Quando o ferro virou arte

Das modernas fundições francesas saíam estátuas e chafarizes reproduzidos em todo o mundo. No Rio do século XIX, o escultor da moda era Moreau.

Eulalia Junqueira

  • De tão integrados ao cenário carioca, às vezes passam despercebidos. São mais de 200 e quando o passante enfim repara neles, revive um tempo em que se desfrutava tranqüilamente a contemplação artística em plena rua. As estátuas e os chafarizes em ferro fundido – presentes em prédios tradicionais, jardins, praças e parques – causaram grande impacto quando surgiram. Fruto da Revolução Industrial, eles fizeram sucesso na Europa, e de lá foram exportados para vários países. Era uma nova forma de arte, que simbolizava os ideais da época: modernidade e progresso.

    Nas ruas do Rio de Janeiro, o nome de um artista francês tornou-se conhecido em meados do século XIX. Era de Mathurin Moreau (1821-1912) a maioria das peças encomendadas tanto pelo governo, para enfeitar espaços públicos, quanto por ricos particulares, para ornar residências. Sua obra mais imponente na cidade é o chafariz monumental do Jardim do Monroe, na Cinelândia. Adquirido provavelmente em 1878, tem dez metros de altura e foi realizado com a colaboração do arquiteto Liénard (1849-1900). Rodeado por um espelho d’ água – o que aumenta a grandiosidade de sua aparência –, o chafariz neoclássico impressiona pela habilidade técnica e pelo refinamento do artista. Taças transbordam água e jatos trêmulos dançam ao ritmo do vento molhando as figuras de inspiração grega – as belas cariátides, os fortes atlantes, os alegres zéfiros, as carrancas dos tritões e as crianças que representam os continentes.

    Embora também tenha criado estátuas masculinas, entre elas um Cristóvão Colombo exibido no Museu da República, a mulher era a inspiração mais constante de Moreau. É o caso das alegorias da Aurora e do Crepúsculo, que iluminam a escadaria da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), na Avenida Pasteur, na Urca. E também a varanda do Museu da República. E o jardim do Tijuca Tênis Clube. O mesmo par de estátuas pode ser visto em Belém e no Recife.

    Eis a grande novidade da época: a possibilidade de se reproduzir indefinidamente e com perfeição as peças artísticas de ferro fundido. Por conta do know-how adquirido no processo de industrialização, alguns países europeus aperfeiçoaram suas técnicas de fundição no século XIX, conseguindo dar ao ferro um outro destino: empregado desde a Antiguidade apenas para finalidades utilitárias, o metal transformou-se em matéria-prima para a fundição artística.

    A técnica de reproduzir obras de arte em ferro fundido a partir da criação do escultor revolucionou o mercado. E Moreau participou diretamente desse processo. Além de criar mais de uma centena de obras, foi um dos administradores das Fonderies du Val d’Osne (Fundições do Val d’Osne), o principal centro de fundição artística da França. Dos fornos das Fonderies sairiam mais de 40 mil modelos. A matéria-prima mais barata que o bronze, aliada à produção em grande escala, permitia a comercialização a um custo acessível, tanto para os burgueses em ascensão social, ávidos por símbolos de prestígio, como para a decadente nobreza européia, preocupada em manter as aparências.

    No início, a chamada “arte em série” provocou polêmica. Seria realmente arte ou era apenas um produto industrial? Alguns escultores a menosprezavam e continuaram trabalhando com o bronze, criando obras únicas ou de edição numerada, limitada a poucas cópias. Mas não demorou para que artistas importantes da época aderissem à novidade. Além de Moreau, escultores como Jean-Jacques Pradier (também conhecido como James, 1790-1852), Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824-1887), Henri Alfred Jacquemart (1824-1896) e Pierre Louis Rouillard (1820-1881) chancelaram a técnica e permitiram essa forma de democratização da arte, antes restrita a uma pequena elite.

    A primeira “Exposição Universal”, realizada em Londres em 1851, e as que se seguiram apresentaram aos visitantes e compradores de todo o mundo as novidades mais representativas do progresso industrial. A fundição artística francesa atraía admiradores ao expor chafarizes monumentais e até mesmo ousar exibir estátuas sem retoques, para comprovar a qualidade excepcional das peças. Numerosas medalhas confirmaram a excelência da produção e estimularam a política de exportação.

    A estratégia de vendas era arrojada. Catálogos com desenhos dos modelos mostravam as dimensões das peças, seu nome e autoria. Nos países da América do Sul, que estavam em processo de urbanização, as peças francesas foram recebidas com entusiasmo. Assim como ocorria no Brasil, também Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai foram grandes importadores da arte em ferro fundido.

    O processo de fundição de uma estátua em tamanho natural era demorado. Exigia o envolvimento de uma dezena de especialistas e, em média, cem horas de trabalho. Algumas estátuas eram cópias de obras da Antiguidade greco-romana ou de escultores anteriores ao século XIX, como Guillaume Cousteau (1677-1746) e Pierre Lepautre (1660-1744), de estilo maneirista e barroco. Os moldes e os direitos de reprodução eram adquiridos de museus franceses, como o Louvre e Versailles, ou italianos, como os de Nápoles e Florença. As obras do século XIX eram de artistas acadêmicos, formados sob as exigências do neoclassicismo, excelentes em temas mitológicos, mas também sensíveis às influências românticas, exóticas, orientalistas, sensualistas, realistas e naturalistas.
     
