Retratos para a posteridade

Imagens redescobertas da Coleção Princesa Isabel revelam um pouco mais de uma senhora quase reclusa

Pedro Corrêa do Lago

  • Ao contrário do pai, imperador do Brasil aos cinco anos de idade e desde então constantemente observado por seus súditos, sua filha mais velha conseguiu levar uma vida muito menos exposta e teve sua intimidade bastante preservada. Isto se reflete no pequeno número de representações e retratos da princesa que circularam, sempre cuidadosamente posados e escolhidos. A redescoberta recente da coleção de mais de 1.000 fotografias, formada pela própria Isabel e por seu marido, o conde d’Eu, e conservada por seus herdeiros na Europa, revela imagens íntimas e oficiais da princesa, feitas pelos maiores fotógrafos da época, mas praticamente desconhecidas até então. Surpreende a reduzida quantidade de imagens formais da herdeira do trono imperial. Até mesmo a fotografia oficial tirada por Marc Ferrez por ocasião de sua terceira regência havia permanecido inexplicavelmente inédita, e nenhum exemplar fora identificado antes da redescoberta da Coleção Princesa Isabel.

    O nascimento da princesa coincide com o início da divulgação da fotografia no Brasil e antecede em poucos anos a mania das fotos em formato carte de visite, ocorrida a partir dos anos 1860. Até a invenção da fotografia, era preciso recorrer a um desenhista ou pintor, e somente aos mais abastados ocorria o desejo de eternizar suas feições num retrato caro realizado por um artista profissional. Quando a fotografia sobre papel permitiu a realização, em grandes quantidades e a baixo custo, de pequenos retratos medindo cerca de nove por seis centímetros, tornou-se inicialmente costume, rapidamente moda, e logo febre, a prática de colecionar as imagens de parentes e amigos e oferecer em troca seu retrato a eles. Iniciada na Europa, a mania disseminou-se imediatamente no Brasil, onde se calcula que milhões desses retratos foram produzidos em poucos anos. Nesse período, o imperador autorizou que imagens feitas por profissionais agraciados com o título de fotógrafos da Casa Imperial fossem divulgadas e comercializadas fora do âmbito estrito da corte, o que permitiu aos súditos adquirir retratos fiéis e atuais do monarca e de sua família.

    Com a possível exceção de algumas imagens feitas por volta de 1861 por Insley Pacheco – talvez o fotógrafo que por mais tempo retratou a família imperial –, nenhuma foto da princesa Isabel circulou antes dos seus 15 anos e, ainda, sempre em companhia de seus pais. Isso não significa que a princesa não tivesse sido abundantemente retratada na intimidade do Palácio Imperial por grandes fotógrafos como Klumb, Frond ou o próprio Pacheco, mas estes realizaram seus trabalhos para o gozo exclusivo da família real.

    Das primeiras fotos privadas de Isabel restam apenas três ou quatro daguerreótipos. A imagem sobre papel mais antiga que a princesa parece ter conservado é a que Victor Frond fez quando ela ainda não completara 12 anos, e que serviria para a confecção do retrato em gravura inserido na obra clássica de Charles Ribeyrolles Brasil Pitoresco, publicada na França em 1860. Pouco depois, Klumb realizou uma série de imagens da princesa na intimidade, entre as quais um retrato aos 15 anos, de chapéu, debruçada em meio a um elaborado décor montado pelo artista no interior do palácio. Nessa ocasião, Klumb fez várias imagens da imperatriz e de suas filhas Isabel e Leopoldina em poses e vestidos variados, e foram também tiradas fotografias dos interiores do palácio imperial de São Cristóvão, mostrando os ambientes nos quais transcorreu a pacata e protegida infância da princesa.

    A grande oportunidade − e necessidade política − de divulgação da imagem deIsabel ocorreu por causa de seu noivado e casamento com Gastão de Orléans, o conde d’Eu, escolhido entre as cortes europeias para desposar a herdeira do trono do Brasil. Ainda que o casamento representasse um evento de grande significado e repercussão, apenas uma pequena série de imagens de Isabel e seu noivo foi feita para comercialização, e Pacheco e Stahl parecem ter tido a exclusividade destas. Na ocasião do noivado, Stahl produziu aquela que é talvez a imagem privada mais atraente da princesa, mas que permaneceu inédita no século XX, pois só se conhece o exemplar conservado pela própria Isabel. Essa belíssima foto-pintura foi colorida à mão sobre uma tiragem original de Stahl por seu sócio Wahnschaffe, pintor e colorista, que favorece e afina os traços da princesa.

    Após o casamento, as imagens da princesa postas à disposição do público voltam a escassear notavelmente, e uma política de divulgação de fotos oficiais não parece ter se firmado nos anos subsequentes, apesar da grande demanda dos súditos por representações da família imperial, que eram usadas para abrir os álbuns que os burgueses mantinham em suas casas para exibir suas fotos.

