Anotações sobre a primeira vítima das guerras

Pesquisadora reúne correspondentes de guerra do Brasil e do exterior para analisar a influência das coberturas no desenrolar dos conflitos

Felipe Sáles

  • Enterro coletivo na Palestina, em 2002. Foto: Fernando EvangelistaSe, como dizem, “numa guerra a primeira baixa é a verdade”, como ficam os jornalistas presentes no front de batalha? Analisar o sangue que escorre pelas entrelinhas é a proposta da jornalista e pesquisadora Vanessa Pedro. A partir do seu pós-doutorado na USP, Vanessa vem fazendo uma série de entrevistas com grandes nomes do jornalismo nacional e internacional, que serão revertidas num documentário e no site GuerraDoc, onde a pesquisa já pode ser acompanhada passo-a-passo.

    O trabalho investiga a forma como os meios de comunicação produzem interpretações sobre os conflitos armados, e qual a importância e a repercussão das narrativas sobre a guerra na sociedade – onde, muitas vezes, o resultado físico dos conflitos depende do combate de versões.

    “O que se fala sobre uma guerra é tão importante quanto a guerra em si. É fundamental para os desdobramentos reais, físicos de um conflito”, conclui Vanessa.

    ‘Ninguém sai impune’

    Entre os entrevistados estão José Hamilton Ribeiro, que perdeu uma das pernas durante a cobertura da Guerra do Vietnã, em 1968, e Fernando Evangelista, que cobriu desde ações militares de Israel em territórios palestinos até manifestações anti-globalização na Itália. Também já foram entrevistados Luiz Antônio Araújo e Rodrigo Lopes, responsáveis, respectivamente, por reportagens no Afeganistão e na Líbia. Os dois são da RBS, uma empresa de comunicação regional que preferiu enviar seus próprios repórteres em vez de se ater às agências internacionais.

    “De modo geral, os jornalistas consideram que, inevitavelmente, a guerra modifica as pessoas. Nas palavras de José Hamilton, ‘ninguém sai impune de uma guerra’”.

     

     

    Os próximos da agenda são Carlos Fino, que cobriu a Guerra do Iraque pela RTP portuguesa e foi o primeiro jornalista a transmitir o início dos combates, furando, inclusive, a CNN e a BBC; além de Ari Peixoto, Francisco José e Marcelo Spina, que cobriram, respectivamente, o Oriente Médio, a Guerra das Malvinas e os conflitos da Bósnia e da Somália, e Esteban Uyarra, espanhol que vive no México responsável pelo documentário “War feels like War” (veja um trecho abaixo). O filme acompanhou o trabalho de milhares de jornalistas que cobriram a Guerra do Iraque a partir do Kuwait, país vizinho. Esteban mostra os repórteres enlouquecidos com o marasmo do local, enquanto um grupo “à paisana” decide se embrenhar na guerra.

     

     

    A influência das novas formas de comunicação

    O estudo desses desdobramentos ganha características inéditas num momento em que a informação nunca esteve tão veloz, além de disseminada nas mãos de cidadãos diversos – como mostrou a “Primavera Árabe”. Para Vanessa, a velocidade tem sido decisiva para as coberturas a partir da forte influência da internet nos demais meios de comunicação. Como resultado da pressa, o risco é assumir a divulgação apenas das fontes oficiais e de agências notícias, em detrimento do olhar do repórter.

    “A pressa não pode se confundir com velocidade. O que é divulgado pelas agências de notícias e pelos governos é o que imediatamente está em todos os veículos do mundo, produzindo uma certa pasteurização da cobertura. E as agências que cobrem guerra não são muitas. Enviar um correspondente à guerra é, principalmente, caro. Mas é o que pode garantir algum potencial de transformação do relato – e também o que pode ser o diferencial do veículo. A presença do repórter  possibilita a apreensão e interpretação da realidade da guerra – uma apreensão tensa, cheia de dificuldades e impossibilidades, mas mais próxima de chegar às narrativas que presenciam a Fernando Evangelista, entrevistado por Vanessa Pedro, tem larga experiência em cobertura de conflitos da último décadaguerra, que é a das vítimas”.

    Por outro lado, Vanessa lembra que a tecnologia proporcionou o fenômeno de múltiplas vozes contando os horrores da guerra.

    “É real esse poder porque os flagrantes, sejam em vídeos feitos com telefone celular, em relatos de moradores ou mesmo de militares, são reportados diretamente por aqueles que estão envolvidos no conflito. Claro que a imprensa é referência na cobertura, e que sua influência e visibilidade continuam maiores. Mas o fenômeno como um todo é impactante. Tanto que a própria mídia também se modifica: os jornais passaram a ter blog, inclusive durante as coberturas de guerra, para que os repórteres expressem outras experiências e visões. Então, a tecnologia provocou e construiu formas de narrar a guerra que podemos criticar ou destacar como fundamentais”.

     

    O mal da tecnologia

    Há também um outro lado das tecnologias: na cobertura da Guerra do Iraque – que muitos jornalistas fizeram a partir do Kuwait, país vizinho –, um aparelho móvel de videofone transformou a transmissão, fazendo parecer que tudo estava prestes a acontecer enquanto, na verdade, as mortes ocorriam a quilômetros de distância.

    “José Hamilton Ribeiro fez uma análise muito boa comparando as guerras do Vietnã e do Iraque em relação ao acesso dos jornalistas. Ele diz que a diferença do jornalista embutido é que, no Vietnã, ele acompanhava os militares, mas chegava onde queria e dizia o que queria. Já na Guerra do Iraque, o aparato de comunicação em torno dos jornalistas era muito maior, impedindo o seu acesso e controlando a informação que ele obteria. Neste último século, o jornalismo se tornou a narrativa de guerra por excelência, mas ironicamente, foi se afastando das narrativas guerra. Foi contando menos histórias, se aproximando menos das vítimas e mais das estatísticas, das declarações oficiais dos governos e dos exércitos”.

    Documentário interativo

    O projeto teve início em março do ano passado. Enquanto escreve os artigos e apresenta os trabalhos em congressos, Vanessa busca equipamentos e os primeiros entrevistados. As gravações começaram em agosto, em Florianópolis. Outras entrevistas acontecerão em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e também na Europa. O filme deve estar pronto no ano que vem, juntamente com o projeto final de pós-doutorado viabilizado a partir de uma bolsa da Fapesp.

    “Acho que é uma ousadia querer fazer um documentário deste porte, que busca entrevistados em diferentes partes, a partir de um projeto de pesquisa e ainda propor que ele seja visto e debatido ao longo do processo. Estou aberta para que essa ‘leitura antecipada’ interfira de fato no trabalho, gere interação, debate, discussão. A intenção é que o material cheque às pessoas com mais complexidade e tempo do que os 80 minutos que o documentário deve ter no formato final”.

     

    Imagem de capa: Conflitos em Gênova, na Itália, em 2001. Foto de Fernando Evangelista

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