Torcidas de futebol

Bernardo Buarque analisa o fenômeno no Brasil ao longo de sete décadas

Marina Lemle

  • O olhar do historiador Bernardo Buarque para o seu objeto de estudo não é só de fora. Torcedor do Flamengo, ele está realmente por dentro quando o assunto é torcida.

    Em maio, Buarque defendeu na PUC-Rio a tese de doutorado O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (1967-1988). As quase 800 páginas do trabalho deram prosseguimento aos seus estudos de mestrado, focados nos anos 40 e 50, que renderam o livro O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego, editado pela Biblioteca Nacional em 2004.
     
    Em entrevista ao site da Revista de História da Biblioteca Nacional, Buarque, professor do curso de História Social do Futebol na UFRJ, contextualizou a história das torcidas no Brasil.

    Quando o futebol se torna um esporte de massa?

    A popularização do futebol começa já no final da década de 1910, mas se consolida no imaginário nacional na década de 30, com o advento do profissionalismo, impulsionado por jornalistas como Mario Filho, que comprou o Jornal dos Sports, graças ao auxílio financeiro de Roberto Marinho, seu amigo em O Globo. Até a década anterior, os jornais traziam poucas notícias sobre esportes, limitando-se às regatas e corridas a cavalo. Mario Filho cria uma narrativa romanceada para a crônica esportiva e começa a publicar fotos e entrevistas com jogadores de futebol. Isso ajuda o futebol brasileiro a passar de esporte de elite, aristocrático, para esporte de massas. Com o incentivo dos jornalistas, o Flamengo se torna um time de grande apelo popular. Dissidente do Fluminense, o time treinava num campo aberto, na Glória, e depois, nos anos 30, quando se muda para a Gávea, começa a transmitir os jogos para o Brasil inteiro, por rádio, e a contratar jogadores negros que eram ídolos nacionais, como o artilheiro Leônidas da Silva. Surge o jogador assalariado. Antes, os jogadores utilizavam o futebol como hobby: eram estudantes de engenharia e bacharéis em direito, por exemplo. Com o profissionalismo, Mario Filho defende uma distinta mentalidade para o futebol, sua transformação em espetáculo de massas.

    Como nasceram as torcidas no Brasil?

    A primeira torcida organizada do Flamengo e do Rio de Janeiro foi a Charanga, criada em 1942 pelo baiano Jaime de Carvalho, que também era chefe da torcida do Brasil. Durante as Copas do Mundo, Jaime chegou a representar a torcida brasileira na Suíça, em 1954, e na Alemanha, em 1974. Foi ele quem trouxe para as torcidas os instrumentos rítmicos e de sopro, os metais. Ele carnavalizou a arquibancada. E o Mario Filho estimulava isso, criou um concurso de torcidas, que tocavam marchinhas e jogavam confete e serpentina.

    Em 1942, Lamartine Babo compôs os hinos populares dos times, cantados até hoje. Cada clube passou a ter sua torcida e seu chefe de torcida, que era uma figura carismática: Tarzã do Botafogo, Dulce Rosalina do Vasco, Paulista do Fluminense. Antes da Era Maracanã, o futebol tinha ares mais provincianos, embora inúmeras brigas já se registrassem.

    Como surgiram as Torcidas Jovens?

    A primeira torcida jovem – Poder Jovem, criada em 1967 – é uma dissidência da Charanga. Jaime de Carvalho tinha se afastado temporariamente dos estádios por motivos de saúde. Neste vácuo, um grupo de jovens torcedores decidiu abandonar a Charanga e criar uma torcida organizada própria, a Poder Jovem, que em 1969 se transforma oficialmente na Torcida Jovem do Flamengo. Essa nova geração de torcedores queria protestar e criticar as atuações da equipe no estádio, o que era inconcebível para o Jaime de Carvalho. Ele não admitia vaias ou qualquer hostilidade aos jogadores. Mas a rebeldia da juventude marcou essa época no mundo inteiro e nas torcidas também. Em 1967, um grupo de artistas – Elis Regina, Ronaldo Bôscoli, Chico Buarque, Nelson Motta e Hugo Carvana, entre outros – fundam a Jovem Flu, como movimento independente do clube. Em 1968, com o AI-5, ela dispersa, mas volta em 1969. Em 1970, acaba de novo, mas surgem duas torcidas organizadas: a Young Flu e a Força Flu. Em 1974, um grupo recria a Jovem Flu, que dura até os anos 80.

