Apatia festiva

Novo artigo da série 'Cólera e melancolia' analisa o discurso dos indignados e o marasmo ideológico que move os jovens, saudosos de um tempo que não viveram

Bruno Garcia

  • Sejamos sinceros. Apesar de todos os festejos de fim de ano, a entrada de 2012 não parece merecer muita celebração. A crise parece durar pra sempre, e promete visita especial por aqui a partir de Março. Todos os esforços para resolver, amenizar ou mesmo ignorar o tamanho do problema falharam miseravelmente. E mesmo depois de tanta indignação, a direita marcha na Europa enquanto a maioria dos movimentos sociais se encolhe em demandas fantasiosas, anacrônicas ou simplesmente inexistentes.

    Parece exagero, mas toda essa mobilização de 2011 serviu para reafirmar a certeza incondicional de que alguma coisa está muito errada no mundo – como atestam as mais de 800 cidades ocupadas –, em meio à constatação melancólica de que não se sabe o que fazer. Raras vezes a chance de se rediscutir o caminho traçado nos últimos anos por estados, empresas e blocos regionais – como a União Européia – foi aproveitada por esses movimentos.

    Em vez de destacar aqueles que tiveram algum êxito nesse campo – tema do próximo artigo da nossa série –, gostaria de colocar a crise em perspectiva. Isso implica em pensar o colapso financeiro de 2008 não como fonte do atual estado de emergência, mas de inseri-lo como ponto final de um delírio, uma utopia cristalizada pelas duas décadas que o antecederam.

    Falo não só de certo momento do já distante 1989, mas de uma geração hoje com 20 e poucos anos – a primeira após a Guerra Fria, crescida sobre os escombros de um conflito que nunca aconteceu, e longe da sombra de um holocausto nuclear iminente. Mais que isso: uma geração confiante na universalização da simbologia dos direitos humanos e da democracia.

     

    O fim do fim da história

    Os mais astutos, ou mais velhos, se lembram certamente de Francis Fukyama e seu célebre argumento do fim da historia em 1989. A ideia de que o colapso do socialismo na Europa confirmava o triunfo definitivo da democracia liberal produziu um debate gigantesco na época. Por mais combatido que tenha sido, Fukuyama sintetizou o argumento que produziu, nos anos seguintes, um otimismo quase patológico.

    A utopia de que a reunificação da Europa e o fim da bipolaridade nos levariam a uma era de progresso, prosperidade e paz foi parida aqui. Hoje somos obrigados a reconhecer seu fracasso absoluto. Seja pelos genocídios de Ruanda e Bósnia ou pelas constantes ameaças terroristas desencadeado no 11 de Setembro, já se sabia que alguma coisa estava fora do lugar. A crise de 2008 foi simplesmente a gota d’água.

    Os vintes anos de utopia assinalaram a entrada em cena de uma forma de política peculiar, aquilo que o filósofo francês Jacques Rancière chamou de pós-política. Trata-se, na verdade, da própria degeneração da política, entendida enquanto campo inevitável de enfrentamentos. Na era do fim da história, e (por que não?) das utopias, o trabalho dos políticos é orientado exclusivamente pelas boas idéias, independentes da orientação ideológica. Numa era de absoluta confiança, o pragmatismo administrativo de tecnocratas super-qualificados basta para a resolução das questões sociais.

     

    Exagero histérico

    Esse surto de protestos atesta, ainda que de forma superficial, um retorno à política enquanto campo de ação de enfrentamentos. Tudo isso realizado por uma geração formada sob efeito letárgico da convicção de que tudo caminhava para um mundo melhor. Isso não poderia acabar muito bem. Talvez essa sensibilidade, essa formação num tédio de falsos acontecimentos seja decisivo para compreender os atuais movimentos de ocupação.

    Chamo atenção, em especial, à forma com que os “indignados” valorizam seus próprios movimentos. O exagero histérico, como se vivêssemos um momento único na história em que os povos se levantam contra as injustiças do neoliberalismo, tem um significado curioso. Em primeiro lugar, porque o vazio de experiências no passado desses jovens faz com que eles considerem essa série de acampamentos como um verdadeiro acontecimento. Diante da inércia do todo, eles se sentem, verdadeiramente, “lutando por um mundo melhor” (como o Rock in Rio).

    Em segundo lugar, há nesse discurso a constante afirmação de que a história esta sendo feita. No momento nem cabe discutir se essa ideia faz algum sentido. Mais relevante é saber por que testemunhar a história faz da vida de alguém mais significativa. No fundo, isso não passa de um orgulho narcisista de se querer vanguarda política. Não passa de uma mera tentação de “fazer o bem”, num martírio quixotesco pouco preocupado com as razões mais elementares da própria ação.

     

     

    Bruno Garcia é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e idealizador do Observatório de protestos, levantes e movimentos de dissenso

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