realizador Jean Rouch e assistente de direção de Chris Marker. Aprendeu com os mestres. Em 1981, fundou a Caliban, produtora dedicada a biografias históricas de cunho social. De lá para cá, já fez campanhas políticas, filmes institucionais, e soma na bagagem mais de 40 obras, entre curtas, médias e longas-metragens.

    Tendler recebeu a equipe da Revista de História em seu escritório. “Você está vendo aquela frase ali na parede? Ela me guia há muitos anos: ‘Se intimidar frente à propaganda é como se intimidar frente aos fuzis inimigos’”, diz ele, exaltando a frase criada por Fidel Castro. O lema é também usado por Santiago Alvarez, outro documentarista seminal que Tendler teve a oportunidade de conhecer. Nesta entrevista, ele conta com prazer esses muitos “causos”, relembra sua festa de 14 anos, às vésperas do golpe militar de 1964, o sonho socialista no Chile e as dificuldades encontradas para realizar seus primeiros filmes. O cineasta ainda discutiu sobre seu longa mais recente, “Utopia e barbárie”, rebateu as críticas feitas em relação à participação de Dilma Rousseff e revelou suas intenções quanto à sua próxima empreitada, “Muda Brasil”, sobre Tancredo Neves: “É o velho Karl Marx que diz: os fatos e personagens da História acontecem como tragédia e se repetem como farsa”.

    REVISTA DE HISTÓRIA “Utopia e barbárie” levou quanto tempo para ser feito?

    SILVIO TENDLER Um terço da minha vida. Na verdade, esse documentário deveria ter quatro, seis, oito horas. O problema é que, em primeiro lugar, eu não tenho recursos para finalizar um filme com esse tempo todo. Em segundo, o público não vai assistir a um filme longo. Duas horas já são quase uma ofensa pessoal. Em resumo: eu tive que me submeter à ditadura do tempo, sintetizar a história. Aliás, venho recebendo algumas críticas neste sentido, de que é um período de história muito amplo para narrar em duas horas. Mas essa era a história que eu queria contar e fiz com que ela coubesse naquela duração.

    RH O filme foi lançado em ano eleitoral e também acabou sendo criticado por isso.

    ST É verdade. Mas acho que isso tem menos a ver com as minhas posições políticas e mais com a minha honestidade intelectual. Trabalhei 19 anos da minha vida para fazer um filme político, de história política. Nunca quis fazer propaganda eleitoral. Não calculei, por todo esse tempo, que o documentário fosse lançado em ano de eleição para apoiar uma determinada candidata. Isto é simplesmente um absurdo. 

    RH O que o levou até a Dilma Rousseff?

    ST Decidi entrevistá-la movido por um depoimento que ela tinha dado no Senado. Naquela ocasião, a Dilma encarou o senador Agripino Maia quando ele a chamou de mentirosa. Ela respondeu: “Menti, sim, e mentiria de novo, nas mesmas circunstâncias, para salvar a vida de pessoas da tortura”. Eu não a conhecia. Ela não fazia parte da minha rede de relações. No entanto, a Dilma acabou se tornando uma personagem importante para o filme. Ela era militante da esquerda armada, foi presa e torturada durante a ditadura. Quando ela saiu da cadeia, seus amigos estavam presos, exilados ou mortos. Era isso que me interessava. Eu não coloquei nenhuma linha em relação ao fato de ela ser candidata à Presidência. Tampouco perguntei a ela sobre suas ideias a respeito do Brasil de hoje. A Dilma está lá dentro de uma perspectiva histórica.

    RH O que não quer dizer que você não tenha suas convicções políticas.

    ST Claro. Eu até já trabalhei em campanha eleitoral. Mas você não vai ver nenhum filme meu lançado em cinema como plataforma de apoio de ninguém. Este não é o papel do documentário. Seria uma investida muito burra. Se você tem dinheiro para apoiar a campanha eleitoral de alguém, gaste em mídia, e não em filme. Então, esse tipo de crítica não me intimida. Eu tenho um lema que aprendi com um cineasta cubano chamado Santiago Alvarez. Você está vendo aquela frase ali na parede? Ela me guia há muitos anos: “Se intimidar frente à propaganda é como se intimidar frente aos fuzis inimigos”. Ou seja: peitei, banquei a presença da Dilma no filme e estou sofrendo as consequências, até mesmo certos boicotes. Azar de quem não for ver o documentário.

    RH Sua intenção é mostrar a chegada da esquerda ao governo?

