Revolta centenária

A historiadora Sílvia Capanema acaba de concluir seu doutorado na França sobre a Revolta da Chibata, que completa 100 anos em 2010.

  • A menos de um ano do centenário da Revolta da Chibata, os estudos sobre a maior insurreição da história da Marinha já estão em ebulição. E não só no Brasil. Por tocar diretamente na questão racial, o episódio também ganha destaque em Universidades estrangeiras, como a École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. No início deste mês, a instituição aprovou com avaliação máxima a tese de doutorado da historiadora Sílvia Capanema.

    Com o título “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos: identidades, modernidade e memória na revolta de 1910”, a tese é fruto de um longo estudo de Sílvia Capanema sobre a Revolta da Chibata. Além de apresentar os fatos relacionados ao evento, a tese busca principalmente discutir a identidade dos marinheiros e o lugar do episódio na memória do país.

    “Vivi em um contexto no qual as discussões em torno da questão racial ganhavam fôlego no Brasil e no exterior. Esses pontos estão no centro dos debates atuais da sociedade francesa. Por exemplo, organizamos um simpósio na Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, reunindo pesquisadores americanistas, europeus e brasileiros para discutir o conceito de “democracia racial” e o “modelo” brasileiro”, explica Sílvia, acrescentando que o encontro deu origem ao livro De la démocratie raciale au multiculturalisme: Brésil, Amériques, Europe, organizado por ela própria e a historiadora francesa Anaïs Fléchet.

    Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais em 2002, Sílvia se envolveu com a História ainda na graduação, quando desenvolveu uma pesquisa sobre a iconografia dos livros didáticos de História do Brasil. Parte de uma geração influenciada pela obra ‘Os Bestializados’, de José Murilo de Caravalho, segundo suas próprias palavras, Sílvia Capanema dedicou-se ao estudo da Revolta da Chibata já no mestrado, também realizado na universidade francesa.

    Segundo ela, apesar da personificação em torno do almirante João Cândido, o levante só pôde ocorrer graças à contribuição de outros participantes, que acabaram menosprezados pela historiografia. “Alguns processos criminais indicam que a revolta foi organizada por vários líderes que eram oriundos das escolas de aprendizes a marinheiro, tinham viajado pelo exterior e conheciam a cultura letrada. Dentre eles, havia negros, pardos, mestiços e brancos, pessoas com diferentes orientações culturais e mesmo políticas, unidos pela identidade de ‘marinheiro nacional’”, afirma a historiadora.

    O rigor e a qualidade do texto da tese de doutorado de Sílvia Capanema renderam diversos elogios da banca, que contou com a presença do pesquisador Marco Morel, autor de artigo sobre a Revolta da Chibata publicado recentemente na Revista de História. Segundo Sílvia, os avaliadores recomendaram “a publicação urgente da tese tanto em terras francesas quanto no Brasil”. Certamente, uma ótima dica para enriquecer ainda mais o centenário no ano que virá.

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