Polêmica com Lobato em discussão no fHist

Escritora vê oportunidade para professores discutirem o racismo

Felipe Sáles

  • Foto: Reprodução A polêmica envolvendo releituras de clássicos da literatura, que recentemente atingiu até o escritor Monteiro Lobato, promete esquentar as discussões do Festival de História (fHist), em Diamantina, Minas Gerais, que começa no dia 7 de outubro. Uma das convidadas do evento, a escritora de livros infantis Luciana Sandroni condena as interpretações fora do contexto da época em que as obras foram escritas, mas prefere ver o lado positivo da polêmica: a oportunidade para os professores abordarem o racismo junto aos alunos.

    “É um tema muito delicado, mas que precisa ser abordado. É impossível tirar os autores do contexto de um século atrás, afinal, eram as ideias vigentes na época, eles viveram aquela época. Ao retratar Tia Anastácia como uma pessoa inferior, Lobato repetia a sociedade na qual ele e todos os personagens estavam inseridos. Assim fez Machado de Assis, José de Alencar e todos os grandes escritores. O importante é aproveitar a oportunidade para contar aos alunos as agruras do nosso passado, uma vez que não podemos nos esquecer de que fomos o último país independente a fazer a abolição da escravatura”, defende Sandroni.

    Vencedora do Prêmio Jabuti de 1998 por “Minhas memórias de Lobato”, Sandroni estará na mesa “Walt Disney e Monteiro Lobato: o sonho das crianças tem cor?”, marcada para as 18h do dia 10 de outubro no fHist. O tema será debatido juntamente com a historiadora Márcia Regina Ciscati, doutora em História Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2004) e professora dos cursos de licenciatura em História e Pedagogia pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, Faculdade das Américas e Faculdade Guaianás. A mediadora será a historiadora Carmen Lúcia de Azevedo.

     

     

    Traduzinho o mundo infantil

    Lobato já promoveu o encontro da turma do sítio com Popeye, então um marinheiro encrenqueiro, pois só na década de 10 o personagem mudou de personalidade. Foto: Wikimedia CommonsAlém da polêmica das releituras descontextualizadas, as convidadas também vão discutir com o público como Monteiro Lobato e Walt Disney traduziram em palavras e imagens a sensibilidade do mundo infantil.

    “Eles romperam com a fronteira entre realidade e fantasia. Para as crianças, a fantasia é real, eles realmente vivenciam e sentem como se fosse realidade. A boneca falante, para eles, existe. E Lobato teve a perspicácia de traduzir os sonhos infantis, pois, até então, os autores mostravam a fantasia como se tudo tivesse sido apenas um sonho”.

    Walt Disney, segundo Sandroni, também teve essa visão, dando qualidades literárias às “realidades” construídas.

    “As adaptações que Lobato fez das histórias de Walt Disney foram importantes porque, em alguns casos, ele fez os personagens visitarem o Sítio do Pica-pau Amarelo”.

     

     

    Polêmica

    A polêmica envolvendo Lobato começou depois que o Conselho Nacional de Educação emitiu um parecer a respeito do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, e sobre obras que conteriam trechos considerados racistas e foram distribuídos em escolas públicas.

    Em um trecho do livro, por exemplo, a personagem Emília diz: “É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem carne negra”.

    O assunto virou até tema de Carnaval no Rio. Um bloco que homenagearia Lobato teve de mudar o tema do desfile, que acabou arrastando multidões ao ritmo de “é proibido proibir”. A turma distribuiu cartazes com frases que satirizaram o parecer, do tipo: “atirei o pau no gato: incitamento à violência”, e “o teu cabelo não nega: racismo”.

     

    Confira aqui a programação completa da Tenda dos Historiadores.

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