    ST Sim. Quando resolvi entrevistar pessoas como a Dilma e o Franklin Martins [atual ministro da Comunicação Social], eu não queria mostrar apenas uma esquerda fracassada, aposentada. A ideia era filmar personagens para quem aquele projeto utópico de esquerda vingou. Eu queria mostrar uma esquerda vitoriosa. E por isso estou tomando porrada direto. É claro que essa esquerda vitoriosa se reciclou. Neste sentido, o depoimento do Franklin é fundamental. Ele é um dos caras que explicitam essa coisa de que na nossa utopia também havia muito de barbárie. E a utopia dele hoje é uma utopia democrática.

    RH Como era viver no período da ditadura militar?

    ST Difícil. Eu diria que despontei para a vida lá pelos meus 14 anos, em plena ditadura militar. E, naquela época, era preciso fazer determinadas escolhas. Tenho uma historinha sobre isso. Em 12 de março de 64 eu estava fazendo 14 anos. O famoso comício da Central do Brasil se deu no dia seguinte, sexta-feira, dia 13 de março. Era feriado, não sei se federal ou estadual, mas não teve aula. Então, pude comemorar meu aniversário com uma festa. Todos os meus amigos foram. No dia seguinte, quase todos aqueles meninos que estavam cantando e brincando lá em casa ao som dos Beatles tinham na janela de seus apartamentos panos pretos e velas. A classe média era completamente arredia a tudo o que vinha do Jango. Uma classe média absolutamente lacerdista; eles eram contra as reformas de base, contrários a tudo aquilo que o Brasil vivia. Meus pais, no entanto, eram liberais. Eu entrei nos meus 14 anos vivendo essa contradição: meus pais eram simpáticos ao Jango, todos os demais pareciam torcer pelo golpe. E aí começou a minha vida de adulto.

    RH Onde estava quando ocorreu o golpe?

    ST Eu estava dentro do cinema. O clima já era tenso. Em 31 de março, as manifestações militares já haviam começado. Ouvíamos também falar dos revoltosos e não sei o quê. No dia 1º de abril, eu devia ser um dos poucos meninos na rua. E eu fui de tarde ao cinema assistir a um filme inglês. Minha mãe me fez prometer que, se acontecesse alguma coisa, eu deveria voltar para casa. De repente, lá de dentro da sala de cinema, dava para ouvir uma gritaria na rua. Fui até a porta do cinema e vi aqueles carros buzinando e as pessoas comemorando como se fosse vitória na Copa do Mundo. Eles celebravam a partida do Jango para Brasília. Segui a ordem da minha mãe, atravessei discretamente a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Lembro como se fosse ontem. Era impressionante o contraste: a classe média comemorava e os porteiros dos prédios todos de cabeça baixa, ouvindo o radinho de pilha. Ali foi a minha primeira visão da questão de classe. Quem estava ganhando com aquele golpe?
     
    RH Nesse contexto, como foi parar no cinema?

    ST A vida política institucional do Brasil tinha ficado completamente tolhida pela estrutura do golpe militar. Então, quem podia resistir? Só restavam os artistas e os intelectuais. Eles começaram a ocupar esse espaço. O Sérgio Porto faz o Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País). O Carlos Heitor Cony escreve O ato e o fato. O pessoal que era do CPC [Centro Popular de Cultura] da UNE vai se reunir para formar o Teatro Opinião. O Zicartola fazia muito sucesso no Rio, como um templo antiditadura. Isso sem falar no cinema novo, que, do ponto de vista internacional, era o que de mais importante estava acontecendo no país. O Brasil tinha ganhado a Palma de Ouro em Cannes em 62 com “O pagador de promessas”. Poucos anos depois, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos seriam aclamados respectivamente com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Vidas Secas”. Eu acompanhava esse movimento e já era muito politizado.

    RH Era um período de efervescência cultural.
     
    ST E, pra mim, era impossível não ser contaminado por aquilo. Eu me fascinei por esse mundo e achei que era por aí. Em 65, montei um cineclube com alguns amigos. Virei cinéfilo e me metia a besta de tentar ler Cahiers du Cinéma em francês. Não entendia uma palavra, uma linha sequer, mas andava com aquilo debaixo do braço. Passei a me vestir igual aos cineastas, aquele falso desleixado, paletó mais largo. Eu não tinha barba, mas, se tivesse, teria deixado crescer. Em 68, tornei-me presidente da Federação de Cineclubes. Naquele momento, já tinha o sonho de fazer cinema.

    RH Chegou a pensar em fazer outra coisa?

