Aos 92 anos

Morre o historiador português Vitorino Magalhães Godinho

  • Morreu aos 92 anos, nesta terça-feira (26), em Portugal, o historiador e ex-ministro da Educação e Cultura de Portugal Vitorino Magalhães Godinho. Considerado um dos maiores historiadores do século XX, autor de obras como “Os descobrimentos e a economia mundial” (1963-1970) e “Ensaios de História de Portugal” (1967), ele foi entrevistado recentemente pelo embaixador Alberto da Costa e Silva, conselheiro da “Revista de História”, e pelo historiador português Tiago dos Reis Miranda, para figurar nas páginas da RHBN em uma futura edição.

    Na entrevista, ele fala sobre sua formação acadêmica, sua família, o século XX, que viveu quase inteiramente, seus livros e a constituição do país Portugal, além de apontar para problemas, a seu ver, para a integração da Europa.

    “O primeiro artigo de uma constituição europeia deve ser que a União Europeia é um conjunto de nações-estados que partilham a sua soberania com um sistema de instituições comum”, falou o professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “Não podemos abdicar do que é nacional. Não podemos ‘pôr para as velharias’ o chamado ‘amor da pátria’, porque acho que é o amor da terra, o amor da pátria, a delimitação dos poderes da nação, tudo isso é extremamente importante e é um legado que é fundamental para a organização das sociedades modernas. Não é possível organizá-las uniformemente.”

    Ele agradeceu ironicamente ao governo ditatorial de Salazar pelos anos que passou na França e contou que, mesmo com a Revolução dos Cravos, ter hesitado em voltar à Portugal. O seu retorno se deveu a problemas familiares, quando tentou implantar um perfil semelhante em Portugal com o que havia na Ecole des Hautes Etudes.

    “É preciso não esquecermos que, quando analisamos o Português historicamente, vemos que ele é a pessoa que quer mudar, para ficar tudo na mesma”, diz, citando uma frase diversas vezes atribuída a brasileiros.

    O professor fala ainda sobre o centenário da república portuguesa, e sobre como se vivia um ambiente francamente favorável a esse cenário em sua casa, com o apoio de seu pai – de quem escreveu uma biografia – ao movimento. Também comenta o seu horror às polêmicas vazias, por ser a morte “da discussão científica, da pluralidade de pontos de vista”. E lembra do inglês Eric Hobsbawn quando fala sobre o século XX em comparação com o atual.

    “Sentíamo-nos mais seguros. A vida cotidiana não tinha este trepidar que hoje tem, nem esta inquietação, nem este estar sempre ‘de atalaia’, que nos obriga a vida atual.”

    O professor, que estava trabalhando numa nova edição para a sua obra “Documentos sobre a expansão portuguesa”, que estava esgotada, disse sentir pena por ter explorado pouco as relações com o Brasil. Lembrou que sua primeira vinda ao país, se deu ainda numa missão francesa. E deu um conselho para todos os historiadores: não ficar preso às novidades.

    “Eu penso que é fundamental uma boa bibliografia e, nesse aspecto, não ter receio de ‘estar desatualizado’. Não é o mais recente que é necessariamente melhor. É fundamentalmente o que se fez nos anos ‘60, ’70… têm obras que são inultrapassáveis.”

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