Lendas do Imperador

Ex-sede da família real, São Cristóvão ainda reúne lendas e mitos sobre D. Pedro I e suas mulheres: de túnel secreto a fantasmas da realeza

Alice Melo

  • D. Pedro I. / FBNSob o luar, um homem de capa preta atravessa a galopes um túnel secreto que desemboca direto nos fundos da residência de sua amante. Ele despe o traje e entra na surdina nos aposentos da dama. O lampião aceso na cabeceira ilumina a face do visitante: não seria ele o Imperador? Bem que podia. A cena até se adequa às fantasias criadas ao longo dos anos em torno do casal de amantes mais célebre do Império: Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos, e o Imperador Dom Pedro I (tema da edição deste mês da RHBN, que está nas bancas). Mas já peca no detalhe principal: o túnel secreto. A passagem, que ligaria o antigo palácio do proclamador da Independência ao solar de sua amada, em São Cristóvão, bairro do Rio de Janeiro, é um dos muitos mitos reunidos em torno desta figura real, que até hoje correm na boca do povo.

    “Isso não é história, não. Todo mundo sabe. Tem um túnel que passa aqui embaixo que vai do museu até a casa da marquesa. É o túnel que D. Pedro usava para fugir pra casa da amante à noite. Deu até no jornal”, conta dona Marilena Bacelar, aposentada e moradora de São Cristóvão desde que nasceu. Pelas praças da região, todos com mais de sessenta anos conhecem o túnel. Já ouviram falar, leram em algum lugar ou se lembram de alguém que o tenha visto um dia. “É o que dizem, né. D. Pedro foi muito esperto”, opina Seu Iran, que há 71 anos veio ao mundo na maternidade Fernando Magalhães, “uma casa velha que tinha ali perto da feira internacional” e, desde então, habita o bairro.

    “As pessoas vem ao museu para ver o túnel. E, depois, para ver o quarto dos dois onde tudo acontecia”, conta um funcionário do Museu do Primeiro Reinado – casa em que costumava morar a Marquesa enquanto ainda era amante de Pedro I (de 1823 a 1829). Para explicar melhor, o solar ficava a poucos metros do palácio – foi construído no terreno da Quinta da Boa Vista, por um arquiteto exclusivo do Imperador, em meados da década de 1820. Domitila morou na residência até 1829, quando foi forçada a se mudar para São Paulo, por ocasião da viuvez de seu amante e também da fama que seu caso com Pedro ganhara nos quatro cantos do Império. Com ele, Domitila teve cinco filhos bastardos (ver RH64) e muitas, muitas lendas que só aumentaram ao longo dos anos.

     

    Do tamanho de uma carruagem

    Solar da Marquesa de Santos, hoje Museu do Primeiro ReinadoO fato é que a existência do tal túnel começou a ser cogitada na década de 1970, quando, após uma restauração na casa da Marquesa, descobriu-se um alçapão que dava acesso a um espaço por onde podia passar tranquilamente uma carruagem. Como a região da Quinta é uma área pantanosa, as escavações que desvendariam a lenda seriam demasiadamente perigosas. O alçapão foi fechado, mas sua descoberta abriu as portas da especulação. Como explicar o fato do caminho subterrâneo ser em direção ao palácio? E, também, como explicar o caso do Museu Nacional possuir, numa de suas laterais, o que fora provavelmente uma saída subterrânea, encoberta pelo tempo? Muitas dúvidas e poucas respostas.

    “O problema é que poucos pesquisadores se debruçam sobre Pedro I”, revela a historiadora Regina Dantas, do Museu Nacional. “Esse túnel não existe. O que acontece é que as cozinhas eram em anexos por causa da questão de segurança, porque podia pegar fogo. Eram caminhos subterrâneos. Tanto no Paço quanto no solar há acessos subterrâneo para a cozinha, mas o boato se alastrou e acredita-se que tem um túnel ligando um ao outro, mas é uma lenda”, conclui.

    A imaginação do povo e a pouca quantidade de pesquisa contribuem para o aumento dos mitos. No próprio Museu do Primeiro Reinado, por exemplo, havia antes das obras de restauração (ainda em andamento) uma sala que simulava em 3D o famoso túnel. Era uma espécie de jogo de espelhos por onde o visitante poderia “ver” o caminho obscuro que levaria à casa do Imperador - mas alertando, claro, para a possibilidade daquilo não ser verdade...

     

    Fantasmas imperiais

    Imperatriz LeopoldinaNão é só o túnel que guarda histórias da realeza. Até hoje fantasmas do Império assombram visitantes e funcionários do antigo palácio. Um dos mais famosos é o da primeira esposa de Pedro I, a Imperatriz Leopoldina. Antes mesmo de virar assombração, Leopoldina já tinha arrepiado muitos cabelos nos idos do Oitocentos por conta de sua morte misteriosa em idade jovem. A tragédia teria ocorrido devido a uma queda logo após uma briga com o marido, onde teria sido humilhada diante da rival, Domitila. O episódio da morte é um mistério, mas muitos pesquisadores acreditam que a mulher – que estava grávida – teria sido agredida fisicamente por Pedro I e, logo depois, rolado as escadas do Paço Imperial. Seu fantasma ainda vaga pelos corredores do Museu Nacional e inclusive ajudou em novas descobertas acadêmicas.

    Pelo menos é o que conta Regina Dantas, que viu Leopoldina com os próprios olhos, em 1998: “As pessoas têm medo de andar pelo palácio. Mas naquele dia, fui ao banheiro sozinha e, no trajeto de volta, vi um vulto que parava e ficava olhando para trás. Com um vestido branco. Aí eu acelerei, podia ser uma pessoa. Quando virei uma curvinha para continuar seguindo a mulher, ela desapareceu no corredor comprido. Corri de volta para a minha sala e percebi: eu vi a Leopoldina”. Na ocasião, Regina fazia uma pesquisa com cinco estagiários sobre um suposto museu dentro da casa de Pedro II, buscando de que maneira teria surgido a mania de coleções do segundo imperador. Após ver a Imperatriz pelos corredores do museu, uma ideia se acendeu em sua cabeça como uma lâmpada: “Comecei a investigar a mãe e percebi que a mania de colecionismo do Pedro II vinha mesmo dela”.

    Os eventos bizarros que ocorrem no museu não param por aí. Certa vez, um historiador tirava fotos pelos corredores do palácio para saber mais sobre as fantasmagóricas aparições. E eis que, aos pés da escada onde Leopoldina teria rolado, fotografou uma coisa estranha: uma fumaça. Seria novamente o vulto da Imperatriz? Muitos acreditam que sim.

    O vigia do Horto, na Quinta da Boa Vista, é um deles. Seu Eurico ouvia todas as noites um barulho de máquina de escrever quando fazia sua ronda, nos tempos que trabalhava no Museu Nacional. Apesar de investigar a origem do barulho por todos os cômodos em que passava, jamais achou o cidadão que digitava no aparelho madrugada a dentro. Quando soube da história de fantasmas que vagavam pelo antigo Paço, logo captou o recado: era uma máquina de escrever mal assombrada. Resultado: pediu afastamento do Museu e hoje trabalha em outra região da Quinta, a salvo dos fantasmas imperiais.

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