O hibridismo como ideia

A historiadora Sílvia Capanema está organizando um seminário sobre a mestiçagem, que encara o conceito além da questão racial

Ronaldo Pelli

  • Sílvia Capanema Pereira de Almeida estudou jornalismo e letras, mas foi na História que se encontrou. Ela foi para a França terminar a graduação e não voltou mais. Aos 31 anos, já terminou a faculdade, o mestrado e o doutorado, e agora participa da organização de um seminário na Université Paris 13 sobre mestiçagem. Antes de uma associação simples com a questão humana, biológica ou social, ela explica que o conceito vai além, “tem a ver com ideias, conceitos, práticas, formas de viver e de pensar e acho que não pode ser restrita à questão racial”, escreve de Paris, onde leciona língua portuguesa e cultura brasileira, e é pesquisadora do Centro de Pesquisa Espaço, Sociedades e Culturas, na mesma universidade.

    “Este é um dos objetivos do congresso, discutir como a mestiçagem está presente em outros campos, como nas línguas, ciências, literaturas, música, artes, comportamento, etc, e como seria um conceito pertinente visto por diferentes culturas e aéreas do conhecimento”, conta Sílvia.

    Por conta do seminário, que aceita inscrições até o fim do mês, fizemos uma pequena entrevista com Sílvia, que já tinha sido personagem da seção "Gente da História", além de colaborar em dois artigos (1 e 2) para a “Revista de História da Biblioteca Nacional”. Confira abaixo:

    1/ Como foi a sua ida para a França?

    Vim para a França para fazer um semestre de intercâmbio, de “graduação sanduíche”, como dizem aí. A minha Universidade, UFMG, tinha convênio com a Université Blaise Pascal, em Clermont Ferrand. Gostei do país e do ambiente universitário e acabei me inscrevendo no mestrado logo em seguida e depois no doutorado. Pude mudar de aérea sem muitos problemas (eu me formei em Comunicação Social-Jornalismo, fiz uma passagem pela Letras e depois uma tese em História) e isso foi importante para mim, quer dizer, essa possibilidade da interdisciplinaridade sem muitos problemas. Fiz minha tese na EHESS [École des Hautes Études en Sciences Sociales] de Paris, que é uma das melhores instituições mundiais, na minha opinião, especializada em Ciências Humanas e Sociais. Além disso, não tive bolsa do governo brasileiro, mas me enquadrei nas formas de financiamento do governo francês, como o programa do Ater (Attaché d’enseignement et de recherche), um equivalente a um tipo de professor-bolsista, entre outros financiamentos. Então, acabei ficando por aqui. Consegui fazer boas trocas com o Brasil, mas também me inserir no mundo universitário daqui e, além disso, alguns acontecimentos da minha vida pessoal também contaram para minha permanência. Hoje em dia, sou professora de língua portuguesa e cultura brasileira na Universidade de Paris 13-Nord e pesquisadora do Cresc (Centro de Pesquisa Espaço, Sociedades e Culturas) na mesma instituição. Acabei a tese no fim de 2009 e minhas pesquisas envolvem a noção de acontecimento em história, Marinha, identidades, questões raciais, representações e imprensa, no campo da História Social e Cultural e prioritariamente sobre Brasil República. Estou ainda divulgando os resultados da minha tese de doutorado sobre a chamada “Revolta da Chibata” e começando novos projetos de pesquisa que cruzam os campos acima citados. Estou desenvolvendo melhor a questão racial que discuti na minha tese, abrindo para estudos comparativos e buscando analisar os arquivos militares nesse quadro. Além disso, tenho um projeto que trata da escrita do jornalista Edmar Morel (autor do livro “A Revolta da Chibata”, publicado em 1959 e que batiza o movimento dos marujos brasileiros) e também me interesso sobre a questão da Primeira Guerra Mundial e a vida cotidiana no Brasil.

    2/ Como foi a ideia para organizar o seminário sobre "mestiçagem"?

