O idioma nosso de cada dia

A Biblioteca Nacional guarda o único exemplar da cartilha de João de Barros tida como o primeiro livro didático ilustrado da história

Revista de História

  • Mês de festa e Carnaval para a maioria dos brasileiros, fevereiro também marca o retorno às aulas de estudantes de todo o país – momento então de gastar uma pequena fortuna em livros didáticos, cada vez mais ilustrados e coloridos. Poucos sabem, mas a Biblioteca Nacional tem em seu acervo o único exemplar conhecido daquele que é tido como o primeiro livro didático ilustrado da história: a cartilha introdutória da Gramática da língua portuguesa com os mandamentos da Santa Madre Igreja, de autoria do humanista João de Barros (1496-1570). À época de sua publicação, a obra teria função na educação dos filhos da aristocracia, que não apenas aprenderiam a ler e escrever, mas estudariam também os preceitos básicos do catolicismo, como os sete sacramentos da Igreja, os dez mandamentos e suas principais orações – pai-nosso, ave-maria, credo e salve-rainha –, reunidos na gramática.

    Publicado em 1539, trata-se do texto inicial da segunda gramática da língua portuguesa, sendo a única anterior feita por Fernão de Oliveira (1507-81), impressa em 1536, sem nenhuma ilustração. Obra típica do Renascimento, a gramática evidencia o esforço de valorização da língua vernácula (aquela falada no dia-a-dia pela população), atribuindo-lhe uma formalização normativa que a elevasse à riqueza das línguas clássicas: o grego e o latim. A edição rica em ornamentos, com página de rosto gravada em madeira com caracteres góticos e capitulares ornamentadas, apresentou pela primeira vez um capítulo dedicado aos pronomes, com um estudo longo e detalhado dividindo o tema nos seguintes subtítulos: "Do pronome e seus aspectos", "Da espécie", "Da figura", "Do gênero pessoal e número" e "Dos casos da primeira declinação". Para Barros, pronome é "uma parte da oração que se põe em lugar do próprio nome, e por isso dissemos que era conjunta a ele por matrimônio e daqui tomou o nome”. Nas gramáticas renascentistas, os capítulos dedicados aos pronomes eram os mais confusos e arbitrários, pois cada autor assumia uma posição diferente, tentando emplacar suas próprias definições. No entanto, as soluções encontradas por João de Barros se tornaram referência para os gramáticos do idioma português a partir de então.

  • O humanista também inovou ao assumir a influência árabe na ortografia e pronúncia de diversas palavras e fonemas, como o ç, o ch e o x, que “Nos parece que (h)ouvemos estas letras dos mouriscos que vencemos”. “Temos esta letra ç que parece ser inventada para pronunciação hebraica ou mourisca”.

    A gramática ainda conta com uma série de imagens. A inicial de cada figura xilogravada corresponde a uma letra do alfabeto. Ao todo, Barros reuniu 31 letras e símbolos, como o til (~).

    No longo caminho percorrido desde as gramáticas latinas medievais até a definitiva consagração da língua portuguesa – ou a gramática tida “vulgar” –, estudiosos como João de Barros lançaram as bases modernas do nosso idioma. (POR NELSON CANTARINO)

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