Entre história e ficção, uma vida

Livro de Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014, mostra que a criação literária é um caminho de sensibilização histórica e de rememoramento

Marcello Scarrone

  • As fronteiras entre pesquisa histórica e criação literária sempre foram bastante porosas, capazes de permitir contatos e intercâmbios interessantes. A própria dimensão da narrativa é fundamental no âmbito da investigação e reconstituição histórica do passado, embora durante certo tempo tivesse sido como que colocada no escanteio, quase abandonada em favor de abordagens que privilegiavam as análises quantitativas e seriais.  Mas fazer história é também saber narrar uma boa história, construindo pontes entre seus leitores e aqueles pilares que sustentam o trabalho do historiador: os documentos e as fontes.

    De forma análoga age o bom escritor quando sua criação literária busca pontos de sustentação ou de referência em eventos históricos, fatos do passado comum de um país ou de uma sociedade. De Tolstói a Stendhal, de Júlio Verne a Thomas Mann, os exemplos são inúmeros, mas chegando mais próximos dos tempos atuais, baste pensar na Festa do Bode, de Vargas Llosa ou em obras de Javier Cercas, como Soldados de Salamina ou Anatomia de um instante, ou ainda em O Cemitério de Praga de Umberto Eco, em HHhH de Laurent Binet, ou O Projeto Lazarus, de Hemon. Cada um segundo um estilo e uma dinâmica própria, mas sempre buscando indagar limites e possibilidades do encontro entre ficção literária e realidade histórica.

     

    Patrick Modiano (Divulgação)

    Assim, o simples anúncio do desaparecimento de uma jovem, denunciado por seus pais, encontrado, já no final dos anos ’90, numa edição de 1941 de Paris Soir, faz com que o escritor mobilize sua fantasia para tentar imaginar os caminhos da garota numa Paris ocupada pelos nazistas, e ao mesmo tempo se lance, com faro de autentico historiador, em busca de rastros, sinais, pegadas, isto é, documentos, que sustentem sua narração.  O autor da obra - Dora Bruder, publicada pela Editora Rocco - é o premio Nobel de Literatura de 2014, o francês Patrick Modiano, e a jovem desaparecida é a que dá o titulo ao livro.  As seis linhas do anúncio no diário parisiense apresentam elementos a partir dos quais o narrador vai elaborando reflexões, perguntas, considerações e sugestões, misturadas com lembranças de sua própria vida, do relacionamento doloroso com o pai, da Paris de antigamente, de seu perambular de juventude pelas ruas da cidade.

     

     

    Portões do Campo de Concentração de Auschwitz. Foto: Tulio Bertorini

    Dramas e feridas que a ocupação nazista deixou no tecido urbano e social da França aparecem no livro como pano de fundo de uma história de vida e luta de uma família judia, o pai austríaco, a mãe húngara, ambos judeus aportados a Paris em anos difíceis, vivendo em meio a mil dificuldades. E Dora, a filha de quinze anos, que abandona repentinamente o colégio católico onde estuda e desaparece. A polícia, as buscas, ao mesmo tempo as investigações e prisões de cidadãos de origem judaica, as cumplicidades das autoridades francesas com os ocupantes alemães, os campos de concentração ao redor da capital, as viagens para a morte.

     

    Fotografias de identificação de prisioneiros de Auschwitz feitas por Wilhelm Brasse, fotógrafo polonês e sobrevivente do campo

    E as perguntas, que perpassam as páginas e levam a sucessivos questionamentos e buscas, e encontros, às vezes, com fios de memoria e fragmentos de documentos: anônimos relatos policiais, listas de alunos de colégio, fotografias sem datas. Para onde foi Dora naquelas semanas e meses de fuga? Por que se subtraiu à escola, aos pais, ao seu cotidiano? Quem a encontrou e/ou a denunciou? Como e quando se reencontrou com a família e em que circunstâncias foi enviada para Auschwitz?  Deste modo o pesquisador, junto ao escritor, tece a teia de sua imaginação narrativa. Mas confessa também, encerrando seu livro: “Ignorarei para sempre como ela passava seus dias, onde se escondia, em companhia de quem se encontrava no inverno de sua primeira fuga e nas poucas semanas daquela primavera em que fugiu de novo. É o segredo dela. Pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos da polícia, as autoridades assim chamadas de ocupação, os quarteis, os campos, a História, o tempo – tudo o que suja e destrói – não conseguiram roubar-lhe”.

    Ficção e realidade. Acontecimentos documentados, fatos e registros históricos e livre exercício da capacidade criativa.  O resultado é um livro intrigante, doloroso em sua tentativa de resgate de fragmentos de existência, magnificamente escrito.

     

    Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e autor da tese “Nello, Libero e Giuseppe: do Rio contra Mussolini. Percursos políticos do Antifascismo Italiano na Capital Federal (1922-1945)” (UFRJ, 2013)

     

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