Relatos do cárcere

Em carta para o arcebispo de São Paulo, guerrilheiro preso pede ajuda à Anistia Internacional e conta sobre a tortura e morte de Stuart Angel. Documento de 1976 chegou à RHBN pela viúva de Manuel Henrique Ferreira

Alice Melo

  • Em julho de 1971, o “subversivo” Manuel Henrique Ferreira (1949-2014) apareceu de capuz em rede nacional de televisão. Quando o pano foi retirado de sua cabeça, Manuel, conhecido entre seus companheiros como Diogo, contou que participara do sequestro do embaixador alemão Von Holleben, em 1970. Em um discurso ensaiado, vestindo roupas limpas e sem marcas de tortura no rosto, declarou: “Durante os seis dias que durou o sequestro, discutimos muito com o Embaixador, enquanto os companheiros o guardavam armados. Um dos nossos saía para, através dos contatos, saber o que se passava, embora jornais e revistas servissem como meio de informação”. Ao fim, disse aos jovens que ser subversivo “não era o caminho certo”.

    O discurso do guerrilheiro de 22 anos, ex- integrante dos grupos VPR, VAR-Palmares e MR-8, não apareceu na televisão por acaso. Após três meses de intensa tortura nos porões do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA), localizado na Base Aérea do Galeão, Manuel Henrique aceitou a proposta de seus algozes, em troca de banho, comida, cama e progressão da pena: foi obrigado a decorar um texto escrito pelo Major Gallo, da Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência, no qual deveria dizer que estava recebendo “tratamento bastante humanitário por parte das autoridades”. Em carta escrita ao arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, em 1976 (e disponível na íntegra no site do Ministério Público), ele denuncia a condição dos presos políticos no Brasil, roga para que o clérigo envie seu testemunho à Anistia Internacional e Comissão de Direitos Humanos da ONU, e dá detalhes sobre o processo de tortura e assassinato de seus companheiros, incluindo Stuart Angel.

    O documento, cuja cópia chegou à Revista de História pela viúva, Graça Lago, foi levado pouco a pouco para fora do presídio e causou grande repercussão na época. A ideia de Manuel era, por meio da carta, também “desmascarar tais pronunciamentos públicos”, além de “uma tentativa de um saldar de contas pessoal. O pagamento de dívida que tinha comigo mesmo, pois entendo que a traição por mim cometida não fio apenas uma traição revolucionária, foi uma traição pessoal, a mais de quatro anos de uma prática na qual acreditava”.

    Caso Stuart Angel

    Naquela carta, Manuel dá seu testemunho a respeito da morte de Stuart Angel, ocorrido dentro do CISA, em 1971, que, segundo ele, “[o crime] foi por mim denunciado na 1ª e 2ª auditoria da Aeronáutica em processos que ali respondi”. E conta: “Dias após minha prisão, quando passava pela fase de torturas, na quinta ou sexta-feira, fiquei sabendo, pelo Dr. Pascoal, que Stuart havia sido preso. Pela tarde, Dr. Pascoal abre a cela e me mostra uma carteira de identidade, para ver se eu conhecia a pessoa. (...) Logo após, de minha cela, ouvi um intenso barulho no pátio, uma grande movimentação, gritos e barulho de motores de carros que saíam apressados. À noite, veio um médico (...), pergunta-me se eu já sabia que Stuart estava preso”.

    Durante a noite, Manuel ouvira gemidos e gritos e, após momento de silêncio, entendeu que um oficial pedia um tapete, em que, segundo ele, alguém fora carregado. Na noite do dia seguinte, o ex-guerrilheiro foi levado para a sala de tortura e colocado frente a frente com um homem encapuzado. O homem teria dito que se chamava Paulo (codinome de Stuart), mas Manuel não conhecera aquela voz. Em sua opinião, se tratava de uma farsa mal montada pelos torturadores: Stuart àquela altura já estaria morto. “Outro dado a confirmar o assassinato de Stuart foi fornecido pelo Capitão Ventura. (...) Quando prestava depoimento naquele quartel, sofria a todo momento ameaças desses dois, e em uma dessas ameaças, o Tenente Santa Rosa diz que ‘assim como o Stuart, todo militante do grupo de fogo que cair, vai morrer’”.

        

     

    Tortura

    Manuel Henrique foi indiciado por dez crimes e permaneceu em cárcere até completar 30 anos, quando foi libertado em condicional; e apenas em 2009, o Estado brasileiro o reconheceu como anistiado político. Graça Lago conta em detalhes as torturas sofridas pelo marido: “Reconhecido na rua, Manuel foi preso aos 21 anos, no Rio. Foi imediatamente encaminhado para o DOPS, onde passou por horas de espancamento, chicoteamento e torturas, incluindo sessões no pau-de-arara e choque elétrico. As torturas só foram atenuadas na madrugada do dia 8 de maio de 1971, quando foi levado, encapuzado e já bastante ferido, para o CISA. No caminho, continuou a sofrer agressões e ameaças, inclusive de assassinato no Rio Guandu”.

    No CISA, Lago lembra que ele sofreu as maiores brutalidades: “Além do pau-de-arara, choques (nos órgãos genitais, na boca e na cabeça), ingestão de sal e espancamentos diversos, os torturadores promoveram um macabro ritual de apagar cigarros e charutos nas costas dele, que ficou em chagas. Sem tratamento, os ferimentos inflamaram, supuraram e resultaram em feias cicatrizes que permaneceram até o fim da vida como testemunhas inapagáveis da violência que sofreu”.

    Depois que deixou a prisão, Manuel fundou o bar Barbas, com o amigo (e companheiro de movimento) Nelsinho Rodrigues. Em janeiro de 2014, faleceu em decorrência de uma doença degenerativa. 

    Leia em alta resolução o "Caso Stuart", descrito por Manuel, do documento enviado por Graça Lago:

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

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