Brasil e seus vícios

Em debate na Biblioteca Nacional, pesquisadores discutiram as transformações da relação entre as sociedades e as drogas ao longo do tempo

Nashla Dahás

  • Márcio Andrade, Nashla Dahás e Tiago Coutinho (esquerda para direita)“A vida não é medicalizável”. A frase marcou o Biblioteca Fazendo História de ontem, que discutiu o tema de capa da Revista de História de novembro: Brasil de todas as drogas. O historiador Marcio Andrade e o antropólogo Tiago Coutinho conversaram com o público sobre as transformações da relação entre as sociedades e os psicoativos ao longo do tempo. O destaque foi a atual indústria dos antidepressivos e ansiolíticos apoiada no discurso médico que cada vez mais tende a padronizar comportamentos ao custo humano da dependência e do fim da espontaneidade. 

    Marcio é autor da tese Capítulos de história sanitária do Brasil entre 1910 e 20 (2011), e desenvolve belo trabalho de esclarecimento sobre drogas em colégios públicos cariocas, em pareceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “Trato a droga como uma questão de saúde pública, mas não pensem que vejo o discurso médico como único”, avisou em meio a sua apresentação sobre o século do cigarro, o século XX. O professor contou que durante as duas Guerras Mundiais foram distribuídos cigarros aos soldados, “prisioneiros e guardas usavam o produto como moeda não oficial em diferentes locais e situações durante a guerra”, assim como a droga aparecia em quase todas as grandes cenas de cinema. Naquela época, ninguém mencionava os potenciais malefícios do cigarro, e essa guerra ainda faria vitimas por muito tempo.

    Também em relação à cocaína, houve uma mudança flagrante de percepção social dos anos 70 por diante. Tiago Coutinho explicou que, diferente da maconha e do LSD –associados pela comunidade científica aos grupos de contracultura -, “naquela época a cocaína era considerada um psicoativo leve, incapaz de causar dependência física. E seu alto custo provocou uma rápida reputação: virou a droga das elites, carregando uma imagem de algo desejável por toda a população que almejava ascender socialmente”.

    No filme O Lobo de Wall Street (2013) isso estaria muito bem representado; o uso da cocaína era um pré-requisito para os chamados workaholics, ou viciados em trabalho que, além de se identificarem com os ícones do consumismo, impulsionavam de maneira decisiva a economia norte-americana dos anos 70. Mas, diferente do processo recente e muito atual em torno da limitação do uso do cigarro sem a criminalização do fumante; o que ocorreu com a cocaína foi exemplar do esforço legal de desqualificação do usuário independente dos efeitos da droga e de sua circulação. “O narcotráfico colombiano ficou conhecido pela produção e distribuição da cocaína mundo afora, atingindo graus avançados de organização. Como um dos resultados disso, a fama do psicoativo virou de ponta-cabeça: passou de uma droga de elite, associada ao poder e ao triunfo no mundo capitalista, para uma substância utilizada por populações excluídas e com um grande potencial destrutivo”. Ou seja, o acesso fácil e o preço baixo da cocaína a tornaram “droga de pobre” e facilitaram a perseguição legal e a estigmatização social de diversos grupos imigrantes. 

    Hoje, chama atenção o crescimento generalizado de outras drogas sintéticas, as drogas lícitas, prescritas por muitos médicos que não veem problema em medicalizar a vida, limitando o homem a um padrão social controlável, mas visto como bem sucedido.

    “São os medicamentos prescritos que, através de potentes compostos químicos, induzem no consumidor o desenvolvimento de capacidades para lidar com os padrões de um capitalismo ainda mais sofisticado pela tecnologia. Se na década de 1980 a cocaína foi a substância que melhor se associou aos valores desse sistema, agora os remédios encontrados nas farmácias prometem acabar com a preguiça, com o déficit de atenção e qualquer outro sintoma que vá contra a lógica e o tempo da produção. É como um milagre. Que, como mostra a história, pode ter prazo de validade”, afirmou Tiago, autor de dissertação de mestrado que aborda “Do êxtase religioso ao ecstasy festivo”.

    Antes do fim do debate, Marcio Andrade contou uma experiência pessoal: “Nasci e vivi minha infância no bairro de São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro. Naquela época, era um bairro majoritariamente habitado por classes mais pobres e onde a criminalidade não acontecia de vez em quando. Ali, fumar maconha era sinônimo de entrar para o tráfico, não havia forma de desassociação disso. E, de fato, muitos dos meus amigos de criança morreram envolvidos com o tráfico de drogas. Quando entrei na faculdade, tive, pela primeira vez, contato mais profundo com pessoas de outras classes sociais e ambientes culturais. Foi uma confusão o que aconteceu na minha cabeça quando muitos deles me contaram que fumavam maconha ou cheiravam cocaína. Eram pessoas comuns, que trabalhavam, estudavam e cuidavam das suas famílias, assim como eu”. 

    O discurso médico (aliado à poderosa indústria farmacêutica) costuma avaliar os efeitos dos psicoativos de maneira definitiva e generalizante sem considerar o contexto social ou a pré-disposição pessoal em cada caso. Assim, ansiolíticos e antidepressivos tem sido indicados para pessoas sem qualquer necessidade de medicamentos; submetidas, porém, ao desumano tempo da produtividade cobrada em qualquer área profissional atualmente. Enquanto isso, o crack se torna o grande objeto de estigmatização da população usuária, deslocando a questão da tragédia social brasileira que ainda espalha crianças pedintes pelas ruas.   

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