    Quais foram as principais mudanças nas torcidas nos anos 60?

    O Maracanã foi construído na década de 1950 para 200 mil pessoas e seu projeto circular foi copiado pelos militares e estendido para o Brasil inteiro. Como a arquibancada do Maracanã ficava muito longe do campo de jogo, a idéia do coro, do canto coletivo, ganhou força. Mudou-se a estrutura musical: saem os pratos e sopros, fica só a percussão, a bateria. As torcidas começam a parodiar letras de sambas-enredo: “Pega no Ganzê”, do Salgueiro, “Domingo”, da União da Ilha. O coro em uníssono tem poder de influência, a letra longa e o refrão monótono têm impacto. As torcidas eram provincianas, de pequeno porte, mas passaram por mudanças sociais, culturais e econômicas. Junto com o futebol, se agigantaram, tornando-se um fenômeno de massas.

    Por que o título “torcidas organizadas”?

    Hoje as torcidas são registradas juridicamente como Grêmios Recreativos, tal como as Escolas de Samba, e se constituem como clubes dentro do clube. Existem em função dele, mas têm economia e sede próprias. No final dos anos 60, como não dependiam mais das torcidas oficiais e da diretoria dos clubes, as torcidas jovens fizeram críticas e protestos, reproduzindo no futebol a mesma contestação juvenil da música, do teatro e das artes, e tinham para isso o apoio da imprensa. O elo de fidelidade com os clubes se quebrava. O ano de 1968 foi marcado por manifestações e até passeatas no Maracanã.

    E a partir dos anos 70?

    Há um grande crescimento do número das torcidas ao longo dos anos 70. A cada jogo havia uma torcida nova, representado um bairro específico. Com isso, por um lado, há um aumento nas brigas, mas por outro há o reconhecimento das lideranças entre si e um incipiente processo de politização.

    Em 1980, surge a Astorj - Associação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro -, uma tentativa de agrupamento em torno de interesses comuns. Entre 1981 e 1984, torcedores fazem piquetes e boicotes pela redução do preço dos ingressos, entre outras reivindicações. Mas no fim da década a violência urbana explode e o futebol acompanha isso. A Astorj não consegue conter as rixas entre facções de torcidas e acaba se dissolvendo.

    Por que tanta violência no futebol?

    O futebol é uma leitura do que acontece no jogo da sociedade, já disse o antropólogo Roberto da Matta. Ele foi inventado para sublimar guerras e manter o conflito social em níveis toleráveis, variando de acordo com a conjuntura. Na Inglaterra, a partir da Copa de 1966, torcedores inflamados - jovens proletários em sua maioria subempregados - ganham visibilidade. Passam a instalar-se atrás do gol, apresentam um espírito combatente, almejam vencer o “inimigo”. A lógica da violência grupal nos estádios aqui começou nos anos 70, mas piorou em meados de 80. A violência dos Hooligans ficou marcada no jogo Juventus X Liverpool, na Bélgica, em 1985, que ficou no imaginário popular pelas trágicas imagens registradas pela televisão. No Brasil, a primeira morte intencional de um chefe de torcida, o Cleo, da Mancha Verde, do Palmeiras, ocorreu em 1988. Hoje, há membros de torcidas que têm relação com o crime organizado, são vinculados a facções. Repito: o futebol faz uma leitura muito própria e sintomática do que está acontecendo na sociedade.

