Cronista higienista

Nos jornais, o poeta Olavo Bilac foi entusiasta das mudanças que aconteciam do Rio de Janeiro do início do século XX

Clara Miguel Asperti Nogueira

  • Em tempos de reformas vultosas para recebermos grandiosos eventos esportivos — e de benefícios pouco sólidos para a posteridade — certamente não estamos muito longe da imagem, muitas vezes, idealizada por Olavo Bilac (1865-1918). Além de renomado poeta parnasiano consagrado pelas Poesias de 1888, Bilac, nascido no Rio de Janeiro, tornou-se figura de proa da sociedade carioca no início do século XX ao abordar em diversos jornais e revistas as questões urbanas e profiláticas que modificariam a fisionomia da cidade naquela época. Tomando, inicialmente, a Gazeta de Notícias como exemplo do empenho do escritor em prol das melhorias urbanas do Rio de Janeiro, o jornalista, ao assumir a responsabilidade pela crônica dominical do periódico, passou a operar como um agudo analista da cidade.  

    A coluna “Crônica” tinha como grande intenção convencer seus leitores da importância do projeto higienista para a Capital Federal. Bilac imaginou um Rio de Janeiro cosmopolita, que se aproximasse dos padrões europeus de cultura e de urbanidade, e seu posicionamento intransigente, muitas vezes, pode gerar julgamentos controversos sobre o literato. No entanto, é bom deixar claro que a escrita bilaquiana, fecunda e, sobretudo, persuasiva, recorria a variados subterfúgios retóricos e estilísticos para que, além de informativas, as crônicas domingueiras fossem lúdicas, atraentes e prazerosas. Por isso, não se pode ignorar o talento ímpar de um jornalista que se colocou inteiramente à disposição de uma causa que, de acordo com suas convicções de intelectual empenhado, seria a verdadeira saída para a conformação da cidade ideal.

    A modernidade brasileira, em tese, pôde ser inserida a partir da remodelação urbana concebida pela conjunção das forças políticas que estiveram no poder de 1902 a 1906: o presidente da República Rodrigues Alves e o prefeito do Rio de Janeiro Pereira Passos. Além disso, havia um novo horizonte técnico que aportava em terras brasileiras no começo do século XX. Escrever sobre o Rio de Janeiro era uma forma de se representar a inserção brasileira na efervescência da Belle Époque e no contrassenso da desejada modernidade. Com efeito, o entusiasmo com os ideais reformistas tomou conta de grupos sociais ilustrados do país, sobretudo de jornalistas, ou seja, a intelligentsia influente do momento.

    É bem verdade que a posição bilaquiana frente aos movimentos de modernização da cidade sempre foi de alinhamento com as elites e, como consequência, com o governo republicano. Bilac tinha um espírito empreendedor e, já no início de século XX, se lançou como um dos sustentáculos públicos das medidas urbanas e sanitárias da municipalidade.

    A Gazeta de Notícias não foi o único palco da oratória profilática de Bilac. Na revista Kosmos, a sagração final de sua carreira jornalística, apoiou constantemente as melhorias cariocas. A Notícia, importante vespertino lançado em 1894, foi também essencial na divulgação de seu ideário higienista. Em crônica de 17 de abril de 1903, Bilac deixou evidente sua vergonha perante a velha cidade colonial e ao mesmo tempo exclamou brados de felicidade com a demolição do passado atrasado do ambiente carioca. “Vibrai, feri, exterminai, demoli, trabalhai e cantai sem descanso, picaretas sagradas! cada golpe dos vossos é uma benção e uma redenção! abri caminho à luz, rasgai estradas no ar, arrasai os pardieiros em que se alaparda a nossa vergonha! — e benditas sejais, por toda a eternidade, picaretas implacáveis, exterminadoras do nosso opróbrio!”.

