Os tabus da sexualidade

No Brasil, censura e liberdade se alternam quando o assunto é sexo. Na pauta do Biblioteca Fazendo História deste mês, as influências do tempo nos prazeres da carne

Janine Justen

  • Especialistas mostram que nem sempre amor e sexo andaram juntos / Fotos: Gilson RodriguesApesar de sermos conhecidos como o ‘país da libertinagem’, símbolo da sensualidade feminina no carnaval, das belas praias com suas moças de biquininho, do clima quente e inibidor de muitas roupas, a sexualidade foi, e ainda é, um tabu no Brasil. Para discutir a trajetória desses paradigmas sociais ao longo dos séculos, o Biblioteca Fazendo História (BFH) deste mês convidou o historiador Yllan de Mattos, especialista nos tempos do Santo Ofício e das colônias ibéricas, e a professora Cristiana Facchinetti, da Fiocruz, que aborda a postura moralizante da medicina do início dos anos 1900.  

    “Para contrariar um ideal romântico, o amor e o sexo não andavam tão juntos nessa época”, afirma Yllan de Mattos, referindo-se ao período que vai do medievo à colonização das Américas. “Aliás, a violência sexual foi um marco dessas sociedades. É fundamental compreender este aspecto, principalmente, para perceber as relações de poder entre senhores e subalternos, padres e fiéis, sem contar as discriminações por raça e gênero”, aponta o historiador.

    Professora da Fiocruz, Cristiana Facchinetti falou sobre a relação entre medicina e sexualidade

    De acordo com o especialista, é possível reviver essas tensões através de documentos oficiais, como as cartas enviadas pelos navegantes à Coroa. Um exemplo emblemático é a de Pero Vaz de Caminha, que faz  referência constante à nudez dos índios, chamando-a de 'suas vergonhas'. Além desses registros, há documentos de órgãos censores, que reprimiam as práticas sexuais, como os inquisidores e os dogmas religiosos mais ortodoxos.

    Professora  da Fiocruz, Cristiana Facchinetti concorda e defende que essas tensões ainda existem, mesmo que veladas. “O machismo de hoje tem raízes fortes na medicina secular. Teorias mostravam, por exemplo, que as características de diferenciação entre homens e mulheres eram calor e humidade. Quanto mais quente e mais seco, e, portanto, mais forte, mais próximo estaria o indivíduo da perfeição, ou seja, do homem”, explica.

    Para Facchinetti, também merecem destaque as influências da psicanálise sobre a sexualidade, quer para reprimí-la ainda mais ou para libertá-la de certos estigmas e imaginários sociais. “Acreditava-se que os desvios sexuais seriam capazes de produzir desvios graves de conduta. A masturbação, a pederastia e a homossexualidade eram dos mais perturbadores, sem esquecer dos adultérios e da miscigenação”, lembra a professora, que completa: “Por volta de 1920, instituíram-se programas de educação sexual para que o povo pudesse se regenerar”.

    Para Yllan de Mattos, a homossexualidade é um tabu que persiste na sociedade contemporânea Segundo a especialista da Fiocruz, a principal contribuição à liberdade sexual veio do Movimento Modernista. Encabeçada por Oswald de Andrade, a vanguarda se utilizou da mesma ideia da psicanálise conservadora para fazer a revolução. “O Brasil tinha sido reprimido, recalcado pelas sociedades francesa e ibéricas, que eram sinônimos de uma civilização superior. O inconsciente escondido por detrás dessa roupagem ocidental trouxe questionamentos inéditos acerca desse modelo cultural imposto pelas elites”, explica Cristiana Facchinetti.

    Outro ponto importante, que aproxima os tempos remotos dos atuais, é o preconceito contra gays, criticado por Yllan de Mattos: “A sodomia era um delito gravíssimo. Homossexuais poderiam ser condenados à fogueira na Inquisição. Eram apontados como hereges imperdoáveis”. A questão levantada pelo pesquisador no debate provocou manifestações dos internautas que acompanhavam o BFH pelo Twitter @RHBN. O público traçou um paralelo direto com as recentes ações do deputado pastor Marco Feliciano (PSC/SP). Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias Etnicas da Câmara, ele aprovou nesta terça-feira (18/06) o projeto da 'cura gay', que determina o fim da proibição de tratamentos que se propõem a reverter a homossexualidade. 

    “Hoje temos novas formas de expressão e protesto, mas as razões de insatisfação são cíclicas. Os discursos convivem num misto de repressão e liberalismo. Sempre”, demonstra Mattos, referindo-se à permanência de tabus históricos na nossa sociedade. Para concluir a exposição do tema, o professor recitou um poema de La Fontaine, do século XVII, intitulado “Epigrama”:

    “Amar, foder: uma união / De prazeres que não separo. / A volúpia e os prazeres são / O que a alma possui de mais raro. / Caralho, cona e corações / Juntam-se em doces efusões / Que os crentes censuram, os loucos. / Reflete nisso, oh minha amada: / Amar sem foder é bem pouco, / Foder sem amar não é nada”.

    Para quem se espantou com os termos grosseiros, Yllan esclarece: “É engraçado perceber como essas palavras eram corriqueiramente usadas e hoje, quando estamos, teoricamente, em uma sociedade mais avançada e liberal, provocam estranhamento. Uma aluna minha uma vez até saiu de sala depois de ouvir os versos do poeta”, diverte-se o historiador. 

     

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