Descobertas e redescobertas no Cais

Contrariando o que vem sendo veiculado, arqueóloga diz que cais do Valongo estava sendo procurando, quando reencontrado. Historiador também acaba com versão: local não era porta de entrada de negros

Ronaldo Pelli

  • Nada de acaso. O cais do Valongo estava sendo buscado quando foi reencontrado, nas escavações para as obras de revitalização da Zona Portuária no Rio. Quem explica é a arqueóloga do Museu Nacional / UFRJ Tania Andrade Lima, que coordena a equipe de pesquisadores da área.

    “A imprensa vem noticiando meio equivocadamente que teria sido um achado fortuito. Não foi”, contou ela, por telefone, no meio do barulho do maquinário de escavação diretamente das obras do projeto que foi apelidado de Porto Maravilha. Por conta da legislação atual, ela conta, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) exige que em qualquer interferência no subsolo haja a monitoração da área. “Entendemos que existia um sítio arqueológico, o cais da Imperatriz, porque há um pilar naquela área. Mas o nosso maior interesse não era o cais da Imperatriz, mas o do Valongo, que foi vítima de apagamento deliberado, como se fosse uma chaga vergonhosa do Rio de Janeiro”, falou a arqueóloga lembrando de como um cais foi construído sobre o outro.

    De acordo com a arqueóloga, o cais do Valongo vai da atual Rua Coelho e Castro até a Sacadura Cabral, que totaliza em torno de 350 metros de comprimento. “Havia uma circunstância de amnésia social, e a arqueologia é contra essa prática. Entramos com um pedido para resgatar o Valongo há uns sete, oito meses, e o Iphan aprovou”, contou a arqueóloga, que chama o cais de “patrimônio dos afrodescendentes” e pede para não usar a expressão “descoberta”. “Quando as frentes da Prefeitura chegaram, foram encontradas as pedras do cais da Imperatriz. E percebemos que tinha um aterramento. Uns 60 centímetros abaixo, encontramos o cais do Valongo.”

    Outro dado controverso que é propagado afirma que os africanos trazidos para o Brasil para serem escravizados teriam desembarcado no Rio no cais do Valongo. O professor, arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti desconfia dessa informação.

    “Até 1817 não havia cais público e de pedra na região do Valongo, era proibido pelas autoridades, para evitar contrabando durante período de difícil controle”, argumenta ele. “Portanto, não ‘desembarcaram no cais do Valongo, milhares de escravos novos’, como afirmam a mídia, as autoridades atuais, os técnicos, historiadores etc.”

    Cavalcanti diz que esse sítio arqueológico tem importância histórica, urbanística, econômica e cultural para a cidade do Rio de Janeiro e a história de sua sociedade, mas descarta qualquer comparação com as ruínas romanas, dizendo que esse raciocínio propagado é típico “de quem tem espírito de colonizado”, “de quem só ver o estrangeiro como modelo”.

     “Os escravos desembarcavam na Alfândega, posto em frente à atual Rua da Alfândega (por isso o nome desse logradouro)”, escreve ele por e-mail. “Depois de registrados e pagos os impostos devidos, os traficantes levavam-nos em embarcações pequenas para a região do Valongo. Os escravos desciam no mar e se deslocavam para a terra, em uma operação cuidadosa, feita durante o dia e sob fiscalização das autoridades alfandegárias.”

    Não há informações muito claras sobre construção do Cais. Cavalcanti explica que alguns cronistas afirmam ser Paulo Fernandes Viana, então chefe da polícia, o responsável pela obra, mas não há data nem fonte ou documento que comprove isso, diz ele.

    “Paulo Fernandes Viana faleceu em 1821, portanto só poderia ocorrer a obra de cais entre 1817 e 1821. Período em que D. João VI já havia assinado o Tratado de Comércio com o rei da Inglaterra (1815) e referendado (1817) com a cláusula de terminar o tráfico negreiro para o Brasil”, conta ele, que contabiliza em cerca de 680 mil escravos ingressos no porto do Rio de Janeiro entre 1700 e 1799. “É muito estranho, que seja construído cais para desembarque de escravos, tendo o nosso rei se comprometido a extinguir o tráfico!”

    Se não há uma certeza sobre como foi erguido o cais do Valongo, a sua importância histórica e sua função na época são mais fáceis de serem mapeadas. A professora Marieta Pinheiro de Carvalho, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), diz que por toda a existência do caís, de por volta 1750 até 1831, quando foi extinto, teriam passado cerca de 40 mil africanos por essa região.

    “Desde meados do século XVIII, quando o então vice-rei marquês do Lavradio ordenou a construção de um depósito no local, é que se comercializavam os escravos trazidos dos portos africanos. Nesse momento, a cidade era o principal espaço comercializador e distribuidor de escravos para boa parte do Brasil, sobretudo para a região centro/sul.”

    A reforma do cais do Valongo, com projeto do arquiteto Grandjean de Montigny, demonstra que o hábito nacional de esconder os problemas da sociedade em vez de resolvê-los é antigo. Em 1843, já tendo apagado qualquer referência ao vergonhoso passado de escravidão da região – principalmente pela prática ser ainda bastante atual no Rio do século XIX –, o cais receberia a futura imperatriz Tereza Cristina, que veio se casar com d. Pedro II. O cais, então, muda de nome e começa a se chamar da Imperatriz. O mesmo acontece com a Rua Valongo, que se torna Rua da Imperatriz. Finalmente, porém, o passado vem literalmente à tona.

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