Sejamos sinceros. Apesar de todos os festejos de fim de ano, a entrada de 2012 não parece merecer muita celebração. A crise parece durar pra sempre, e promete visita especial por aqui a partir de Março. Todos os esforços para resolver, amenizar ou mesmo ignorar o tamanho do problema falharam miseravelmente. E mesmo depois de tanta indignação, a direita marcha na Europa enquanto a maioria dos movimentos sociais se encolhe em demandas fantasiosas, anacrônicas ou simplesmente inexistentes.Parece exagero, mas toda essa mobilização de 2011 serviu para reafirmar a certeza incondicional de que alguma coisa está muito errada no mundo – como atestam as mais de 800 cidades ocupadas –, em meio à constatação melancólica de que não se sabe o que fazer. Raras vezes a chance de se rediscutir o caminho traçado nos últimos anos por estados, empresas e blocos regionais – como a União Européia – foi aproveitada por esses movimentos.
Em vez de destacar aqueles que tiveram algum êxito nesse campo – tema do próximo artigo da nossa série –, gostaria de colocar a crise em perspectiva. Isso implica em pensar o colapso financeiro de 2008 não como fonte do atual estado de emergência, mas de inseri-lo como ponto final de um delírio, uma utopia cristalizada pelas duas décadas que o antecederam.
Falo não só de certo momento do já distante 1989, mas de uma geração hoje com 20 e poucos anos – a primeira após a Guerra Fria, crescida sobre os escombros de um conflito que nunca aconteceu, e longe da sombra de um holocausto nuclear iminente. Mais que isso: uma geração confiante na universalização da simbologia dos direitos humanos e da democracia.
O fim do fim da históriaOs mais astutos, ou mais velhos, se lembram certamente de Francis Fukyama e seu célebre argumento do fim da historia em 1989. A ideia de que o colapso do socialismo na Europa confirmava o triunfo definitivo da democracia liberal produziu um debate gigantesco na época. Por mais combatido que tenha sido, Fukuyama sintetizou o argumento que produziu, nos anos seguintes, um otimismo quase patológico.
A utopia de que a reunificação da Europa e o fim da bipolaridade nos levariam a uma era de progresso, prosperidade e paz foi parida aqui. Hoje somos obrigados a reconhecer seu fracasso absoluto. Seja pelos genocídios de Ruanda e Bósnia ou pelas constantes ameaças terroristas desencadeado no 11 de Setembro, já se sabia que alguma coisa estava fora do lugar. A crise de 2008 foi simplesmente a gota d’água.
Os vintes anos de utopia assinalaram a entrada em cena de uma forma de política peculiar, aquilo que o filósofo francês Jacques Rancière chamou de pós-política. Trata-se, na verdade, da própria degeneração da política, entendida enquanto campo inevitável de enfrentamentos. Na era do fim da história, e (por que não?) das utopias, o trabalho dos políticos é orientado exclusivamente pelas boas idéias, independentes da orientação ideológica. Numa era de absoluta confiança, o pragmatismo administrativo de tecnocratas super-qualificados basta para a resolução das questões sociais.
Exagero histéricoEsse surto de protestos atesta, ainda que de forma superficial, um retorno à política enquanto campo de ação de enfrentamentos. Tudo isso realizado por uma geração formada sob efeito letárgico da convicção de que tudo caminhava para um mundo melhor. Isso não poderia acabar muito bem. Talvez essa sensibilidade, essa formação num tédio de falsos acontecimentos seja decisivo para compreender os atuais movimentos de ocupação.
Chamo atenção, em especial, à forma com que os “indignados” valorizam seus próprios movimentos. O exagero histérico, como se vivêssemos um momento único na história em que os povos se levantam contra as injustiças do neoliberalismo, tem um significado curioso. Em primeiro lugar, porque o vazio de experiências no passado desses jovens faz com que eles considerem essa série de acampamentos como um verdadeiro acontecimento. Diante da inércia do todo, eles se sentem, verdadeiramente, “lutando por um mundo melhor” (como o Rock in Rio).
Em segundo lugar, há nesse discurso a constante afirmação de que a história esta sendo feita. No momento nem cabe discutir se essa ideia faz algum sentido. Mais relevante é saber por que testemunhar a história faz da vida de alguém mais significativa. No fundo, isso não passa de um orgulho narcisista de se querer vanguarda política. Não passa de uma mera tentação de “fazer o bem”, num martírio quixotesco pouco preocupado com as razões mais elementares da própria ação.
* Bruno Garcia é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e idealizador do Observatório de protestos, levantes e movimentos de dissenso
















































































Psiu, não fale que são anarquistas pra ninguém!
9/1/2012Tá querendo tirar o corpo fora: a esquerda tá querendo lavar as mãos da responsabilidade pelo crescimento da direita. Pegando os fatos e costurando-os para justificar sua idéia preconcebida, provavelmente por alguma cúpula. Esse autor deve ser só o porta-voz, e tá ganhando $ pra isso. Como diria Cazuza, os aderentes da esquerda são ingênuos...
Bruno Garcia
25/12/2011Caro Luan, sugiro uma leitura mais cuidadosa. Falo de uma crise, no que diz respeito ao entendimento da política enquanto zona de conflito permanente, e de um momento especifico, o começo da década de 90, no qual a própria idéia de ideologia foi contestada em nome de uma apatia relutante. Em nenhum lugar está escrito que esses protestos são sem ideologia, embora considere alguns anacronicos ou equivocados. Como escrevi acima, “esse surto de protestos atesta, ainda que de forma superficial, um retorno à política enquanto campo de ação de enfrentamentos”. Apenas não acho que toda mobilização mereça ser tratada como um grande acontecimento. Em alguns casos, a serem explorados mais tarde nesse espaço, observamos idéias e conquistas dignas de servirem de orientação. Em outros, esse entusiasmo não serviu de nada. A proposta aqui é a de procurar articular as diferenças entre esses movimentos e ensaiar algumas idéias para justificar paradoxos como o surgimento de protestos estudantis paralelos ao crescimento da extrema direita em alguns lugares. Não confunda criticismo à esquerda-histérica-e-anacronica a comprometimento com 1% dos mais ricos.
Luan Badia
23/12/2011Essa matéria só me faz apresentar duas hipóteses: 1 - completo desconhecimento do autor, que estudou o tema. 2 - comprometimento do autor com o setor que representa os 1% mais ricos da população. Falar nos protestos da juventude de 2011 como sem ideologia é desconsiderar o que de fato acontece no mundo, é desconsiderar a forte tradição anarquista espanhola, as organizações de esquerda israelenses, a luta por democracia no norte da áfrica, e a plataforma democracia real que surge da experiência das revoluções do século XX e XXI, do fracasso tanto do Stalinismo e do capitalismo. Recomendo o autor estudar mais sobre os processos e ler a plataforma democracia real. Ao ao menos admitir seu compromisso com a elite corrupta e podre que governa nosso país e o mundo.