Os casamentos reais sempre repercutem nos noticiários, atentos a cada detalhe das cerimônias. Estão aí as núpcias dos britânicos príncipe William e Kate Middleton para confirmar esse fato. Mas as comemorações já foram ainda maiores que as de hoje, com até cinco dias de festas. Luísa Margarida de Barros Portugal, a condessa de Barral, depositou na Biblioteca Nacional um conjunto de “mimos” feitos exclusivamente para o casamento do príncipe de Portugal, em maio de 1886, que mostram bem o espírito de uma celebração real. Lá estão convites, o cardápio do jantar e a programação dos festejos do casamento de um casal famoso: o príncipe D. Carlos com Maria Amélia de Orleans. Ela era bisneta do último rei da França, Luís Felipe I, e ele, ninguém menos que o duque de Bragança, herdeiro do trono português.
A condessa nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1816. Filha do visconde da Pedra Branca, figura de grande projeção política, já vivia entre a França e o Brasil quando se casou com o conde de Barral, adquirindo assim o título de nobreza. Alguns anos mais tarde, tornou-se preceptora das princesas D. Isabel e D. Leopoldina. Entretanto, ficou mais conhecida pela fama – jamais confirmada – de ter sido amante e a verdadeira paixão do imperador D. Pedro II.
Para fazer jus à nobreza dos noivos, a produção dos festejos esbanjou requinte, planejamento detalhado e protocolos bem definidos. Um cartão com a programação, manuscrito em francês, trouxe as “festas oficiais” e, no verso, as “festas oferecidas a suas altezas”.
Tudo começou às 13h do dia 22 de maio na Igreja de São Domingos, em Lisboa, onde ocorreu a cerimônia de casamento. Para as 14h do dia seguinte, estava prevista uma recepção de gala para Suas Altezas Reais os duques de Bragança, no palácio em Belém. Não é exatamente horário para uma balada, isso porque, à noite, haveria ainda uma representação de gala no Teatro São Carlos.
No terceiro dia de comemorações (dia 24), um grande jantar seria oferecido a Suas Majestades, no Palácio Real d’Ajuda, às 20h. Um convite nominal, bastante específico, foi enviado pelo “Marquez Mordomo Mór” para “prevenir” a convidada sobre o evento com antecedência de seis dias. Além de uma breve informação sobre o traje (farda ou casaca), o cartão padronizado, com lacunas para serem preenchidas com o nome do convidado, evento, dia e hora, deveria ser apresentado ao porteiro. Nada de penetras! Ao chegar, a condessa já saberia onde se sentar, pois um cartão anexado trazia o mapa de assentos da boca-livre para 100 pessoas com a indicação da posição em que se sentariam o rei e a convidada. A condessa, pelo visto, estava bem na fita: ficaria distante apenas quatro lugares do rei Luís I.
O menu do jantar, impresso em francês, impressiona pela sucessão de pratos: são opções de sopas, aperitivos, relevés (uma etapa com pratos de carne, anterior à entrada), entradas, assado e sobremesas de legumes e doces. Sem falar na variedade de animais servidos: javali, veado, porco (presunto), frango, peru, pombo e galinha d'angola. A condessa, aliás, fez sua doação à coleção de menus “do Dr. Brum”, então chefe da Divisão de Estampas, hoje Iconografia, da Biblioteca Nacional, como consta na pequena nota manuscrita pela própria condessa que acompanhou os documentos quando foram entregues à Biblioteca.
Desafiando o condicionamento físico dos convidados, a maratona ainda continuava: no dia 25, a guarnição de Lisboa seria passada em revista e, à noite, luzes e fogos de artifício sobre o Tejo deveriam ser vistos do Palácio de Belas Artes. No dia seguinte, o Baile da Corte, no Palácio d’Ajuda, encerraria as comemorações em grande estilo. Para o baile, claro, outro convite individual enviado pela Mordomia Mór à condessa. Finalmente, descanso para os nobres... Talvez não para os noivos, que, como manda a tradição, no meio disso tudo deveriam consumar o casamento – sabe-se lá com que energia – e tratar de encomendar um herdeiro para perpetuar o sangue azul.
Era chegada, então, a hora do povo! Começando no dia 26 e estendendo-se por outros quatro dias, as festas mais, digamos, plebeias, incluíam corridas de cavalos e touradas, além de uma quermesse de estudantes de Medicina. Os príncipes se casavam, a realeza comemorava, mas os súditos também mereciam se divertir.















































