    A ideia não foi minha. Quando integrei o quadro de professores-pesquisadores da Universidade de Paris 13, o projeto do congresso “Pensar a mestiçagem: práticas, atores, conceitos” já existia. Como os meus trabalhos tinham afinidade com a questão, fui incorporada ao comitê científico e também à comissão organizadora, composta ainda pelo especialista de História Antiga Michel Molin, por Quentin Deluermoz, historiador que trabalha sobre violência e polícia na França do final do século XIX e início do XX, e a geógrafa Marie Redon, que estuda as Antilhas francesas. Ajudei então com algumas contribuições, colocando o Brasil em destaque e indicando pesquisadores que seriam interessantes como convidados para o evento, como a antropóloga Lília Moritz Schwarcz e a historiadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke.

    3/ Como, aliás, você vê o Brasil nesse assunto? E a discussão atual sobre políticas públicas de afirmação racial?

    Bem, mestiçagem é algo que vai mais além, além mesmo da noção da “mestiçagem humana” ou biológica. Tem a ver com ideias, conceitos, práticas, formas de viver e de pensar e acho que não pode ser restrita à questão racial. Uma referência para isso seria o livro recente de Peter Burke, historiador que deverá estar presente no seminário: “Cultural hybridity” (2009). Aliás, este é um dos objetivos do congresso, discutir como a mestiçagem está presente em outros campos, como nas línguas, ciências, literaturas, música, artes, comportamento, etc, e como seria um conceito pertinente visto por diferentes culturas e aéreas do conhecimento. Porém, se falamos da questão racial, acho que a ideia de mestiçagem não é incompatível com as reivindicações dos movimentos sociais ou com as medidas de reparação dos governos, como, por exemplo, a política de cotas. A noção de mestiçagem –  e seu uso político -  não pode de maneira alguma ocultar as formas de violência e a existência do poder nas relações humanas. Como diria o antropólogo François Laplantine, um outro convidado para o evento, a noção de mestiçagem envolve a consciência de pertencer a uma cultura tida como “dominante” e a outra vista como “inferior”, com consequências para a própria imagem de si, que carrega sempre algum orgulho, mas também um pouco de vergonha, pelo lado inferior, e de culpa, pelo aspecto dominante (“Le Métissage”, reeditado em 2010).

    4/ Por sua vez, como está essa discussão na França? E a questão dos imigrantes e do crescimento da direita no campo político francês?

    A questão é de atualidade na França também. Ela está relacionada com a imigração, fato recente no país e no continente europeu, e com um processo mais amplo da descolonização vivida no século XX. Suscita o debate em torno da inclusão e da exclusão das comunidades imigrantes e seus descendentes, com reflexos na divisão urbana dos centros e periferias e também na delinquência juvenil. A questão se torna latente nos últimos anos, com queda do crescimento econômico e com a crise. Porém, ela também evoca a culpa que países como a França carregam com relação às antigas colônias africanas. Nesse contexto, a extrema direita emerge com mais força pois propõe, por um lado, soluções imediatas que viriam com a redução dos privilégios sociais, garantidos pela cidadania, a uma comunidade cada vez mais restrita e, por outro lado, buscam consolar as pessoas com uma ideia de uma identidade francesa pura, que se constrói com a valorização de um passado nacional glorioso. Essa busca é apenas evidenciada, até de forma caricatural, pela extrema direita, em partidos como o Front Nacional de Jean Marie Le Pen, mas ela está presente também em outros momentos da sociedade, como na eleição do próprio Nicolas Sarkozy ou na tentativa do governo do ex-presidente Jacques Chirac de promover uma leitura “positiva” da colonização francesa. Ao mesmo tempo, o modelo republicano francês encontra-se bastante abalado, pois apresentou deficiências nas suas formas de inclusão, sobretudo dos imigrantes e seus descendentes, e o trauma da Segunda Guerra Mundial e do governo de Vichy contribui para que a sociedade opte por uma certa “invisibilidade” das diferenças. Assim, na França, não há censos e estatísticas raciais e às vezes temos a impressão de que o país opta por uma espécie de “ética do silêncio”, com semelhanças ao que foi analisado pela historiadora Hebe Mattos com relação à não referência às cores das pessoas para não criar “constrangimento” no período próximo à abolição da escravidão brasileira (“As cores do silêncio”, 1998). Nesse sentido, falar de mestiçagem no contexto francês é importante por questionar a noção de pureza que alguns reivindicam na busca pela “identidade nacional”, mas pode ser até perigoso se propor guardar a mesma “invisibilidade” em nome de um discurso segundo o qual “todos são iguais”, mas na realidade as diferenças não são apenas sociais, são também étnicas, culturais e raciais.

