O fascínio pela natureza

Palácio em Mariana ganhou jardim fiel aos padrões europeus, obra de um bispo português ilustrado

Moacir Rodrigo de Castro Maia

  • O viajante-naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, ao chegar a Mariana em 1817, admirou-se ao avistar o Palácio dos Bispos. Em seu diário, anotou: “Tinham-me gabado muito seu jardim e, efetivamente, das elevações próximas, pareceu-me desenhado com regularidade, e ser maior e mais bem tratado que todos os outros que vira no resto da província”.

    Mariana era, então, a capital eclesiástica das Minas. Mais do que o palácio episcopal, era o seu jardim que se destacava na paisagem da antiga vila mineradora. Além de enfatizar a beleza e a extensão que ocupava, o olhar de Saint-Hilaire nos revela algo mais sobre o idealizador daquele jardim e sobre sua geração. O botânico francês identifica no parque privativo uma preocupação com a regularidade, a simetria e a disposição dos elementos naturais e artísticos, preocupação que marcou a construção dos jardins europeus no século XVII e ainda mais no século XVIII, em especial pelos jardineiros italianos e franceses. O domínio da ordem e da regularidade sobre o espaço espelhava o domínio do príncipe sobre suas posses. E o reflexo desse poder era irradiado e incorporado por nobres, pelos senhorios em suas propriedades privadas, palacetes, casas nobres e quintas, como as portuguesas.

    No cenário mineiro do início do século XIX havia uma profusão de jardins e quintais, mas eles se caracterizavam pelo senso de utilidade e pela assimetria dos desenhos. Como em outras áreas do Brasil, as casas dos núcleos urbanos mantinham as fachadas coladas umas às outras, ou separadas por muros de pedras ou de tijolos de adobe. Os fundos, entretanto, se estendiam, ocupando grandes espaços onde se cultivavam jardins – em geral, uma composição de canteiros de flores, pomar e horta, servindo também para a criação de pequenos animais. Era uma tentativa de reproduzir, nos povoados, os cultivos encontrados em chácaras, sítios ou fazendas das áreas rurais.

    A história da área verde do antigo Palácio dos Bispos de Mariana começa parecida com a dos jardins e quintais de qualquer outra vila mineira. Em 1749, quando foi doada para ser a residência do primeiro prelado do recém-criado bispado de Mariana, a propriedade possuía “todas as árvores de espinhos e outras mais que se acham na dita chácara, terras de hortas e todos os seus pertences”, como consta da escritura de doação do imóvel. Foi o terceiro bispo português a pisar o solo mineiro o responsável por modificar o aspecto da chácara, dotando-a de um parque privativo, seguindo a moda europeia das casas nobres.

    O lisboeta dom frei Cipriano de São José tomou posse do seu bispado em 1799. Conhecido como austero, tinha gosto requintado e era apreciador da boa mesa. Chegou a Mariana quando estava para completar 56 anos de idade. Ornou o Paço com rica mobília, porcelanas orientais, pratarias, quadros, esculturas, mapas e globos. Acrescentou expressiva biblioteca e cobriu de obras de arte a capela privativa. Como um nobre senhor, mandou pintar os retratos dos antecessores e o seu próprio nas paredes da ala principal, provavelmente encomendados ao seu amigo padre Viegas de Menezes, autor das aquarelas do Palácio. Viegas também havia vivido em Lisboa em certo período, e contribuído na Tipografia do Arco do Cego. Difusora de diversas obras científicas e técnicas, com ênfase na história natural (como se conheciam na época os estudos da natureza, como biologia e geologia), lançou os dez volumes da obra O fazendeiro do Brasil, verdadeira enciclopédia ilustrada do mundo agrícola que foi compilada por frei José Mariano da Conceição Veloso, e publicada a partir de 1798.  

    O novo bispo empossado pertencia a uma geração que se encantava pela botânica. Esta constatação é reforçada pela descrição do botânico Von Martius e do zoólogo Von Spix, da Baviera, que passaram por Vila Rica e Mariana em 1817: “Gabaram-nos a sua biblioteca munida também de muitas obras sobre história natural, e o seu museu de curiosidades naturais, com alguns minérios ricos de ouro. No pomar, tinha formado um viveiro de fruteiras europeias, que ali dão muito bem”. Sob influência iluminista, as nações europeias valorizavam o estudo de história natural, a implantação de jardins botânicos e expedições de naturalistas. Em Portugal, a reforma universitária de 1772 em Coimbra levou à implantação do curso de Filosofia Natural e, em 1779, nascia a Academia Real de Ciências de Lisboa. Deu-se início a uma política de criação de jardins botânicos na metrópole e, posteriormente, na América portuguesa. No final do século XVIII, instruções neste sentido foram passadas aos governadores em Belém, Ouro Preto, Salvador, Olinda, Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro.