    E o que se faz diante disso?

    A Inglaterra aumentou o preço dos ingressos, mas a violência não passa exclusivamente pela condição social. A nova era do futebol globalizado re-elitiza os estádios. Na nova infra-estrutura, há câmeras e monitoramento. É por isso que se tem a sensação de que o Maracanã está encolhendo. Não existe mais a Geral, as arquibancadas têm acentos, seguindo o paradigma do conforto, do consumo. O dinheiro do futebol não vem somente da capacidade de receber público pagante, então o ideal é ter estádios menores, sob controle e vigilância, para 50 mil pessoas, e ingressos a cem reais. E o povão ? Assiste pela TV. Isso é um problema para as torcidas organizadas, que são uma espécie de resistência a esse movimento elitizante. Os meios de comunicação e os clubes vêm incentivando novas torcidas, como a Legião Tricolor, os Guerreiros do Almirante, os Loucos pelo Botafogo, a Urubuzada, entre outras, que adotam o modelo de torcidas da Argentina, onde o princípio é o apoio incondicional ao time. Por isto, estas novas torcidas vêm crescendo nas cadeiras amarelas, roubando a cena dos antigos grupos. Hoje os clubes são punidos por torcidas que arremessam objetos o gramado e isso repercute no modo de comportamento do torcedor em geral.

    Você acha que essa elitização dos estádios vai interferir na cultura do futebol?

    Mesmo assistido pela TV, o futebol continua sendo uma paixão popular. A idéia de que as relações capitalistas vão acabar com a “genuína alma” do futebol não está bem colocada. Este esporte muda conforme a sociedade e, portanto, não deve haver nem maniqueísmo nem saudosismo. No mundo globalizado os jogadores são astros pagos pela sua performance e o capitalismo dá o maior valor ao alto rendimento, ao corpo olímpico. A TV está alterando o comportamento dos jogadores. A cobertura televisiva interfere na forma de torcer e jogar. No limiar do século XXI, a discussão sobre nacionalidade está posta em xeque: os jogadores vão para fora cada vez mais novos, não têm tanta relação com a camisa. É ruim ter telão? Não, o conforto é positivo. O projeto de demolir o Maracanã, defendido por Ricardo Teixeira, em imitação ao que os ingleses fizeram com Wembley, não vingou. O estádio vem sendo remodelado, atendendo às novas demandas do futebol internacional, mas é preservado como símbolo, como ícone nacional, como patrimônio cultural na memória brasileira.

    Você é ou já foi de alguma torcida?

    Nunca pertenci a nenhuma torcida organizada, embora possa me considerar simpatizante da
    Raça Rubro-Negra, de onde costumava assistir aos jogos quando ia com mais freqüência. Nos anos 90, cheguei a viajar algumas vezes para Minas Gerais e para São Paulo, a fim de assistir a jogos decisivos do Flamengo pela Copa do Brasil.

    Enquanto torcedor, o que você prefere? As torcidas jovens, críticas e às vezes violentas, ou as novas torcidas, bem comportadas e fiéis como a Charanga?

    É difícil dizer, pois tenho admiração pelas torcidas de uma maneira geral, sejam as jovens sejam as charangas. É extremante louvável o reaparecimento das Charangas no cenário do futebol carioca. Trata-se de uma “reinvenção das tradições” no seio das torcidas, para usar o termo do historiador Hobsbawm, que aliás escreveu instigantes linhas sobre o futebol na Inglaterra e no mundo contemporâneo.

    Saiba mais:

    A charanga do Jaime - Artigo de Bernardo Borges Buarque de Hollanda e Melba Fernanda da Silva

    Quando os corinthianos invadiram o Rio - Artigo de Plínio Labriola Negreiros

    Brasil X Brasil na Copa de 2014 - Artigo de Mauricio Murad

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