    Apenas uma série hoje conhecida de retratos tirados por Pacheco parece ter sido concebida com um intuito mais oficial e público. São imagens de Isabel com cerca de 25 anos, sozinha, vestida de gala, em companhia de seu marido segurando-lhe a mão e, a mais significativa, em pé ao lado do imperador, simbolizando a continuidade e a firmeza da sucessão do império. Isabel aparece de pé com olhar determinado, posando ao lado dos homens de sua vida.

    A partir desse momento, tudo ocorre como se ela quisesse que seus traços fossem esquecidos pelos súditos de seu pai. Não que se furtasse à câmera, apesar de uma foto famosa − que não era destinada ao público − mostrá-la por trás do rosto de seu sobrinho.  Esta imagem, que circulou abundantemente entre parentes e amigos, é devida a Henschel – que também realizara dois retratos semioficiais da princesa e de seu marido por ocasião do casamento. A imagem retoca claramente as costas da princesa para emagrecê-la e permanece − talvez justamente por esconder-lhe o rosto − como das mais instigantes e reveladoras do temperamento reservado da princesa imperial.

    Henschel foi o profissional chamado para a imagem oficial do nascimento do herdeiro da princesa, o príncipe D. Pedro de Alcântara, ocorrido 11 anos após o casamento. O tão esperado herdeiro foi mostrado numa única fotografia, amplamente comercializada, nos braços de sua mãe, e noutra no colo de seu pai, observado pela princesa. Em 1876, Isabel assume pela segunda vez a regência durante viagem de seu pai à Europa e aos Estados Unidos. Não se conhecem fotografias oficiais tiradas nesse período, e é preciso esperar a terceira regência de Isabel, em 1887, para que finalmente a princesa seja retratada com o traje e o manto da aclamação, já aos 41 anos. Esta imagem, feita pelo maior fotógrafo de seu tempo, Marc Ferrez, apesar de caracterizar-se claramente como “foto oficial”, permaneceu estranhamente inédita. Isabel aparece plenamente paramentada para a cerimônia, usando as ricas vestes bordadas do traje suntuoso de Princesa Imperial Regente. É surpreendente que, mesmo na coleção de fotografias batizada de Thereza Christina Maria, doada pelo imperador à Biblioteca Nacional, nenhum exemplar dessa foto parece ter sido localizado.

    Finalmente, dois anos mais tarde é feita a imagem da princesa abraçada ao imperador, e que permanece como a derradeira da família imperial entre nós. Tirada pelo jovem Otto Hees na pequena escada externa da residência da princesa em Petrópolis, simboliza o ocaso não apenas de uma dinastia, mas também de uma família que nos dois anos seguintes perderia o imperador e a imperatriz e sofreria a insanidade e a internação do príncipe D. Pedro Augusto, filho da princesa Leopoldina e do duque de Saxe.

    Pode-se incluir também, entre suas raras fotos de cunho oficial, a imagem da princesa Isabel em meio à missa que comemora a recente assinatura da Lei Áurea. Conhecida a partir de um exemplar conservado por outro membro da família imperial, esta foto não fazia parte do principal conjunto levado pela princesa Isabel para o exílio.

    Talvez a escassez de imagens da princesa Isabel possa ser explicada pela ausência de beleza, o que provavelmente lhe acentuava a timidez. Ou por um desejo do marido de limitar sua exposição. Entretanto, após o exílio, os condes d’Eu não se furtaram a distribuir inúmeras imagens assinadas na maturidade e na velhice, hoje muito mais abundantes que as do tempo do Império. Mesmo a gravura, principal meio de divulgação dos rostos dos monarcas − até o momento em que a técnica permitiu a publicação direta de imagens fotográficas −, parece ter praticamente ignorado a princesa Isabel.

    É possível que a excessiva discrição da princesa e o desconhecimento quase completo da população a seu respeito tenham contribuído para que Isabel fosse percebida como uma herdeira pouco convincente e dominada por seu marido. O verdadeiro milagre em seu destino acabou ocorrendo quando o tempo do Império já se esgotava. Com a assinatura da Lei Áurea, tornada agora “Redentora”, a princesa viu sua imagem reproduzida como nunca acontecera antes, e para sempre associada a um gesto tido como generoso, que nada teve de individual. Redentora acabou sendo a Lei Áurea para aquela que a assinou.

     

    Pedro Corrêa do Lagoé coautor de Coleção Princesa Isabel. Fotografia do século XIX (Capivara, 2008).

     

    Saiba Mais - Bibliografia

    ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional; Centro Cultural Banco do Brasil, 1997.

    FERNANDES JÚNIOR, Rubens (org). De volta à luz: fotografias nunca vistas do Imperador. São Paulo: Banco Santos; Fundação Biblioteca Nacional, 2003.

    KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

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