    Moreau formou-se pela Escola de Belas Artes de Paris e vinha de uma família de artistas. Além das múltiplas e produtivas atividades em prol da arte em série, seu talento deixou marcas em prestigiosos trabalhos realizados em Paris, como na Ópera, no Palais du Trocadéro, no Hôtel de Ville, Tuileries e no Palais de Justice. Suas criações refletem uma variedade de estilos. Uma das influências de sua época, presente em obras adquiridas pelo Brasil, é o exotismo. O tema estava em voga devido à expansão colonial e às viagens marítimas comerciais. Nas cinco estátuas situadas no jardim do Museu da República, Moreau se aproxima levemente da arte animalista, ao conceber obras exóticas com cerca de um metro de altura, denominadas “África”, “América”, “Europa”, “Ásia” e “Oceania”. Cada continente é representado por uma criança com tipo físico característico daquela região. E elas estão em luta com animais nativos: crocodilo, cobra, lobo, tigre e canguru. O mesmo conjunto embeleza Maceió, mas lá está incompleto, desfalcado da Oceania.

    Já as alegorias de Moreau são repletas de mensagens cívicas e didáticas. Simbolizando o progresso, ele criou representações do Comércio e da Indústria, expostas no antigo prédio do Tribunal Regional Eleitoral, na Rua Primeiro de Março. Completam o conjunto as estátuas da Marinha e da Agricultura, no mesmo edifício. Exemplares da Indústria e da Agricultura também podem ser conhecidos em Florianópolis.

    O primeiro grande divulgador da arte industrial no Brasil foi o botânico e paisagista francês Auguste Glaziou (1833-1906), que a partir de 1860 reformou o Passeio Público, criou o Campo de Santana e a Quinta da Boa Vista. Ele costumava inserir exemplares de ferro fundido nos jardins que projetava, principalmente no Rio de Janeiro. O sucesso foi imediato, mas a indústria nacional não tinha como se engajar nesse tipo de produção. Isso porque, apesar da abundância da matéria-prima, as fundições foram inibidas durante muito tempo pela administração colonial. A produção brasileira de ferro destinava-se apenas a grades, portões, objetos utilitários diversos, vasos decorativos e pequenos chafarizes. Nossas oficinas não podiam competir com a invasão de peças de boa qualidade e baixo custo trazidas do Velho Continente, como as obras de Moreau. As esculturas do artista se espalharam pelo Brasil e encantaram a capital do país que pretendia ser a “Paris dos Trópicos”.

    E assim como o mundo se espelhava em Paris, o Brasil se espelhava na Corte. O resultado é que importantes obras artísticas e decorativas de ferro fundido são ainda hoje encontradas no estado do Rio de Janeiro e também em Amazonas, Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Elas eram adquiridas, geralmente, durante os períodos de apogeu dos ciclos econômicos regionais. Além de sua presença em logradouros públicos, nos jardins, na fachada e no interior de sedes de empresas e instituições, os palacetes e residências nobres também passaram a ostentar várias peças.

    As esculturas de Mathurin Moreau são testemunhos de uma época em que a arte do ferro espalhou-se pelo mundo, com sotaque francês. Não à toa, o principal símbolo da França é uma monumental obra feita inteiramente de ferro, construída em 1889. Porém, ao contrário dos exemplares de fundição artística, Torre Eiffel só tem uma.

    Eulalia Junqueira é jornalista e pesquisadora, autora dos livros Arte francesa do ferro no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Memória Brasil, 2005) e Fontes d’art; chafarizes e estátuas franceses do Rio de Janeiro (com Elisabeth Robert-Dehault e Antonio Bulhões. Paris: Les Éditions de l’Amateur/ ASPM/ FBM, 2000).

    Saiba Mais - Bibliografia:

    ABRANTES, Nicolau. História da fundição artística no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1979.

    BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann tropical: a renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes; Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural; Divisão de Editoração, 1992.

    MAGALHÃES CORRÊA, Armando. Terra carioca: fontes e chafarizes. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939.

    O fim do anonimato

    O Rio de Janeiro foi a primeira cidade da América do Sul a localizar, identificar e inventariar as obras de fundição artística de procedência francesa. Uma pesquisa realizada em 1993 tirou do anonimato estátuas, chafarizes, fontes, candelabros, portões, gradis, vasos e outros elementos ornamentais expostos nos espaços públicos cariocas. Foram inventariadas cerca de 200 peças, grande parte de autoria de Moreau. O projeto foi desenvolvido por meio de um intercâmbio de informações entre a Prefeitura da Cidade, através da Fundação de Parques e Jardins, e a Association pour la Sauvegarde et la Promotion du Patrimoine Métallurgique Haut-Marnais, uma associação francesa criada para a promoção e proteção do patrimônio metalúrgico de Haute-Marne, região que concentra diversas fundições. O levantamento restringiu-se a locais de acesso público. Se fossem consideradas as peças pertencentes a particulares, em poder de leiloeiros ou em lojas de antiguidade, além dos exemplares desaparecidos, o total de peças seria bem mais elevado. Por sua antiguidade, valor histórico e artístico, as peças localizadas no Rio de Janeiro foram tombadas pelo patrimônio municipal no ano 2000. Providência fundamental para preservar para o futuro estas obras de arte que já têm mais de um século de existência. Embora algumas estejam em bom estado, outras, relegadas e abandonadas, necessitam urgentemente de restauração.

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