    A elite formada em Coimbra e em outras partes da Europa se incumbiu de divulgar e incentivar, no Brasil, os estudos da flora, da fauna e dos minerais. Dom frei Cipriano, bispo de Mariana, mantinha contato com o botânico e sacerdote Joaquim Veloso de Miranda, criador do Horto Botânico de Ouro Preto em 1799. Quando Miranda faleceu, seu irmão ofereceu ao bispo alguns livros de história natural e botânica, como os títulos Flora Lusitanica e Dictionnaire de jardinier français. No jardim do palácio, o bispo tinha à mão um laboratório para botar em prática seus conhecimentos. A representação detalhada da bela paisagem que formou foi registrada em duas aquarelas sobre papel por seu amigo, o padre José Joaquim Viegas de Menezes (1778-1841). Elas retratam a chácara, dando destaque à área externa – o que ressalta o valor que o parque privativo tinha sobre o prédio de moradia. Juntamente com uma terceira aquarela, intitulada Prospecto da cidade de Mariana, ornamentaram, no passado, o luxuoso interior do palácio, atualmente pertencendo ao acervo do Museu de Arte Sacra da cidade.

    Ao descer três degraus da varanda interna da residência, deparamos com belo e pequeno jardim clássico, desenhado com oito canteiros geométricos delimitados por meio-fio. Ao centro, um tanque, possivelmente em octógono, conta com um “repuxo elevado”. A área encontra-se circundada por cerca viva em forma retangular. À direita, alguns altos coqueiros a destacar-se sobre pequenas árvores. Deixando a ala central rumo ao lado esquerdo, passamos por um bosque de árvores de pequeno e médio porte para chegarmos ao segundo jardim delineado, que apresenta desníveis de solo com outros oito canteiros geometrizados e grande tanque ao centro. Para ornar esse jardim, foi erigida belíssima fonte em um dos seus recantos, um dos locais preferidos de frei Cipriano. Nela mandou-se esculpir, em pedra-sabão, a passagem bíblica da Samaritana. O trabalho é atribuído a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (ca. 1730-1814), e atualmente orna a entrada do Museu de Arte Sacra de Mariana.

    Quando Saint-Hilaire chegou à colina de Mariana em 1817, Dom frei Cipriano havia falecido há pouco. Mas o extenso jardim do palácio sobreviveria ainda por algumas décadas. Em 1831, a antiga chácara foi novamente inventariada, e constava “o palácio episcopal, com sua capela dentro, parte do mesmo de pedra, todo envidraçado, com um grande quintal, com árvores d’espinhos, jabuticabeiras, cafezal, três tanques de diversos feitos, com duas águas nativas para o mesmo quintal”. Ao longo daquele século, o jardim desapareceu, ou melhor, retornou à sua origem: um jardim colonial. Em 1881, em visita a Mariana, o imperador D. Pedro II tomou seus costumeiros banhos frios em uma fonte do palácio dos bispos, e mesmo utilizando-se dos diários do viajante Saint-Hilaire, nada comentou sobre o jardim.

    A área acabou encoberta pelo crescimento de vegetação, pelos aterramentos e pelo pouco cuidado que as gerações seguintes tiveram com a chácara. No fim do século, os muros que a cercavam caíram. Na década de 1920, o antigo paço foi reformado para abrigar o Ginásio Arquidiocesano Municipal, e parte do jardim foi transformada em pátios para recreio dos alunos e campo de futebol. O edifício e sua área externa entraram em decadência durante o século XX, até ser abandonado.

    A restauração do antigo palácio dos bispos de Mariana aconteceu entre 2004 e 2007.  Transformado em Museu da Música, guarda riquíssimo acervo. Com as obras, foram encontrados fragmentos do antigo jardim na área externa, depois mapeados por uma pesquisa arqueológica. Quiçá, num futuro próximo, a bela área verde idealizada por frei Cipriano possa ser reconstruída, e seu acesso aberto a toda a população.

    Moacir Rodrigo de Castro Maia é autor do artigo “Uma quinta portuguesa no interior do Brasil, ou A saga do ilustrado Dom Fr. Cipriano e o jardim do antigo palácio episcopal, no final do século XVIII”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 16, 2009 (Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v16n4/03.pdf).

    Saiba mais:

    DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a destruição da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

    MUNTEAL FILHO, Oswaldo & MELO, Mariana Ferreira de. Minas Gerais e a história natural das colônias: política colonial e cultura científica no século XVIII. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2004.

    PÁDUA, José Augusto. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista – 1786 /1888. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

    SEGAWA, Hugo. Ao amor do público: jardins no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, 1996.

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