Para decorar a cidade

Fotografia feita por Rodolpho Lindemann no século XIX já indicava o futuro do paisagismo brasileiro: uma beleza tropical

Solange de Aragão

  • Na fotografia de Lindemann, do final do século XIX, a presença de ornamentação frontal em uma residência no corredor de Vitória, em Salvador. Os jardins deixavam os fundos das casas.“Ora, eu tenho rosas no meu jardim, rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me saúdam todas as manhãs com os seus melhores cheiros”. Assim Machado de Assis (1839-1908) registrou em uma de suas crônicas o cuidado com as flores de seu jardim na passagem do século XIX para o século XX, período que corresponde a uma das fases de transição do jardim particular brasileiro, quando a beleza passa a ser mais importante que a utilidade das plantas.

    As áreas ajardinadas junto às residências urbanas foram extremamente simples durante os três primeiros séculos de colonização. Misturavam flores, ervas, legumes, verduras e árvores frutíferas sem qualquer preocupação estética, e ficavam sempre atrás das casas. Foi Gilberto Freyre (1900-1987), em Sobrados e mucambos (1936), quem chamou atenção para o fato de que nessas áreas predominava o sentido útil sobre o valor estético. As plantas cultivadas no jardim eram usadas no preparo de alimentos, de chás e de remédios caseiros. Até as flores tinham uma função: perfumar a casa para combater os odores desagradáveis que vinham da rua.

    No início do século XIX, entretanto, uma série de acontecimentos contribuiu para uma ruptura com o padrão tradicional do espaço urbano, da casa e do jardim. A chegada da Corte e a abertura dos portos às nações amigas, em 1808, possibilitaram a entrada de vários produtos estrangeiros. E a Missão Artística Francesa, de 1816, trouxe artistas europeus para o Brasil dispostos a criar aqui uma Academia de Belas Artes. A partir daí, a paisagem das cidades passa por uma série de transformações na arquitetura e nas áreas ajardinadas. Muitas ruas são alinhadas, pavimentadas, iluminadas e arborizadas. Na fachada das construções, torna-se comum o emprego de platibandas (placas na parte superior da fachada que encobrem o telhado) e de outros elementos que sugerem a influência do neoclássico. A forma de implantação da construção no lote também muda. As casas deixam de ser erguidas lado a lado e no alinhamento das ruas. Surge primeiro um recuo lateral e, em seguida, um recuo frontal. Esse afastamento dos limites do lote é que possibilita a existência do jardim lateral e, posteriormente, do frontal.

    Quando o jardim passa para a lateral das residências urbanas, ele se separa das hortas e dos pomares e se torna ornamental, sendo caracterizado basicamente pelo cultivo de plantas e de flores ornamentais, embora nem sempre apresente um valor estético. É nesse momento também que o sentido humano passa a ser mais expressivo que o sentido útil do jardim. As plantas e flores começam a receber cuidados diários de seus proprietários, desenvolvendo-se um vínculo afetivo entre o dono do jardim e as flores que ele cultiva.

    Em fotografia tirada nas últimas décadas do século XIX, Rodolpho Lindemann, fotógrafo europeu que iniciou suas atividades no Brasil na década de 1870, registra áreas ajardinadas em frente às casas no corredor de Vitória, um dos bairros mais ricos de Salvador. Essa imagem é reveladora sob vários aspectos. Em primeiro lugar, comprova que a passagem do jardim dos fundos do lote para a área em frente às residências se difundiu por várias cidades brasileiras nesse período. Em segundo lugar, indica a existência de áreas ajardinadas em frente às residências urbanas com palmeiras e cactos em pleno século XIX, ou seja, a existência de jardins com vegetação tropical, precedendo o jardim moderno. Em terceiro lugar, evidencia a transformação de nossas paisagens urbanas em função das mudanças no lote e da criação de jardins frontais integrando e compondo o cenário urbano.

    Tanto no jardim brasileiro tradicional como nas áreas ajardinadas do século XIX, foi muito comum o emprego de espécies vegetais conhecidas pelos europeus em detrimento das espécies nativas ou de plantas tropicais. Muitos viajantes que estiveram no Brasil nas primeiras décadas do século XIX constataram no jardim brasileiro a presença de flores e frutos já aclimatados na Europa. O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) foi um dos poucos a contestar o predomínio de espécies exóticas nessas áreas ajardinadas. Reconhecendo a beleza e a variedade das cores da flora nativa, ele questionou o motivo da ausência nos jardins das espécies encontradas nos campos, nas matas e nas florestas.

