Natal paraense

Círio de Nazaré, uma das maiores festas populares do país, foi considerado patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco

  • A corda do Círio [Foto: Reprodução / Iphan]Todo mês de outubro, acontece um fenômeno em Belém do Pará: uma multidão vai às ruas da cidade para homenagear Nossa Senhora de Nazaré. É o Círio de Nazaré, uma festa que arrasta cerca de dois milhões de pessoas todos os anos, e cuja tradição remonta ao início do século XVIII. Agora, a festa foi considerada patrimônio imaterial da humanidade, pela Unesco, se juntando ao samba de roda do Recôncavo Baiano, à arte Kusiwa – pintura corporal e arte gráfica Wajãpi, e ao frevo, como expressão artística do carnaval de Recife.

    As fotos do Círio são sempre impressionantes. Uma imagem da santa vai à frente de um grupo, puxada por uma corda de 420 metros, onde os fiéis se agarram, num ato de devoção e sacrifício. “O que pode parecer desconcertante para quem está de fora guarda, porém, uma das funções místicas mais importantes da celebração”, escreveu a pesquisadora do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/Iphan/Minc Luciana Carvalho, em texto publicado na Revista de História em 2007. Ela conta também a origem da procissão:

    “Segundo a tradição paraense, por volta de 1700 o caboclo Plácido José dos Santos, agricultor e caçador, ao caminhar pela mata nas proximidades da estrada do Utinga – onde hoje é a Avenida Nazaré, em Belém –, encontrou uma pequena imagem da Virgem de Nazaré às margens do igarapé Murutucu. Recolheu-a e levou-a para sua humilde cabana. No dia seguinte, ao acordar, percebeu que a imagem havia sumido. Correu então até o local onde a encontrara e constatou que a santa havia retornado para lá. Este fato se repetiu muitas vezes, até que, chegando ao conhecimento do governador da época, este ordenou que a imagem fosse levada para a capela do Palácio do Governo, onde permaneceu durante a noite sob a guarda dos soldados. Nem a vigilância impediu a santa de tornar a sumir e, no dia seguinte, ser novamente encontrada às margens do igarapé, no lugar habitual.”

    No material sobre a candidatura produzido pelo Iphan, o evento é descrito como uma festa que ultrapassa as fronteiras da igreja. "Na celebração, sagrado e profano se complementam mutuamente, tornando-a um fato social de múltiplas dimensões: religiosa, estética, turística, cultural e econômica. Para os paraenses é o momento de demonstração de fé e reiteração de laços afetivos, que expressam e reforçam aspectos identitários locais, sendo considerado também o 'Natal paraense'". Mais um motivo para se comemorar.

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