    5/ Como foi sair de um estudo sobre a Revolta da Chibata, cuja organização foi responsabilidade de "vários líderes que eram oriundos das escolas de aprendizes a marinheiro, tinham viajado pelo exterior e conheciam a cultura letrada. Dentre eles, havia negros, pardos, mestiços e brancos, pessoas com diferentes orientações culturais e mesmo políticas, unidos pela identidade de ‘marinheiro nacional’" para o estudo da mestiçagem?

    Olha, é preciso relativizar um pouco e sair dos essencialismos, mas não perder de vista a ideia de que há hierarquias, muitas vezes simbólicas, e formas de poder. Quando estudei profundamente os marujos que participaram da revolta da chibata, descobri que muitos podiam ser ou eram considerados como brancos, outros eram mestiços, pardos ou negros, muitos nordestinos. A diversidade foi algo que me impressionou desde o início, e percebi que, de fato, a identidade profissional de “marinheiros nacional” era o maior fator unificador dos marujos, além da origem social. Um levantamento de dados mostrou que eles não eram somente negros e pardos, como diziam os discursos em torno do acontecimento. Porém, dizer isso não invalida em hipótese alguma a identidade racial que envolve o movimento. Muitos eram negros e pardos e, como coletivo, eram vistos como negros, o que não esconde a existência de preconceitos aos que os marujos estavam cotidianamente expostos. Além disso, compartilhavam uma memória da escravidão e suas consequências para a sociedade brasileira, 22 anos apenas depois da abolição. João Cândido, o maior herói e líder desse movimento, era o “almirante negro”, ou seja, essa liderança de um negro também é algo importante, pois inverte as formas de poder habituais e constrói novas possibilidades de reconhecimento.

    6/ Em 2007, você falou que havia um interesse muito grande da França sobre o Brasil. Como anda esse olhar francês sobre as nossas coisas?

    Existe um interesse grande, sobretudo por algumas questões e assuntos. O Brasil está constantemente na imprensa francesa e, claro, alguns clichês voltam sempre, como país tropical, natureza, favelas, violência, corrupção, país mestiço, futebol e cirurgia plástica. Porém, algumas vezes, somos surpreendidos com novos olhares sobre o país. A música brasileira desperta interesse, o governo Lula e as eleições despertaram muito interesse e, recentemente, o crescimento econômico do país é citado também. No âmbito universitário, há uma nova geração de historiadores brasilianistas e o crescimento da procura pelo estudo do português brasileiro, só que como terceira língua. Os estudantes queixam-se da falta de oportunidades que podem encontrar na vida profissional quando se tornam especialistas somente de assuntos brasileiros. Assim, na maior parte das vezes, lidamos com um público que trabalha com várias questões, disciplinas e áreas geográficas e a tendência é que estudos somente brasilianistas sejam feitos em menor número. Sobre a sociedade brasileira, é verdade que o Brasil ainda é visto como um país simpático e onde a “mestiçagem deu certo”. À primeira vista, seria como uma espécie de laboratório para os países europeus. Contudo, rapidamente também o público francês se dá conta do racismo brasileiro e o país aparece de uma forma ambivalente: ora como paraíso racial, logo, um modelo para a França, ora como inferno racista, logo, um antimodelo que reforça uma imagem conformada dos franceses e é usado como um exemplo para dizer: “mas vejam, até que a Europa não está tão ruim assim”. E isso é válido para a mestiçagem mas também para outras questões, como economia e sociedade. A visão sobre o Brasil acaba sendo com frequência distorcida para um lado ou para outro.

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