Morre Justo Guedes

Ícone da História Naval Brasileira e da História da Cartografia, almirante Max Justo Guedes continuou se dedicando aos estudos até ser vencido pelo câncer

  • A historiografia brasileira está de luto. Morreu ontem vítima de câncer o almirante Max Justo Guedes, especialista em História Naval Brasileira e História da Cartografia. Max, que era considerado um elo brasileiro com os estudos do historiador português Jaime Cortesão, ajudou a formar gerações de historiadores e inúmeras publicações sobre pesquisa cartográfica, tornando-o conhecido em todo o Brasil e no mundo. Com seu jeito sempre receptivo a estudantes e profissionais, nem a doença o afastou do mundo da historiografia: Justo Guedes era um dos organizadores de um seminário no Itamaraty sobre o centenário da morte do Barão do Rio Branco, que acontece no ano que vem.

    A influência de Cortesão norteou toda a obra do almirante. Ambos compartilhavam a “teoria do sigilo”: para eles, a escassez de mapas em Portugal e Espanha, quando comparada à produção holandesa, por exemplo, se deve à tentativa de manter um rígido controle de informações estratégicas. Tais dificuldades, porém, instigaram Justo Guedes. Para compor o trajeto da esquadra de Pedro Álvares Cabral até o Brasil, o almirante realizou uma detalhada pesquisa de campo que contou até com navegações e voos de helicóptero. Assim, Justo Guedes questionou a intencionalidade do descobrimento do Brasil baseando-se em farta documentação e justificativas técnicas – trabalho que lhe rendeu notoriedade em todo o mundo.

    O trabalho era, por sinal, sua grande paixão. Mesmo combalido pela doença, Justo Guedes não parou. Há cerca de dois meses, ele e o professor Arno Whelling começaram a elaborar, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – onde Max era 2º vice-presidente –, um seminário que será realizado no ano que vem no Itamaraty sobre o centenário da morte de Barão do Rio Branco, que também foi, por sinal, um dos seus objetos de estudo.

    “O trabalho era sua vida. Mesmo com a doença, ele continuava se dedicando aos estudos da História. Foi uma figura muito importante que mudou os estudos da História Naval no Brasil”, lembra Arno.

    Vera Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional, também ressalta como o almirante parecia ignorar a doença para continuar se dedicando aos estudos.

    "Eu estava sempre com o almirante. Até muito recentemente, ele ainda me apresentava idéias para projetos de exposições. Para além do Brasil, o mundo lusófono perde um amigo entusiasmado com  a pesquisa e a produção de conhecimento. Fica uma lacuna no saber da nossa História. Pessoalmente, perco um amigo e um conselheiro", lamenta Vera.

    Já a professora da USP, Iris Kantor, conta - num artigo publicado aqui em homenagem ao mestre - que Max deixou vários projetos inconclusos, como o roteiro para um documentário sobre a construção das fronteiras amazônicas.

    "Max Justo Guedes considerava possível e necessário fazer uma história total da cartografia. Insistia sempre na importância do estudo das mitologias clássicas para compreensão das informações geográficas utilizados na cartografia Renascentista. Pioneiro em tantos temas, foi um dos primeiros a chamar atenção para o papel dos jesuítas no mapeamento do território brasileiro. Também estimulou os estudos dos roteiros náuticos, dando especial ênfase às conexões entre a África e o Brasil. Deixou vários projetos inconclusos, como por exemplo, o roteiro para um documentário sobre a construção das fronteiras amazônicas. Graças a sua atuação e aos seus trabalhos, a historiografia da cartografia luso-brasileira renasceu nas universidades brasileiras nos últimos 10 anos", lembra Iris.

    Sua sede por conhecimento ficou evidente na entrevista à Revista de História da Biblioteca Nacional, feita em 2007, quando surpreendeu pela familiaridade com a tecnologia náutica moderna – além, claro, pela destreza com mapas antigos, bússolas, astrolábios, e até com os ventos que inflavam as velas das naus portuguesas ou espanholas no Atlântico, há cinco séculos, impulsionando suas jornadas até as Américas.

    Justo Guedes ocupou os cargos de subdiretor e diretor do Serviço de Documentação Geral da Marinha entre 1968 e 1997, até assumir a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha. Entre outras atividades, foi secretário-geral do Comitê Internacional de História da Náutica e da Hidrografia, membro do Conselho de Proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Municipal do Rio de Janeiro, diretor do Departamento Cultural do Clube Naval e membro do Conselho Editorial da Biblioteca do Exército.

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