    A princípio, a não utilização das plantas tropicais pode ser explicada pela própria função dessas áreas. Os primeiros habitantes do Brasil derrubaram as florestas e, junto a suas construções, plantaram espécies das quais tinham conhecimento e que, portanto, poderiam ser usadas no dia a dia. Em um segundo momento, entretanto, a razão de haver tantas espécies já aclimatadas na Europa no jardim brasileiro foi a obsessão que existia por tudo que era europeu, a mesma que levou a mudanças na cidade, na arquitetura e nas áreas ajardinadas. Machado de Assis tinha rosas em seu jardim, rosas que originariamente eram da China, aclimatadas na Europa, e que de lá vieram para o Brasil. Aliás, a casa que ficava atrás do jardim de rosas de Machado de Assis era uma espécie de chalé, também de nítida influência europeia, que se tornou comum na paisagem de várias cidades brasileiras no final do século XIX.

    Alguns paisagistas do período, como o francês Auguste François Marie Glaziou (1833-1906), responsável pelo projeto de remodelação do Passeio Público do Rio de Janeiro na década de 1860, foram capazes de reconhecer a riqueza da flora nativa. Mas eram poucos. Houve também o cultivo da flor-de-maracujá e de outras espécies nativas nas chácaras dos arredores das cidades. Além disso, aqui e ali era possível entrever uma palmeira ou bananeira atrás dos muros das casas urbanas – plantas tropicais, resultantes do processo de aclimatação. Existiam, de fato, algumas espécies tropicais no jardim brasileiro, mas não eram tão valorizadas quanto as que vinham da Europa, e muitas vezes denunciavam certo provincianismo do proprietário.

    No jardim que aparece na imagem registrada por Rodolpho Lindemann, cactos e palmeiras ganham destaque no jardim frontal da residência – aspecto que se tornaria comum somente com a difusão do movimento moderno, no século XX. Daí a importância e o significado dessa imagem, que apresenta um jardim anterior ao modernismo no qual se destacam espécies tropicais.

    O próprio Burle Marx (1909-1994) inicia sua carreira projetando jardins ecléticos, de influência europeia, sem reconhecer o valor da flora nativa. O paisagista descobre a riqueza da flora brasileira, ironicamente, ao visitar um jardim botânico na Alemanha. A partir de então, vai difundir o uso de espécies tropicais nas praças, nos parques e jardins que projeta. Isso demonstra que deviam ser raras nessa passagem do século XIX para o XX, ou mesmo durante as primeiras décadas do século XX, as áreas ajardinadas em que era notável o plantio da vegetação tropical para valorizar o espaço. Eram raras, mas existiam – como prova a imagem de Rodolpho Lindemann.

    Antes de Burle Marx, Mina Klabin Warchavchik, esposa de Gregori Warchavchik e cunhada de Lasar Segall, utilizou cactos no jardim da primeira casa modernista de São Paulo, projetada por seu marido em 1927: era o prenúncio do modernismo nas áreas ajardinadas. O jardim fotografado por Lindemann também antecede esse processo, embora não houvesse ali um diálogo entre a escolha das espécies e a arquitetura, pois, ao que tudo indica, a construção ocultada pela vegetação tinha influência europeia.

    Se, por um lado, a fotografia do corredor de Vitória revela a transformação das áreas ajardinadas em relação ao jardim tradicional brasileiro, por outro anuncia as mudanças que estavam por vir. A paisagem que aparece nessa imagem é exatamente dessa fase de transição entre o tradicional e o moderno. Os jardins são ornamentais e já apresentam pelo menos a busca de um valor estético. Mas esse valor seria atingido de fato somente no século seguinte, quando o jardim brasileiro passaria a ser projetado segundo as formas, as cores, os volumes e a textura da vegetação, criando uma nova maneira de se conceber essas áreas, com a devida valorização da flora nativa.

    Solange de Aragão é arquiteta, urbanista e autora de Ensaio sobre a casa brasileira do século XIX (Edgard Blücher, 2011).
     
     
    Saiba Mais - Bibliografia


    FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. 16ª ed. São Paulo: Global, 2006.
    MARX, Murillo. Cidade brasileira. São Paulo: Edusp, 1980.
    REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1970.
    Internet:
    SANDEVILLE JR, Euler. “Entre rosas e cactos”. Paisagens em Debate (1): out. 2003. Disponível em: http://www.usp.br/fau/depprojeto/gdpa/paisagens/artigos/2003Euler-Mina.pdf

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