Ameaçados de extinção

Projetos pioneiros de laboratório da USP podem ser descontinuados

  • No artigo Rastros ancestrais, da RHBN 103, pesquisadores brasileiros, da Jordânia e do Qatar descreveram as possibilidades de pesquisa no Vale do Rio Zarqa (planalto central da Jordânia). O projeto paleoantropológico se concretizou por meio do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) da Universidade de São Paulo, e pela primeira vez, cientistas brasileiros estabeleceram esse tipo de trabalho fora do país.
     
    Recentemente, entretanto, Walter Neves – fundador do LEEH, prestes a se aposentar – veio a público denunciar que o laboratório pode deixar de existir: "A reitoria atual não está provendo novas vagas de docente e, mesmo que o faça, nada garante que o Departamento de Genética e Biologia Evolutiva aloque essa vaga para a área da Antropologia Biológica. O departamento é majoritariamente constituído por geneticistas humanos, grupo de excelência, mas que têm enorme dificuldade de entender que nossa área envolve três campos do conhecimento: antropologia, arqueologia e biologia evolutiva”.
     

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    Cuidando dos primeiros americanos

     

    O laboratório, de 21 anos de atuação, está vinculado ao Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP e esteve diretamente ligado à divulgação da importância do crânio de Luzia, representante da primeira população que povou o continente americano.

     
     
    Leia a nota na íntegra:
     
    Estudos de evolução humana na USP estão ameaçados de extinção
    Walter Neves em foto do acervo do Laboratório de Estudos evolutivos Humanos (IB/USP)
     
    O Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH), do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do IB-USP, foi por mim criado em 1994. Até hoje é o único laboratório da América do Sul a 
    pesquisar a evolução humana sob uma perspectiva paleoantropológica, portanto, interdisciplinar por definição. Nossa pesquisa de maior destaque refere-se a Luzia, a primeira americana, que se tornou o ícone da pré-história brasileira. Hoje, o Laboratório desenvolve mais de dez projetos de pesquisa em parceria com diversas instituições do Brasil e do exterior. Recentemente, deu início a um projeto paleoantropológico na Jordânia, buscando nossos ancestrais que há 2 milhões de anos se expandiram da África para o Oriente e para a Europa. Essa é a primeira vez que cientistas brasileiros estabelecem um projeto paleoantropológico fora do país. O LEEH-USP também se dedica freneticamente à divulgação do conhecimento da evolução humana para o público leigo, numa cruzada significativa contra a expansão do criacionismo no país. Entre essas atividades destaca-se a exposição “Do macaco ao homem”, recentemente implantada no Catavento Cultural, financiada pelo CNPq e pelo próprio Catavento, que consumiu recursos da ordem de um milhão de Reais. O LEEH também é o fiel depositário junto ao IPHAN e ao IBAMA de coleções arqueológicas e paleontológicas referentes aos primeiros americanos, destacando-se aí a maior coleção de esqueletos desses primeiros colonizadores do continente. Possui ainda uma infraestrutura física invejável, que não deixa nada a dever a instituições congêneres no exterior. Nos últimos dez anos só a FAPESP injetou cerca de dois milhões de dólares nessa infraestrutura e nos projetos que desenvolvemos. Mas tudo isso está ameaçado de extinção. Com minha aposentadoria em futuro próximo não há a menor possibilidade de que seja contratado um docente para assumir o laboratório. Isto se deve a duas razões complementares: por um lado, a reitoria atual não está provendo novas vagas de docente e por outro, mesmo que ela o faça, nada garante que o Departamento de Genética e Biologia Evolutiva aloque essa vaga para a área da Antropologia Biológica. O departamento é majoritariamente constituído por geneticistas humanos, grupo de excelência, mas que têm enorme dificuldade de entender que nossa área envolve três campos do conhecimento: antropologia, arqueologia e biologia evolutiva. Esse é o preço real que se paga na USP por ser de fato interdisciplinar. Se você se simpatiza com minha causa, por favor envie mensagens para o reitor da universidade Marco Antônio Zago (marazago@usp.br), com cópia para o vice-reitor Vahan Agopyan (vahan.agopyan@poli.usp.br) e para o chefe do Departamento de Genética e Biologia evolutiva Luis Neto (nettoles@ib.usp.br) Só a pressão social poderá evitar que o Brasil perca esse patrimônio material e imaterial que foi construído a duras penas nos últimos 25 anos. 
     
    Walter Neves, Professor Titular (waneves@ib.usp.br).”
     

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