O título do livro O espelho de Próspero – Cultura e ideias nas Américas, fazia referência à peça “A tempestade” (1611), a última escrita por William Shakespeare (1564-1616). Sua trama se passa no período das grandes navegações, quando a civilização de então se estendia para o Novo Mundo. Em determinado momento da história, o personagem Próspero, um mágico europeu, chega a uma pequena ilha dominada pela bruxa Sicorax. Valendo-se de muita esperteza e com a ajuda de seus livros, ele a derrota, liberta Ariel, um espírito do ar, e passa a criar e escravizar o monstruoso Caliban, filho da bruxa.
Entre os séculos XVII e XIX, os personagens Próspero e Caliban se tornaram metáforas que simbolizavam, respectivamente, a Europa e a América, conforme sugerido pelo próprio Shakespeare. Mas na virada do século XIX para o XX, vários autores latino-americanos se valeram de Ariel, Próspero e Caliban para se referir às complicadas relações entre a América Latina e os Estados Unidos. Com Ariel (1900), o ensaísta uruguaio José Enrique Rodó ficou famoso ao apresentar “o velho e venerável mestre” Próspero alertando seus discípulos americanos para os perigos da democracia positivista e utilitarista. Várias das leituras recentes da obra sugerem que, longe de ser um intelectual benevolente e sagaz, Próspero era o colonizador paranoico de uma ilha encantada. E que Caliban foi, em grande medida, visto de forma positiva, como aquele aberto ao contato e à devoração do outro, como sugere a antropofagia modernista.















































































