O Tigre que foi melhor que Pelé

Editor especializado em livros de futebol, Cesar Oliveira planeja livro sobre Arthur Friedenreich, o primeiro ídolo do esporte no Brasil

Ronaldo Pelli

  • Arthur Friedenreich. O nome, assim, isolado, deve passar despercebido pela maioria das pessoas. Se fossem chutar, diriam que é germânico. Um pensador, talvez até filósofo. Improvavelmente alguém acertaria a profissão por que ficou conhecido em sua época e sua nacionalidade: jogador de futebol, sendo tão brasileiro quanto Pelé. Cesar Oliveira, editor especializado em livros de futebol, é dos que não entra nessa conta. Grande fã do velho esporte bretão, e tendo conhecimento da representatividade e da importância de Friedenreich em sua época, Cesar se propôs a tarefa de torná-lo mais conhecido para todos os tipos de torcedores.

    Friedenreich, ao centro, agachado, com os demais atletas da Seleção Brasileira de Futebol de 1919 / Foto: Divulgação

    “Arthur Friedenreich foi a primeira grande lenda do futebol brasileiro”, afirmou ele sobre o jogador que, hoje em dia, dá o nome a um prêmio para o maior artilheiro da temporada do futebol brasileiro. O atleta, conta Cesar, era mulato de olhos verdes, filho de um descendente de alemães com uma negra paulista. Jogou futebol no início do século passado, nas décadas de 1920 e 1930, pelo Paulistano e pelo São Paulo, com três passagens rápidas pelo Flamengo, em 1917 e 1923, atuando em apenas uma partida, e em 1933, quando participou de quatro jogos. “Era um centroavante muito técnico, que chutava com as duas pernas, e muito corajoso”, disse.

    Para ajudá-lo nessa empreitada de divulgação, Cesar contou com a ajuda de amigos, que lhe deixaram como responsável por cuidar de uma preciosidade. Uma biografia, escrita em primeira pessoa, sobre o atleta, com mais de cem páginas e cerca de cem fotos, “a maioria inédita” e “muitas centenárias”.

    “Herdei da família do jornalista Milton Pedrosa, de cujos filhos sou amigo, o acervo da Editora Gol”, explicou Cesar, que não se considera o “dono” desse material. “Para minha imensa fortuna, fui ‘escolhido’ para achá-las, depois de 41 anos perdidas no acervo da família do Milton. Esses documentos são parte da memória do futebol brasileiro. Precisam e devem ser cuidadas por entidades dedicadas à preservação de iconografia histórica. Com profissionais gabaritados que cuidem delas, limpem, restaurem, preservem, arquivem, indexem e abram para consulta pública”, diz, se colocando-se aberto a negociações: “Quero ter certeza de que serão bem tratadas.”

    O editor disse não acreditar que a biografia tenha sido escrita por Friedenreich, mas por um dos primeiros repórteres envolvidos com o futebol, que assinava com o pseudônimo de Paulo Várzea. “O livro tem característica de um jornalista com textos bom de ler sobre fatos do cotidiano”, afirma, confidenciando que Friedenreich é apresentado como uma criança que não gostava de ir à aula e preferia jogar bola.

    De acordo com Cesar, Friedenreich ficou famoso em 1919, por ter brilhado na final da Copa Sulamericana, disputada nas Laranjeiras, no estádio do Fluminense, quando o futebol era muito mais violento que hoje, e não havia o temido cartão vermelho.

    “Segundo os cronistas da época, o Uruguai batia muito no time do Brasil. Houve duas prorrogações, e as seleções jogaram 150 minutos. Friedenreich, mesmo sem dois dentes na boca, porque um uruguaio tinha acertado ele, conseguiu marcar o gol do título”, comenta Cesar, lembrando que há uma lenda sobre uma joalheria que, em plena Avenida Rio Branco, no Centro financeiro do Rio, teria colocado na vitrine a chuteira enlameada de Friedenreich. “Queria ter esse registro. Vou procurar”, promete.

    Outra lenda, dessa vez desmitificada, dava conta que Friedenreich teria feito mais de 1300 gols em sua carreira, numa época que não havia uma divisão clara entre profissionais e amadores. Na verdade, ele marcara “apenas” 550 oficialmente, mas, considerando os números de jogos, o jogador alcançou uma média de gols por partida melhor que a do próprio Pelé.

    “No começo do texto”, conta Cesar, “há a informação do alemão Hermann Friese, que teria sido o primeiro estrangeiro a jogar no Brasil. Antes, Friese tinha sido campeão alemão e tcheco. O alemão teria sido um dos primeiros técnicos de Friedenreich. Exigia apuro técnico dele, chutar com os dois pés, além de treinar seu preparo físico. Friedenreich não era corpulento, pelo contrário, era pequeno e magro, mas conseguia se impor com os truculentos zagueiros”, descreve Cesar, que cita em Friedenreich outra característica típica de nossos atacantes: ser marrento. No texto, há uma passagem em que o narrador se vangloria de nunca ter perdido um pênalti na vida – o que era uma mentira, mas uma mentira quase inócua. “Era o seu lado Romário”, brinca Cesar.

    O editor planeja lançar um livro com o material no ano que vem, 2012, quando se comemora os 120 anos de nascimento do jogador. O título, ele já escolheu. Vai deixar a proposta original: “Friedenreich é o Tigre”, remetendo ao apelido do atleta dado pelos uruguaios.

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