Guerra do Paraguai

Denis Wright fala sobre a experiência de dirigir um documentário sobre a maior guerra sulamericana

Adriano Belisário

  • Hoje apaixonado pela América Latina, o escocês Denis Wright  chegou em terras tropicais para trabalhar como jornalista correspondente da BBC. Entre uma reportagem e outra, descobriu e se apaixonou pelo Paraguai e seu papel crucial na principal guerra sulamericana. Segundo Wright, paira uma "conspiração do silêncio" sobre o conflito que colocou Brasil, Argentina e Uruguai contra quase todos os paraguaios do país.

    Segundo artigo de Nelson Cantarino, publicado na Revista de História em 2006, trata-se da "página mais sangrenta da história do Brasil". Percebendo a magnitude do episódio e a ausência de registros filmográficos sobre o tema, Wright decidiu estudar o assunto e preparou o documentário 'Guerra do Paraguai', que acaba de ser adquirido pela TV Escola. Confira aqui um trailer do filme e veja abaixo uma entrevista com o diretor.

    RHBN – Quando começaram as filmagens?

    Há quatro anos. No Brasil, existe uma conspiração do silêncio, uma ideia de não se falar sobre certos assuntos históricos. Quando fui ao Ministério do Exército pedir documentações para o filme, fui muito bem recebido por pessoas de alta patente que prometeram abrir os arquivos, mas nunca fizeram isto de fato. A Marinha disse que tinha pouca coisa sobre o assunto, mas era a mais aberta. O Exército não quis abrir nada.

    No documentário, temos um espaço limitado. Então, focamos em assuntos que gerem interesse, como as batalhas. Acabou que os arquivos do Exército não foram necessários, existem grandes livros que não falam somente do lado dos vitoriosos e desmistificam este episódio. Isso me empolgou a fazer o documentário. Os envolvidos na guerra eram bastante humanos: Duque de Caxias e Almirante Tamandaré, por exemplo, além do General Osório, o típico gaúcho que gostava de guerrear.

    Nós visitamos lugares importantes na guerra, como a Fortaleza de Humaitá, que impediu a entrada dos aliados por muito tempo. Nós fomos e tudo parece meio abandonado. Nos Estados Unidos, lugares históricos são grandes locais de visitação turística. E olha que, na época, a guerra envolveu 90% dos homens paraguaios acima de treze anos.

    RHBN – Como surgiu seu interesse pela América do Sul?


    Trabalhei para BBC na América do Sul durante vinte anos. Fiz cobertura de diversos assuntos, como as queimadas florestais e polêmicas com índios ianomâmis ou no Xingu. Fui também ao Paraguai em busca de pistas sobre nazistas de lá, então acabei descobrindo a Guerra do Paraguai. Fiquei surpreso porque vi que, exceto algumas iniciativas específicas, ninguém tinha feito quase nada sobre isso.

    RHBN – Conte melhor o início de sua relação com o Paraguai

    O Paraguai era refúgio de muitos nazistas. Agora, a maioria já morreu obviamente, mas isso foi nos anos oitenta, justamente na época em que o cadáver de Josef Mengele [médico alemão que realizou diversas experiências com humanos nos campos de concentração e depois se refugiou no Paraguai e no Brasil]. Fui até o Paraguai, conheci umas pessoas, mas não tive tempo de fazer nada sobre a guerra.

    Depois, surgiu outra oportunidade de pesquisar melhor o assunto. Entrei em contato com Thomas Whigham, professor da Academia de História do Paraguai. Eu sou quase brasileiro, mas seria difícil fazer um documentário sobre assunto sem um especialista de lá. Seria algo bastante parcial. Ele é professor de história latino-americana em uma universidade na Geórgia, nos Estados Unidos. Também é casado com uma paraguaia e fez todo mestrado sobre a guerra. Foi um grande consultor histórico.

    RHBN – E qual a situação atual do documentário?

    Precisamos de apoio para finalizar o filme em português. Já fizemos uma versão, mas gostaria de melhorá-la. Na época, a TAM nos apoiou. O comandante Rolim, presidente da companhia, nos ajudou muito. Ele era totalmente apaixonado pelo Paraguai.

    Não temos ainda a versão definitiva. Precisa de um preâmbulo ainda. Fiquei muito feliz com o interesse da TV Escola. É bom que as universidades e colégios mostrem esse filme.

    Estamos trabalhando também para reunir todo acervo iconográfico que levantamos. A grande maioria das imagens sobre o assunto está em coleções particulares no Paraguai. Queremos digitalizar tudo e colocar disponível para o acesso de todos.

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