    ST Mais ou menos. Na verdade, minha família de judeus de classe média me via fazendo outra coisa. Minha mãe era médica, mas eu tinha horror a sangue. Sempre fui péssimo em Matemática, jamais poderia ser engenheiro. O que sobrava? Decorar códigos de leis e ser advogado. Estudei alguns períodos do curso de Direito da PUC no final dos anos 60. Mas acabei desistindo. Um dia, li uma notinha de quatro ou cinco linhas dizendo: “Presos os advogados dos presos políticos do Rio de Janeiro”. E eu, olhando o professor Celestino Basílio falando sobre introdução à ciência do Direito, não aguentei: “Espera aí, que ciência é essa? Que Direito é esse em que os advogados estão todos presos? Não estou falando dos políticos, estou falando dos advogados”. Naquele momento mesmo, saí de sala e não voltei mais. Acabei me convencendo de que a minha chance era via arte.
     
    RH E o encontro com a História?

    ST Como presidente do movimento cineclubista, eu viajava bastante. Numa dessas viagens, um amigo me falou dos livros de Nelson Werneck Sodré. Fiquei fascinado com aquilo. Era preciso contar outras histórias sobre o Brasil. Foi quando comecei a pensar: por que não falar da História do Brasil? Aliás, a única matéria em que eu tinha notas boas regularmente era História. Em todas as outras eu era um fracasso. Não conseguia decorar os afluentes da margem externa do Amazonas. Era péssimo em Álgebra, Trigonometria, Matemática. Nunca aprendi inglês direito. Tinha tesão pelo francês, mas não era um bom aluno. Talvez isso tenha sido a minha sorte. Meus pais aceitaram o meu destino de artista, com medo de que eu fracassasse em qualquer outra profissão.

    RH E com o documentário?

    ST
    Eu já ruminava o desejo de fazer cinema histórico. Certa vez, na cinemateca do MAM, recebi um panfleto falando sobre um cineasta holandês chamado Joris Ivens. Ele era documentarista, havia filmado o conflito civil espanhol e a Segunda Guerra Mundial. Pensei que seria legal fazer o mesmo. Na mesma época, pude ver um filme do francês Chris Marker chamado “A sexta face do Pentágono”, um documentário contra a guerra do Vietnã. Era aquele tipo de cinema que eu queria fazer. E um dia me cai na mão um contato com o João Cândido, o Almirante Negro. Não podia perder a oportunidade e resolvi filmá-lo. No entanto, a carreira de documentarista teve de esperar um pouco mais.

    RH Por quê?

    ST Eu estava completamente desajustado no Brasil do Médici. Aí veio a notícia da eleição de Salvador Allende no Chile. Resolvi ir pra lá. E vivi um ano e meio absolutamente feliz. Foi um grande momento da minha vida. Aquela ideia de construir o socialismo de verdade sendo posta em prática. Depois de algum tempo, no entanto, eu tive que pensar na minha formação. O desejo pelo documentário permanecia. Meu pai me apoiou e eu acabei indo para a França em 1972.

    RH Foi lá que se deu a sua formação artística?

    ST Eu diria que sim. Morei na França durante quatro anos e meio e deslanchei profissionalmente. Fiz um curso de cinema ligado às Ciências Sociais, organizado pelo documentarista Jean Rouch. Também me matriculei na universidade sob a orientação do Marc Ferro. E comecei a apostar na minha formação como cineasta. Frequentei grupos como o Slon (Sociedade para o Lançamento de Obras Novas), do Chris Marker, e conheci muita gente. Em 73, resolvi passar as férias no Chile. Eu não sabia, é claro, mas aquele seria o último mês do governo Allende.

    RH Como foi isso?

    ST Foi um choque. Aquele mundo de fantasia que eu tinha vivido já não existia. O clima de tensão entre as classes sociais, entre os partidos políticos, entre governo e oposição, era insuportável. O pessoal que apoiava o Allende fez um bando de bobagem e acabou jogando a democracia cristã nos braços da direita. Eu sabia que não poderia ficar muito tempo por lá. Eu deveria ir embora no dia 4 de setembro, quando Allende comemorava três anos no poder, mas não tinha avião. A Lan Chile estava em greve geral. No dia 5 de setembro, a empresa conseguiu formar uma tripulação e levantar voo. Foi um período muito triste.

    RH Essa experiência rendeu um filme, não foi?

    ST Quando voltei para a França, o grupo de cinema liderado pelo Chris Marker me convidou para fazer um documentário sobre o governo Allende. Eu tinha 23 anos. Foi uma coisa incrível. O Chris Marker é um gênio. Depois, tornei-me mestre em Cinema e História pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS). Minha dissertação tratava da obra do Joris Ivens. Eu tive a felicidade de conviver com ele na França.

    RH Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre JK?

