Mortos-vivos

O comércio de escravos no período colonial esteve em debate no Rio. Convidados enfatizaram a morte social dos africanos capturados e levados para a América, norte da África e Oriente Médio

Nashla Dahás

  • Os pesquisadores Alexandre Vieira Ribeiro, Cristiane Nascimento e Joice Santos no debate sobre o comércio de excravos, tema do BFH de setembro.Na terça feira passada (25), o Biblioteca Fazendo História debateu o tráfico transatlântico de gente durante o período colonial. Cada um ao seu modo, os convidados daquela tarde, o professor da UFF e co-organizador de Estudos africanos: múltiplas abordagens Alexandre Vieira Ribeiro, e Joice Souza, pesquisadora da Revista de História, enfatizaram a morte social dos africanos capturados e levados não só para a América, mas para o norte da própria África e até para o Oriente Médio.

    Ao se tornar escravo, o indivíduo era arrancado de sua terra e perdia todos os vínculos com seu grupo de origem. Em vez da morte física, sua pena era a “morte social”. O que se seguia era a fidelidade ao senhor como a única referência existencial do escravizado, seu único laço; pois passara a viver como um estranho numa nova sociedade, contou Alexandre Ribeiro.

    Houve, no entanto, justificativas para isso. Joice Souza lembrou que enquanto perdurou a escravidão, ela foi acompanhada por discursos que a legitimavam, como por exemplo, a ideia de “resgate” criada pela cristianização e pela expansão da civilização. Ao longo dos séculos, deixa claro a pesquisadora, a crença foi cedendo espaço para o estabelecimento da colonização e para a permanência das lavouras. “A presença africana na América portuguesa se estabeleceu de forma maciça na medida em que esta se tornou imprescindível para a administração colonial e por conta das atividades que geravam lucro para a Real Fazenda. Ou seja, a escravidão acontecia em nome do pai e do filho sim, mas, sobretudo, em nome da Real Fazenda”, afirmou a historiadora.

     

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    A inserção dos europeus nesses mercados fez a atividade ganhar vulto, mas em diversos pontos da costa africana, os europeus podiam encontrar – e encontravam – sujeitos dispostos a vender escravos. “A diversidade de povos do continente impedia que se forjasse entre eles uma identidade comum. Eles não se reconheciam como iguais. Constituíam laços de solidariedade por meio de linhagens, clãs e Estados, e escravizavam os diferentes. O escravo era a única forma de propriedade privada na África, pois a terra era considerada um bem coletivo”, explicou Alexandre Vieira.Os europeus souberam tirar proveito dessa situação e passaram a oferecer produtos em troca de escravos. Supérfluos como rum, cachaça, vinho, fumo, tecidos, armas de fogo, pólvora e utensílios de metal, muitas vezes de qualidade inferior àqueles produzidos na própria África eram trocados por escravos africanos. Embora os produtos fossem de baixo valor na Europa e na África, eles davam prestígio às lideranças locais. Por sua vez, estes líderes usavam esses artigos para cooptar os adversários políticos, angariar apoio e consolidar o poder nos reinos africanos. Isso porque, como narrou o professor da UFF, a escravidão e o comércio de pessoas na África existiam antes da chegada dos europeus.

    Uma das marcas mais perversas deixadas na memória dos escravizados vendidos aos europeus era a experiência dos “tumbeiros”, as embarcações que os levavam de sua terra natal para o trabalho nas lavouras americanas.

    Alexandre Vieira e Joice Souza ajudaram a reconstruir aspectos daquelas condições: eram principalmente adultos que, desde a sua captura passavam a se alimentar de maneira claramente insuficiente, aumentando o índice de mortalidade dessas viagens. O ambiente também era propício para a difusão de doenças; o sono, a alimentação e as fezes compartilhavam o mesmo pequeno espaço coletivo. Vieira contou que um surto de varíola chegou a fechar o porto de Luanda na primeira década do século XIX, estancando o fluxo negreiro e causando muitas mortes entre livres e cativos.

    Amontoados nos porões dos tumbeiros, homens, mulheres, adultos e crianças tinham dificuldade de respirar aquela mistura de suor com dejetos humanos. Apesar disso, havia pessoas que se entregavam à escravidão, junto com toda a sua família. Era a fome, fosse pela seca ou por pragas de insetos.

    O tráfico de escravos mudou o mundo ao custo do sofrimento incomensurável de milhões de seres humanos, levados à força de suas terras, separados de seus parentes e amigos, de todo o seu próprio mundo conhecido. Aspectos políticos, econômicos e sociais deixados pela dor e pelo trabalho daqueles homens são parte de uma herança cultural que marca todos os povos americanos. 

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