A Copa por trás da festa

Biblioteca Fazendo História discutiu os processos de organização dos megaeventos esportivos. No Brasil, a consequência é a privatização do espaço público urbano, cada vez mais excludente

Nashla Dahás

  • Ana Paula da Silva, o mediador, Marcello Scarrone, e Felipe Morelli Machado. O BFH aconteceu na quinta (26), na ABI.“Amigos, ontem foi um dia santo. O escrete do Brasil fazia a sua primeira audição na Inglaterra. Eu vos direi que a rainha devia ter comparecido ontem, e não na véspera. Pois o divino Pelé jogou como se todos ali fossem rainhas. E se o diáfano espectro de Maria Stuart viu o crioulo, há de ter sussurrado: Vai jogar assim no raio que o parta!. Mas eu dizia que toda a cidade parou. As nossas madames Bovary, as nossas Anas Karêninas suspenderam seus amores e seus pecados, das três às seis. Os bandidos do Leblon não assaltaram senhoras nem crianças. E o caro Geraldo Mascarenhas, do Banco Mineiro da Produção, deixou de pensar nos títulos que eu já devia ter pago. Ontem, ninguém era credor, ninguém era devedor. Éramos apenas brasileiros, da cabeça aos sapatos...”.

    O trecho de Nelson Rodrigues foi publicado em crônica d’ O Globo de 1966, por ocasião da estreia do Brasil na Copa do Mundo de futebol da Inglaterra. Na tarde da quinta passada (26), o texto foi relembrado pelo historiador Felipe Morelli Machado no dar início ao Biblioteca Fazendo História desse mês, cujo tema é Quem paga a conta? Os custos sociais dos grandes eventos. Ao seu lado estava a antropóloga Ana Paula da Silva, cuja tese de doutorado virou o livro Pelé e o complexo de vira-latas: discurso sobre raça e modernidade no Brasil.

    Com mediação do pesquisador da Revista de História, Marcello Scarrone, os jovens professores discutiram especialmente o processo de organização de megaeventos esportivos, como as Copas do Mundo. Felippe Morelli destacou o fato de que os organizadores; construtoras, empresas patrocinadoras e prestadoras de serviço, além de políticos e governantes, são em verdade os únicos que participam efetivamente do processo e lucram com ele. “A população costuma ficar à margem de tudo isso, inserida em um cotidiano puramente construído pelas notícias e pela suspensão temporária da ordem comum às cidades sede”, afirmou.

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    Como se sabe, boa parte da população não tem acesso às informações mais específicas sobre os impactos de grandes obras públicas que dizem respeito ao cotidiano na cidade, como os projetos de mobilidade urbana. Nesse caso, por exemplo, o Rio de Janeiro possui demandas por melhorias que se avolumam há pelo menos vinte anos e que não serão contempladas pelas obras e alterações do cenário urbano proporcionados pela Copa. A essa “contradição”, Ana Paula Silva sugeriu que “o que ocorre durante eventos como esse é a privatização do espaço público urbano, cada vez mais excludente. A esse respeito, note-se a crescente elitização dos estádios de futebol no Brasil e no mundo, tanto em sua organização quanto em sua estrutura”.

    Segundo ela, A FIFA (Federação Internacional de Futebol) e o COI (Comitê Olímpico Internacional) criam regras para os países sede de grandes eventos esportivos que desconsideram absolutamente a vivência social cotidiana desses lugares. Não seria à toa, portanto, que o Maracanã recentemente reformado para atender às normas da entidade será fechado após o fim da Copa para nova reforma que deverá atender às normas do COI. Em nenhum dos dois momentos se verificou ou verificará a preocupação com o público local que poderia frequentar o Maracanã continuamente.

    Morelli conclui sua participação lançando uma dúvida aos ouvintes. “Como em tantos outros momentos de nossa histórica relação nacional com o futebol, é certo que um resultado positivo pode amenizar conflitos da sociedade civil com o governo. Assim como pode ser capitalizado politicamente pela grande imprensa, governantes e organizadoras que saem beneficiados disso. Por outro lado, o que poderá acontecer diante de um resultado negativo? Que impacto social em termos de reflexão uma derrota pode causar nos brasileiros já insatisfeitos com tanta coisa por aqui?”.

    Apesar de toda a politização do tema, a evidente energia popular envolvida nestes megaeventos precisa ser considerada em qualquer avaliação dos custos sociais disso. Mesmo conscientes da instrumentalização do futebol como capital simbólico nas mãos de seus organizadores, há uma dimensão do esporte como representação social que não se pode perder. Talvez, o futebol ainda seja um dos poucos campos a incluir grupos marginalizados em quase todos os outros meios de atuação política, lembraram os palestrantes desta edição de junho do BFH, que ocorreu em meio à Copa do Mundo de Futebol no Brasil.  

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