Epílogo de um ano que não aconteceu

Encerrando a série sobre os indignados, Bruno Garcia conta como o movimento dos estudantes austríacos focou no seu campo de ação (a educação) para rediscutir as políticas do país sem a 'batina do revolucionário'

Bruno Garcia

  • A quem interessar possa, o mundo não é um lugar melhor. O ano que passou não teve nada de especial e a grande maioria dos protestos não produziu nada de novo. Não estamos sob o risco de uma nova depressão, como a de 2008... simplesmente não saímos dela. E, no entanto, somos obrigados a reconhecer que a raiva e a angústia, a cólera dos tempos explícita em quebra-quebras memoráveis e choques com a polícia, esta, sim, é verdadeira. Estão ambas unidas numa junção bizarra, celebrada pela certeza na injustiça e a perplexidade da inação. É o sintoma da nossa desorientação moderna.

    Diante desse quadro é compreensível que jornais tenham estampado manchetes exageradas, jovens tenham tido surtos proto-revolucionários e que tolos tenham comprado a escatologia do capital como o acontecimento do nosso tempo. Não que nada tenha acontecido. Mas os resultados foram no mínimo decepcionantes. As praças não estão mais ocupadas e nem as multidões aparentam a mesma indignação. O clã dos banqueiros conquistou o “direito” de substituir governos inteiros por tecnocratas sem a necessidade de eleição, como na Itália ou na Grécia. Em grande parte da Europa, as lideranças sindicais se calam enquanto a direita avança como avatar de uma última esperança.

    O silêncio cansado dos que gritaram nas praças, espernearam nos jornais, e que voltaram para casa resignados é a nossa tragédia. Essa apoteose de ódio, seguida pelo retorno melancólico ao estado de apatia perpétua, sintoniza uma geração dispersa de ideias, propostas e atitude. O famoso slogan “nós somos 99%”, se referindo à multidão dos humildes em oposição à minoria dos milionários, escondia a perversão do enunciado. O que queriam, de verdade, era pertencer a esse 1%. Nas palavras do sociólogo Zygmunt Bauman, a grande maioria desses movimentos não passou de uma “expressão radical da sociedade de consumo”. Uma falsa rebelião, não para contestar a orgia consumista, mas para fazer parte dela.

    A inconstância dos movimentos me obrigou a por em cheque muitos deles. Aos que acompanharam, reagiram ou se interessaram pelos poucos textos nesta série, devo, neste artigo final, uma curta justificativa para minha intrusão pessoal no assunto.

    No perímetro do bom senso

    Jovem junto à estátua de Goethe aponta para as faixas de protesto, em Viena. Foto: Bruno GarciaEra fim de 2009 quando as primeiras bandeiras foram hasteadas. Na Ringstrasse, a rua que circunda o centro histórico de Viena, um estudante em cima da estátua de Goethe apontava para o prédio da faculdade de Artes onde uma gigantesca faixa anunciava o protesto. O auditório principal da universidade, o Audimax, fora ocupado por centenas de estudantes enquanto marchas enormes eram organizadas pela cidade.

    Num país, descrito por Hobsbawn como “pequeno, comprometido com a neutralidade, invejado por sua persistente prosperidade portanto chato”, o Unnibrent (referencia universidade pegando fogo), foi bastante surpreendente. A plataforma era relativamente simples. O protesto se dirigia ao Ministério da Educação contra o sucateamento do ensino superior por conta do processo de Bologna que pretende unificar o ensino universitário europeu. A adoção do sistema eliminaria os princípios fundamentais das universidades austríacas, tradicionalmente livres e gratuitas. Com a reforma, os estudantes seriam taxados e o acesso à universidade dificultado.

    Fui levado, por um amigo, a algumas assembleias e intervenções públicas nas quais os propósitos do protesto eram constantemente discutidos. Diante do eterno quadro de resistência que a população austríaca sempre teve para com gestos espontâneos, muitos acharam necessário justificar nas ruas a causa dos estudantes. No início da noite, o microfone foi aberto no Audimax. Alguns montaram acampamento e aos poucos o protesto chegou às outras universidades, como Graz e Innsbruck. No começo de dezembro, ganhava apoio de universidades em Munique e Berlim.

    Universidade em chamas: símbolo do movimentoConfesso que somente percebi a grandeza da mobilização quando vi Sigrid Maurer, que aos poucos se firmava como uma liderança informal, debatendo ao vivo com o ministro da Educação na ORF, principal canal de TV austríaco. Sigrid era então presidente da Associação de Estudantes, simpática porta-voz das demandas do grupo. E, apesar de sua filiação prévia ao Partido Verde, jamais deu um passo para além das reivindicações ligadas ao movimento estudantil.

    Nesse ponto, o Unibrennt antecipou o que fez dos estudantes chilenos tão significativos. A astúcia de Sigrid e do grupo de Viena foi procurar se manter dentro do seu campo de ação: a educação. Não precisaram da batina do revolucionário. Como estudantes, suas reivindicações já faziam sentido o suficiente. E a partir delas, suas demandas particulares foram ampliadas a uma discussão muito maior.

    Sigrid Maurer, porta-voz do movimentoNelas se abria o caminho para uma nova forma de protesto transnacional dentro da União Européia. O apoio de estudantes alemães, e mais tarde de italianos e espanhóis, sinaliza o deslocamento do protesto dos governos nacionais para Bruxelas. Um gesto que seria repetido por outras categorias, sindicatos e pelos indignados em 2011.

    Mais importante do que tudo isso: o movimento, que permanece ativo ainda hoje, ganhou apoio e respaldo de escritores, intelectuais, professores e incluiu a discussão do papel do país dentro da União Européia para além do discurso xenófobo da extrema direita, tradicionalmente tão forte no país. A mobilização da sociedade civil foi suficiente para amadurecer as representações estudantis como interlocutores respeitáveis dentro do sistema de decisão política do país. Em outras palavras, o protesto produziu um efeito de inclusão de novos agentes dentro do edifício do estado, diferente do resto da Europa, que cada vez mais relega a política em nome da tão proclamada austeridade, enquanto apoia a reconstrução do sistema bancário que produziu a calamidade da qual ainda não saímos.

     


     
    Futuro hipotecado

    Que não duvidem do caos. A raiva contida nas centenas de protestos e demonstrações, desde que explodiu a absurda crise de setembro de 2008, é sincera. De lá pra cá, centelhas de esperança foram dispersas em pequenos focos de mobilização pouco convincente. Se serviram para chamar atenção da imprensa, pouco fizeram de concreto. Alguns países duvidaram da intensidade da crise, outros a sentiram na medida em que algumas estruturas do estado foram abaladas pela falta de investimento, ou propositadamente negligenciadas por falsos planos de austeridade.

    No vácuo de alternativas, as mobilizações populares, em sua maioria, resultaram em fracassos previsíveis e retumbantes. Não me surpreenderia se novas manifestações do mesmo quilate surgissem em 2012. Razões não faltam. Que sirva de exemplo o que chilenos e austríacos têm feito. O estado de interregno proclamado por Bauman, na qual a forma anterior de fazer as coisas não mais funciona enquanto as novas ainda não foram inventadas, temos em dois países improváveis por seu passado conservador, os melhores exemplos. Talvez, os únicos.

     

     

    * Bruno Garcia é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e idealizador do Observatório de protestos, levantes e movimentos de dissenso

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