    Para além do engajamento pelas reformas urbanas e sanitárias, que foi “o grande projeto que norteou Bilac”, segundo Antônio Dimas, houve uma importância muito grande dos periódicos na construção do perfil intelectual do poeta. Muito mais relevante do que compreender por quais fileiras políticas ele se alinhou, é perceber como a imprensa e o exercício da literatura para jornais fizeram de Bilac um homem do seu tempo, atualizado com os problemas intrínsecos à classe literária e preocupado com os rumos sociais do engajamento jornalístico.

    Muitas crônicas assinadas por Bilac apontam, sobretudo, para um homem interessado em seus pares, temeroso, e ao mesmo tempo, otimista com os rumos da imprensa nacional. Em texto de 17 de janeiro de 1904 para a Gazeta de Notícias, ao deplorar a estiagem que afligia o Rio de Janeiro, Olavo Bilac atenua a tristeza da semana, exaltando o acontecimento artístico de raro valor na urbe carioca: o lançamento da Kosmos. “O primeiro número da Kosmos é a demonstração cabal de que, no Brasil, só não se faz o que não se quer fazer. Já agora ninguém poderá falar do atraso das artes gráficas no Brasil. Das oficinas da nova revista podem sair livros tão bem impressos e tão bem ilustrados como os que têm feito a fortuna dos grandes editores de Paris e de Londres.”

    Já na crônica publicada em 11 de fevereiro de 1903, pela coluna “Registro”, de A Notícia, Olavo Bilac comentaria, de maneira lúcida, a inconstante remuneração da classe intelectual bem como a causa do problema: o alto índice de analfabetismo. “Triste país este, em que não há jornal que venda cinquenta mil exemplares por dia, em que não há livro de que se esgote uma edição por ano, em que não há escritor que possa viver unicamente com o produto do seu trabalho intelectual!”. As crônicas assinadas por Bilac, por quase 20 anos em diversos jornais e revistas, recuperam a época vivida e recontada pelo cronista, de inquietações e cosmopolitismo. Nos anos iniciais do século XX, o equilíbrio econômico, o desenvolvimento técnico e tecnológico e a pretensão de modernidade representaram a ebulição da cultura europeia para nós. Em forma de crônica, ele retratou, detalhou e conferiu a cada um desses momentos um caráter particular e decisivo. Cauteloso perante uma realidade sempre em transição e preocupado com o futuro, Bilac cronista manteve sempre, através de sua participação jornalística, os olhos atentos sobre uma cidade ávida por novos tempos. Por seu particular ponto de vista, o jornalista louvaria a cidade-progresso. Coube a ele ser a voz oficial dos “vencedores” do período.

    Olavo Bilac viu na imprensa e no exercício da crônica a maneira diligente de pensar as reformas que acreditava serem indispensáveis à sociedade carioca, a despeito de suas possíveis consequências nefastas sobre a população menos assistida. Pela pena de jornalista, ele tentou ver um tempo falsamente auspicioso, forjado pelas modernas “picaretas da Regeneração”.

    Clara Miguel Asperti Nogueiraé autora da tese Cronistas do Rio: o processo de modernização do Rio de Janeiro nas crônicas de Olavo Bilac (Kosmos, 1904-1908) e Lima Barreto (Careta, 1915-1922) (Unesp, 2012).

     

    Saiba mais - Bibliografia

    SIMÕES JR., Alvaro S. A sátira do Parnaso: estudo da poesia satírica de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904. São Paulo: Editora da Unesp, 2007.

    Internet

    ASPERTI, Clara Miguel. Bilac e a reurbanização do Rio de Janeiro: estudo da crônica dominical da Gazeta de Notícias (1897-1908). Dissertação (Mestrado em Letras). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2007. www.athena.biblioteca.unesp.br

    NOGUEIRA, Clara Miguel Asperti. Cronistas do Rio: o processo de modernização do Rio de Janeiro nas crônicas de Olavo Bilac (Kosmos, 1904-1908) e Lima Barreto (Careta, 1915-1922). Tese (Doutorado em Letras). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2012.
    www.athena.biblioteca.unesp.br

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