    ST Quando voltei ao Brasil, em meados dos anos 70, eu já tinha a ideia de fazer filmes sobre a história do país. Eu era muito amigo dos irmãos Buza Ferraz e Antônio Paulo. O Hélio, irmão do meio, que tinha virado empresário, queria investir em cultura. Mas ele não queria jogar dinheiro fora. Eu precisava de um bom tema. E, naquela época, o enterro do JK tinha sido algo marcante. Pensei que aquilo rendia um filme. O Hélio aceitou e me ofereceu o dinheiro. Mas não foi fácil. Não havia nenhuma imagem de arquivo do ex-presidente na cinemateca. Tive que correr atrás para arranjar os arquivos e filmar “Os Anos JK”.

    RH Por que foi difícil?

    ST As pessoas tinham medo de participar de um filme sobre o Juscelino. Ninguém queria dar arquivo de imagem. Foi difícil. Quando entrevistei a dona Sarah Kubitschek, ela me disse: “Você é um cara muito corajoso”. Isso no começo de 1977. Naquele ano, a família Kubitschek foi pedir ao governo Geisel um terreno em Brasília para construir um memorial. O governo disse não. O Hélio, produtor do filme, sofreu muita pressão para parar as filmagens. “Os Anos JK” nasceu nesse clima de muito medo, muita desconfiança.

    RH Em compensação, o filme teve um enorme impacto.

    ST É verdade. Eu aprendi isso com o Joris Ivens. Ele dizia que o cinema documentário precisava ter uma empatia com o público. E, para fazê-lo, era preciso ter personagens. Para falar de classes, por exemplo, era necessário filmar pessoas. Foi o que fiz em “Os Anos JK”. Eu queria falar desse presidente que governou em plena democracia, em um momento de exceção na história recente do país. Os militares nos diziam que o desenvolvimento era incompatível com a democracia. Eu queria mostrar que foi no período democrático de JK que o Brasil realmente floresceu. E, assim, o filme teve o efeito que teve. Eu tinha encontrado o meu jeito de fazer cinema. Pude confirmar essa descoberta com “Jango”.

    RH Como vê “Jango” hoje?

    ST Difícil dizer. Eu faço história voltada para o futuro. Não tenho saudade do passado. Quando o Jango foi deposto, eu tinha apenas 14 anos. Eu não vivi exatamente aquilo. Pra mim, o Jango foi um turbilhão que durou dois anos e sete meses. Então, eu não sei se o que eu queria com esse documentário era contar uma história vivida ou manifestar um desejo de democracia e de justiça social. “Os Anos JK” é um filme sobre a democracia. O “Jango” é sobre justiça social, o voto do analfabeto, o controle da remessa de lucros, as reformas agrária, tributária e urbana. Se o Jango não tivesse sido deposto, o Brasil não estaria hoje nas condições em que está. Hoje, acho que era isso o que eu queria dizer.

    RH Seu próximo filme será sobre Tancredo Neves, não é?

    ST Sim. Eu tive o prazer de conhecer o Tancredo pessoalmente. Ele era um cara muito inteligente e engraçado. O que eu quero contar nesse filme é como se faz política através das articulações de elites, de formulações palacianas no Congresso. Essa é a história de Tancredo. Como ele consegue montar a equação para se eleger naquele Congresso espúrio? Como se deu legitimidade à sua eleição através do movimento das massas? Isso é o “Muda Brasil”.

    RH Como vê a chegada da esquerda ao poder no Brasil?

    ST Hoje, a esquerda latino-americana é respeitada no mundo inteiro. A gente aqui se dá ao luxo de ficar rindo do Evo Morales (Bolívia), do Hugo Chávez (Venezuela), do Fernando Lugo (Paraguai)... O nosso riso é uma forma de ação política, muitas vezes conservadora. Os europeus, por exemplo, têm mais respeito e carinho por essas figuras. Um ex-militante tupamaro é presidente do Uruguai. José Alberto Mujica ficou preso 13 anos, em solitária, isolado do mundo, como refém da ditadura militar uruguaia. Hoje ele é presidente da República. Para nós, é bom. A minha geração também coleciona vitórias.

    RH E qual é a sua utopia hoje?

    ST Eu acho que o mundo hoje é diferente, em especial as formas de ação. Não há grandes movimentos de massa. Estive recentemente em Belo Horizonte, participando de um debate com o pessoal do movimento popular, e um dos participantes falou: “Gente, quando os caras foram fazer comemoração dos 20 anos da greve dos metalúrgicos, eles tiveram a ideia de ocupar, fazer um ato político”. Mas aquilo era impossível. Se há 20 anos o movimento era composto de cerca de 50 a 60 mil metalúrgicos, agora só há cerca de cinco mil. Hoje, as formas de ação são diferentes. É o velho Karl Marx que diz: os fatos e personagens da História acontecem como tragédia e se repetem como farsa.

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