Cartografias culturais

Iniciativas do governo criam plataformas online para compartilhamento de informações culturais e históricas. Saiba mais como funcionam

Déborah Araujo

  • Um dos mais famosos mapeamentos das terras que seriam chamadas de Brasil coube ao cartógrafo francês Jean-Baptiste d’Anville, no início do século XVIII. O processo de traçar as linhas imaginárias nestas terras para fins geopolíticos, em grande parte desconhecidas, levou três décadas de produção e deram contornos muito próximos ao país na atualidade. Mais de 300 anos depois, ao alcance de um clique, qualquer usuário de internet pode contribuir com informações em um mapa sobre, praticamente, qualquer assunto. Exemplos disso são as cartografias culturais desenvolvidas por instituições governamentais, como o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (Sniic), o Mapa Digital da Cultura RS e o SP Cultura.

    Os dados são inseridos na página a partir da colaboração de usuários cadastrados. O Sniic, criado no âmbito do Plano Nacional de Cultural, sancionado pela Lei Nº 12.343/2010, tem como proposta ser “uma plataforma de governança colaborativa, onde as informações são fornecidas pela sociedade, nas perspectivas de criar uma rede social da cultura”, explica Américo Córdula, diretor de Estudos e Monitoramento de Políticas Culturais do Ministério da Cultura (MinC). “Utilizamos também os conceitos e ferramentas que hoje fazem parte do dia a dia, tais como geolocalização e gerenciamento de reputação.”

    Atualmente, o Sniic contém mais de 50 mil informações entre objetos e agentes culturais de diferentes localidades do país. “A prefeitura de Palmas no Tocantins e Campo Grande no Mato Grosso do Sul, por exemplo, articularam seus editais obrigando o produtor cultural a se cadastrar no Sniic”, acrescenta Córdula. As informações do sistema também estarão disponível no serviço para telefones móveis Nuvem da Cultura, a partir da Copa do Mundo em junho, com informações culturais sobre as 12 cidades sedes do evento. O MinC pretende, futuramente, ampliar o aplicativo para outras cidades e com informações de onde pode ser utilizado o Vale Cultura – benefício que visa possibilitar maior acesso do público ao teatro, cinema, museus, shows, circo, ou mesmo na compra de CDs, DVDs, livros, revistas e jornais.

    Por sua vez, há o Mapa Digital da Cultura RS, cartografia gaúcha lançada em junho de 2013, com mais de 1.100 pontos culturais e históricos de todo o estado cadastrados. O diretor do Sistemas Estadual de Museus, Joel Santana, destaca a importância do Mapa para a preservação da memória e da história do estado, uma que permite divulgar e diagnosticar as diferentes especificidades dos museus, como a localização, a forma de ingresso, horários. Dessa forma, fortalece os “dados de indicadores culturais para a formação da política pública, intercâmbio de pesquisas entre instituições, de dar oportunidade a evidências de determinados acervos específicos das localidades”, exemplifica Santana.

    Outra plataforma com previsão de lançamento para abril é o SP Cultura, uma parceria da Prefeitura de São Paulo com o Instituto TIM. O diferencial deste projeto é o software, que permite marcar no mapa não apenas os espaços culturais e históricos, mas também agentes e eventos culturais. “Além disso, permite também a criação de projetos, como editais, concursos, mostras, festivais, que agregam um conjunto de eventos em uma agenda única”, acrescenta Leonardo Germani, um dos desenvolvedores do SP Cultura.

    Para o historiador Ricardo Pimenta, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), “o fato de ser software livre torna seu uso mais factível e possibilita que órgãos públicos e privados, associações, grupos e indivíduos desenvolvam suas ideias de forma a contribuir para o acesso à informação que podem contribuir, por exemplo, para o conhecimento histórico”. No entanto, “o sucesso dessas iniciativas é imperativo que a manutenção seja constante”, alerta o pesquisador.

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