Laboratório multimídia

Oficina no fHist ensina como canções e recursos audiovisuais ajudam o ensino de História e atraem jovens aos museus

Felipe Sáles

  •  Em tempos de excesso de informação e estímulos audiovisuais cada vez mais velozes, atrair jovens a museus e a documentos históricos tornou-se uma arte multimídia. Este foi o desafio exposto ao público na oficina “Narrativas históricas e as linguagens audiovisuais”, que aconteceu neste sábado (dia 8) no Festival de História (fHist) em Diamantina, realizado pela RHBN.

    A missão coube a Gringo Cardia, designer e curador de diversos museus, desde em Genebra, na Suíca, até no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Seu trabalho é, basicamente, “modernizar a imagem ao mundo contemporâneo”: com a ajuda de cenógrafos, animadores, artistas e, claro, historiadores, Gringo dirige filmes de menos de 10 minutos para traduzir ao público jovem, na linguagem atual, documentos e fatos históricos do país e do mundo.

    “As crianças de hoje estão acostumadas a um outro ritmo, e nosso objetivo é ajustar o ensino de determinado momento histórico. Num museu, os jovens geralmente não têm paciência de ficar lendo cada explicação, mas quando vê uma animação, uma boneco se mexendo, sua curiosidade é atiçada”, explica Gringo.

    Para isso vale, inclusive, colocar como narradores vozes conhecidas do público, como o apresentador do programa "Fantástico" da TV Globo, Zeca Camargo, a cantora Ana Carolina e o cantor Rogério Flausino. Dessa forma, os jovens foram apresentados, por exemplo, a uma introdução geral de todos os caminhos do Império que passavam por Minas Gerais. Ao todo, já foram feitos cerca de 150 vídeos desse tipo em vários museus mundo afora.

     

    Resistência diamantina na ditadura

    A oficina é tocado pelo Projeto República, composto por alunos e professores de História da Universidade Federal de Minas Gerais, e inclui também o ensino por meio da música. É o caso da historiadora Clarissa Fazito, que no domingo fala sobre o Beco do Mota, em Diamantina – um reduto boêmio da cidade que calhou de ficar, justamente, em frente à Igreja da Matriz e do arcebispo Dom Sigaud.

    O religioso não quis conversa e, com o apoio dos militares recém-instalados no poder, fechou o beco e expulsou as prostitutas que também já circulavam no local. Mas o célebre Clube da Esquina, composto por figuras como Milton Nascimento e Fernando Brandt, achou o fechamento abusivo e levou o beco para o mundo, com uma canção em homenagem que dizia que “Diamantina é o Beco do Mota, Minas é o Beco do Mota, Brasil é o Beco do Mota”.

    “Foi a forma como os artistas encontraram para dizer que aquela violência que aconteceu em Diamantina estava imperando em todo o Brasil. Então na oficina vamos falar de como a música também retrata fatos da nossa história e do nosso povo. Só o Clube da Esquina, por exemplo, tem outras duas músicas que contam partes da história de Diamantina e dos tempos de ditadura, que são ‘Paixão e fé’ e ‘Sentinela’”, conta Clarissa.

    Oficinas multidisciplinares

    Além da Tenda dos Historiadores, do lançamento de livros e da programação cultural, os participantes se dividem também em diversas oficinas. Só neste sábado foram 13, devidamente selecionadas com o cuidado de abranger múltiplas disciplinas. Há, por exemplo, desde “Manuscritos iluminados – História, materialidade e preservação”, com Márcia Almada, até “O teatro das desordens: contrabando e violência na ocupação do sertão diamantino – 1768-1800”, com Ivana Parrela, ou “Capoeira patrimônio cultural: uma proposta multidisciplinar”, com Alanson Moreira Teixeira Gonçalves.

    Não bastasse isso, o espaço onde as oficinas são realizadas é uma aula à parte. A Casa da Glória, onde funciona o Centro de Geologia da Universidade Federal de Minas Gerais, é um dos principais pontos turísticos de Diamantina. Trata-se de dois casarões ligados por um passadiço suspenso sobre a rua. O espaço chegou a servir de residência de intendentes e, posteriormente, foi a casa oficial dos bispos de Diamantina. Com a transformação do local em residência de freiras da Ordem de São Vicente de Paulo, as religiosas compraram uma casa do outro lado da rua que serviu de orfanato e, para facilitar, construíram uma passarela sobre a via.

     

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