Face oculta da imperatriz

Fascinada pelas ciências naturais, Leopoldina deixou vasto legado para o Brasil. Armazenadas no Museu Nacional, suas coleções ainda guardam segredos, como cadernos não traduzidos, escritos pela princesa quando jovem

Alexandre Leitão, Fernanda Costa Távora, Júlia Araújo, Julia Meneses, Renata Fontanetto e Tais Carvalho. Supervisão: Gabriel Collares

  • Em mais um programa em parceria com a Revista de História, a Áudio Ativo foi entender melhor a história de vida de Maria Leopoldina de Áustria, primeira imperatriz brasileira. Fascinada pelas ciências naturais, ela teve grande importância para a ciência brasileira: suas coleções hoje estão armazenadas no Museu Nacional. Mas seus hábitos sofisticados não foram bem recebidos pela corte portuguesa.

    Colecionadora de minerais, insetos e plantas, mulher letrada, admiradora da fauna e flora brasileira, a esposa de D. Pedro I escrevia constantemente à Áustria, comentando descobertas que fazia em passeios ao ar livre. Maria Leopoldina (1797-1826) escrevia tanto que, até hoje, algumas de suas anotações não foram estudadas a fundo. É o caso da coleção de cadernos de estudos da imperatriz,  armazenada na SEMEAR (Seção de Memória e Arquivo), do Museu Nacional. Originalmente escritos em alemão, os sete cadernos mostram um pouco da educação recebida pela princesa ainda jovem: são anotações redigidas por ela sobre história, geografia, mineralogia, botânica. A ideia da instituição é traduzi-los para facilitar a pesquisa acadêmica, mas ainda não há previsão para que o trabalho seja realizado.

    A chefe de museologia do Museu Nacional, Theresa Baumann, conta que os cadernos ilustram maneira como Leopoldina e seus irmãos, ainda na Áustria, foram educados. “Eles receberam uma educação muito severa, bastante diferente do que recebiam naquela época os membros da coroa portuguesa”. A paixão de Leopoldina pelas ciências naturais influenciou seu filho, futuro D. Pedro II, cujo acervo monumental forma hoje o Museu Nacional.

     

     Ouça aqui o programa na íntegra

     

    Seu fim de vida é conhecido por muitos como de extrema solidão. A causa de sua morte, inclusive é rodeada de versões e mitos. Umas delas é de que D. Pedro I a teria agredido.  Alguns atribuem o fato à depressão em que se lançou devido à sua infelicidade na vida particular com Dom Pedro, que a traía, vexatoriamente, com a Marquesa de Santos. O fato é que Leopoldina morreu em dezembro de 1826, grávida de seu sétimo filho, que também não resisitiu. Embora sua vida não tenha sido fácil, seu legado para a ciência brasileira foi significativo.A historiadora Mary del Priore comenta que o fato de Leopoldina ter recebido uma educação rigorosa fez com que o preconceito de membros da família real portuguesa só aumentasse. No Brasil, Leopoldina ficou cada vez mais isolada. À noite, era trancada por D. Pedro em seus aposentos e só era visitada por ele para a reprodução: em nove anos de casamento, engravidou nove vezes. “Ela teve enorme dificuldade de adaptação ao país e à corte portuguesa. O fato de ser uma pessoa ilustrada afastava-a da corte, que estranhava seus hábitos de estudo, seu gosto pela caça, seu jeito de comer com garfo e faca, por exemplo”, explica Mary.

    Vida de princesa

    Primeira imperatriz que o Brasil teve, Leopoldina era de uma família tradicional europeia, a dos Habsburgos, a mesma da rainha francesa Maria Antonieta (que, inclusive, era sua tia-avó). O interesse de Maria Leopoldina pela ciência e a base de sua formação têm a ver com a educação recebida quando ainda estava na Europa. A tradição dos Habsburgos com a leitura e o conhecimento era grande.

    Os Habsburgos foram uma das mais importantes famílias nobres da Europa, tendo governado seu império entre 1273 e 1918. Império que mudou de nome e território diversas vezes: ocuparam o trono do Sacro Império Romano, de 1273 a 1806, do Império Austríaco, de 1804 a 1867, e Império Austro-Húngaro, de 1867 a 1918.

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    O tio-avô da Imperatiz Leopoldina, Imperador José II (1741-1790), primeiro do ramo Habsburgo-Lorena, produziu reformas jurídicas e educacionais, entre as quais se encontravam a abolição de penas brutais, o fim da censura à imprensa e ao teatro e a obrigatoriedade de educação básica a todas as crianças do Império, independentemente de gênero. José permitiria também a criação de escolas para judeus e outras minorias religiosas, além de criar bolsas de estudo para alunos carentes. O Imperador ainda se celebrizaria por seu incentivo às artes e à cultura, tendo comissionado a Wolfgang Amadeus Mozart a composição da ópera Die Entführung aus dem Serail, e a Ludwig van Beethoven uma cantata de funeral.

    Após sua morte em 1790 foi sucedido por Leopoldo II, seu irmão, que viria a falecer dois anos depois. Caberia então ao sobrinho de José, Francisco II (1768-1835), governar o Império, em um momento marcado pelas guerras napoleônicas e pela ameaça de expansão da Revolução Francesa. Por conta destas novas ameaças, o monarca, que viria a dissolver o Sacro Império em 1806, passando a nomeá-lo como Império Austríaco, adquiriu uma fama muito menos identificada com as artes e as ciências do que seu tio. Porém, o legado de José II continuaria a ecoar mesmo na figura de sua sobrinha-neta, Maria Leopoldina.

     

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