Primeira Guerra em discussão

No Biblioteca Fazendo História deste mês, especialistas contestaram ideia de que o primeiro grande conflito mundial teria marcado o fim de uma era

Nashla Dahás

  • Postal da I Guerra mostra soldados franceses em trincheira / Coleção Fabio PedrosaUm único evento, por mais importante que ele seja para a história de todos os envolvidos, não tem capacidade de síntese para definir um tempo. A Grande Guerra de 1914-17 não foi, portanto, o fim de uma era como afirma a chamada de capa da RHBN deste mês. Antes mesmo de ser deflagrado o conflito mundial, já havia indícios de que algumas mudanças sociais estavam em curso na Europa, assim como, do ponto de vista militar, há continuidades flagrantes até os dias de hoje. Entre elas, apesar dos contingentes mobilizados atualmente serem bem menores, ainda somos capazes de matar em quantidades gigantescas.    

    Esse foi o ponto central do Biblioteca Fazendo História deste mês, que discutiu as motivações e consequências da Primeira Guerra Mundial, cem anos depois, na tarde de terça-feira (15), na Biblioteca Nacional. Os historiadores Adler Homero de Castro, conselheiro-curador do Museu Militar Conde de Linhares, e Maurício Barreto Alvarez Parada, professor da PUC-Rio, enriqueceram o dossiê publicado pela RHBN fazendo um contraponto à ideia de que a Primeira Guerra teria sido o fim de um tempo. O “arco da guerra”, de acordo com Parada, começa antes de 1914 e só terminará – correndo o risco de utilizar uma expressão definitiva demais - em 1945.

    Saiba mais:

    Dossiê I Guerra Mundial

    Fim de uma era?

    A imagem mais simbólica de que a história da Primeira Guerra, e a história de maneira geral, constituem mais períodos de transição do que de ruptura definitiva seria aquela em que soldados armados de lanças e sobre cavalos, usam máscaras de gás. A foto é comum às exposições sobre a Primeira Guerra e sugere o grau de passagem daquele momento: “trata-se de um sujeito híbrido que carrega elementos bélicos tradicionais do século XIX como a montaria a cavalo, ao mesmo tempo em que se prepara para circunstâncias emergentes do século XX, como a guerra química”, afirma Maurício Parada.

    Isso não significa, no entanto, que a Grande Guerra não tenha sido um marco em muitos aspectos não apenas bélicos. Por exemplo, naquele tempo, país potente era aquele que tinha fortalecidas as suas Forças Armadas, ou seu Exército, conta o historiador Adler Homero. Desde a Revolução Francesa com seu hino revolucionário, a capacidade de mobilização de imensos contingentes de soldados somava-se ao poderio militar de um Estado para determinar a sua força internacional. Em uma só batalha da Primeira Guerra chegaram a morrer 900 mil pessoas.

    Mas o que ocorre de diferente ali é que até então as guerras não tinham relação direta com a população civil, que mantinha enorme respeito e distanciamento dos militares. Contudo, a necessidade de exércitos de massa nos fronts acabou limitando a produção industrial que, por sua vez, se viu obrigada a contratar mão de obra feminina para suprir a falta dos operários.

    Ao mesmo tempo, o reforço do nacionalismo como argumento de convencimento do apoio civil à guerra ganha enormes proporções. O resultado – grosso modo – dessa mudança para uma guerra total, ou seja, para uma guerra que tem que envolver todas as esferas da sociedade, será em grande medida as campanhas de militarização e de terror nazistas, disse Homero.

    A respeito desse tipo de continuidade após 1918, Mauricio Parada destacou o avanço do mundo técnico. “O poder da técnica aparece dali para frente de maneira inquestionável e imprescindível para pensarmos o mundo, mesmo filosoficamente”. Seja no campo das armas, ou dos transportes, da comunicação, da memória (com destaque para a fotografia), o universo da transformação técnica do mundo encontra um marco na Primeira Guerra.

    Outro ponto de ligação entre o mundo que emerge nas primeiras décadas do século XX e os períodos posteriores, seria a “tecnologia específica de controle das populações”. A guerra só se torna total, como afirmou o pesquisador Adler Homero, porque se realiza a partir de uma técnica de controle populacional muito eficiente, explicou o professor da PUC-Rio.

    A presença e a importância da propaganda são fundamentais nesse sentido. Elas fomentam o sentimento nacional e a cultura de massas, ou seja, um tipo de sociedade que se estenderá por todo o século XX, para muito além do fim da guerra.

    Esses conflitos, como eventos traumáticos que são, também alteram as concepções de mundo dos envolvidos. E isso ficou muito claro no mundo europeu pós-1917. Ali, há a quebra da ideia iluminista eurocêntrica que conservava um sentimento coletivo e universal do mundo. Aprofundada com a Segunda Guerra, explode a crise de um olhar centralizado no mundo europeu, e o resultado disso é o surgimento de uma era mais plural para as gerações seguintes, concluíram os historiadores deixando clara a riqueza e a atualidade do tema.

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