Uma bússola para a América Latina

Há 30 anos, morria o escritor e intelectual uruguaio Ángel Rama, que ajudou a pensar a cultura literária latino-americana

Pedro Demenech

  • Um acidente de avião colocou fim na vida do escritor e acadêmico uruguaio Ángel Rama, há 30 anos. Na ocasião, Rama tinha 57 anos e morava na Espanha, exilado pela ditadura em seu país natal. “O Uruguai me fez”, costumava dizer, afirmando que a sociedade uruguaia havia cifrado suas esperanças, felicidades e realizações na construção da democracia. Falava em ter sido criado por uma sociedade aberta e que lhe era muito querida, situação que mudou com o golpe militar de 1973. 

    Chegou a ter o passaporte cancelado pelo governo, devido à oposição ao regime. Entrou em contato com uma vasta cultura latino-americana e, impossibilitado de voltar ao seu país, construiu uma respeitada carreira universitária no exterior. Formado em Direito, deu aula nos Estados Unidos e França. Mas devido ao apoio à Revolução Cubana (1959), Rama teve o visto negado nos Estados Unidos, e deixou de ser professor na Universidade de Maryland.

    Nesse período, formulou as bases do livro A cidade das letras (Brasiliense, 1985), publicado postumamente, no qual analisou as relações estabelecidas entre os intelectuais letrados e o poder na América Latina, desde o período colonial até meados do século XX. Nesta e em outras obras, sua preocupação crucial foi a de pensar a cultura latino-americana não como um desdobramento da europeia, mas dotada de características próprias. Uma de suas principais preocupações intelectuais foi justamente afirmar a busca pela autonomia cultural, por meio da qual a interpretação da literatura produzida, por exemplo, servisse como modelo para se pensar a produção de uma cultura latino-americana que se conectasse ao mundo, em vez de ser imitação daquilo que vinha de fora.

    Deu grande importância à narrativa gaúcha do século XIX. Interpretou-a, pois era composta de elementos populares que se mesclavam com a erudição de seus autores. Com grande erudição, Rama procurou fomentar a mescla entre cultura popular e erudita, procurando nesse encontro as marcas do que ele via como a “cultura latino-americana”.     

    Entre 1974 e 1983 começou a escrever o seu Diário (Trilce, 2008), no qual ficaram relatadas junto às incertezas, notas de pensamento e do cenário intelectual latino-americano dos anos em que se experimentou o estrangulamento das liberdades pelos governos ditatoriais que ascendiam ao poder. Mediante as dificuldades do exílio, Rama não se rendeu às incertezas que tomaram conta de sua vida. Procurou, com grande esforço, manter a vitalidade de seu projeto intelectual: uma história cultural comum à América Latina.

    Pedro Demenech é doutorando em História Social da Cultura da PUC-Rio

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