Indignados com causa

Novo artigo da série sobre o movimento dos indignados conta as diferenças entre os protestos como o da Cinelândia e dos estudantes chilenos, que conseguiram mudar a agenda política do país

Bruno Garcia

  • 'Comandante' Camila Vallejo: musa dos estudantes chilenosAntes que seja acusado – novamente - de profanação ao culto dos comunistas do bem e arautos da indignação, afirmo de antemão: a história de hoje é certamente mais feliz que as anteriores. Não falaremos de indignados, pracinhas na Cinelândia ou da incrível sensação de estar vivendo num tempo sem precedentes no qual cidadãos de primeiro mundo, até então apáticos, são despertos de um transe profundo pela simples falta de um tostão no bolso para comprar novos iPods. Sejamos mais simples e locais.

    Com exceção das revoluções no mundo árabe, o movimento estudantil chileno liderado por Camila Vallejos, uma estudante de geografia de 23 anos, foi sem dúvida o mais importante de todos os protestos de 2011. Um dos poucos que merece ser tratado com maior seriedade.

    Em abril foi organizada uma primeira paralisação na Universidade Central do Chile (UCEN) em repúdio à mudança no estatuto que faria a instituição deixar de ser uma corporação sem fins lucrativos para ter o direito de arrendar terras e imóveis no campus. Dirigidos por uma invejável rede de órgãos representativos, os estudantes iniciaram um série de protestos.

    A ideia por trás do movimento, desde o começo, foi a de reverter a tendência cada vez mais forte em se fazer da educação negócio. A reação dos estudantes foi, no mínimo, surpreendente. Rapidamente, o movimento ganhou adesão. A primeira marcha aconteceu em Santiago, no dia 12 de maio, com mais de 15 mil estudantes a favor de um método democrático de acesso à universidade e do ensino gratuito. Em junho, o movimento se radicalizou de tal maneira que no dia 30 daquele mês, cerca de 100 mil marcharam em Santiago, totalizando quase 400 mil com as demais cidades.

    As propostas do governo - que chegaram a três antes mesmo de começarem os diálogos, em setembro - foram sempre rechaçadas, e a hostilidade produziu cenas de confronto entre estudantes e a polícia, com direito a barricadas. As marchas se seguiam, contando cada vez mais com o apoio substancial de outros setores. Em 25 de agosto, uma greve geral foi convocada pela Central Única de Trabalhadores, sinalizando amplitude do movimento.

    Protestos objetivos

    “Este movimento começou há mais de dois meses, com as mobilizações na Universidade Central, e é um movimento que tem conquistado cada vez mais transversalidade e apoio de diferentes setores.”

    Policial em chamas num embate na GréciaA fala de Camila Vallejos, ainda nos primeiros meses de ação, sintetiza o que o movimento estudantil chileno conquistou. Parece pouco, mas fazer de uma demanda específica algo politicamente articulado em múltiplas direções é uma das poucas ambições concretas que movimentos estudantis podem ter. Talvez seja o único legado de 68, não incorporado plenamente, que justifique ainda alguma nostalgia.

    O sucesso do movimento em questionar, através da educação, o sucateamento do estado em nome de políticas neoliberais foi especialmente bem sucedido por não ter tido nenhum complexo de grandeza. Não foi necessário se auto-proclamar revolucionário, defensor da soberania popular ou qualquer título correspondente a um salvador da pátria. Em nenhum momento o movimento estudantil precisou deixar de ser o que era – de estudantes – para produzir uma série de debates e intromissões necessárias na política nacional.

    As duras críticas às políticas educacionais do governo chileno, e principalmente sua profundidade das propostas e reivindicações, acabou deixando o governo de Sebastián Piñera sem saída. As propostas, que incluíam uma reforma tributária pra que a educação recebesse a verba mínima desejada, necessariamente demandavam reformas no modelo econômico e político, alguns estabelecidos durante os anos de ditadura e que reproduzem uma grave estrutura de desigualdade social.

    Nem a derrota de Vallejos em dezembro para reeleição à presidência da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECh) mudou o tom dos protestos. Pelo contrário, a eleição de Gabriel Boric demonstra que o movimento internamente funciona por uma lógica própria, indiferente ao fascínio pela fama que Camila já conquistou. Em outras palavras, sublinha a própria maturidade do processo, não sua derrota. As diferentes organizações estudantis e suas lideranças, que chocam pela lucidez, atestam muito mais o nascimento de uma esquerda lúcida e pragmática, espécie em extinção.

    Estudantes redefiniram a pauta política do Chile

    O ano passou com a Europa tentando manter a compostura na medida em que Grécia, Irlanda e Portugal ameaçavam declarar falência (quem se esquece das batalhas campais de Atenas?). Os americanos não entendiam as ocupações que se espalhavam pelas suas cidades e eram copiadas de forma patética por gente que compreendia menos ainda o que estava se passando. Enquanto tudo acontecia, o movimento estudantil chileno era marginalizado pela imprensa. Não que tenha sido esquecido - como ignorar 400 mil nas ruas? -, mas raras foram as vezes em que os chilenos foram relacionados ao amplo surto de contestação global. Quando acontecia, eram sempre colocados como um movimento de ressonância, seja aos “indignados”, seja à primavera árabe. Em agosto, O Globo estampou uma notícia ridícula na qual a chamada era  “Os indignados chegam ao Chile”, após uma demonstração colossal que punha no chinelo qualquer tentativa análoga na Europa. 

    Bombas e sorrisosPor um lado esse tratamento diferenciado não é sem razão. Salvo o “surto político” da Primavera Árabe, nenhum outro movimento chegou aos pés do liderado por Camila Vallejos. Eu sei, não se trata de uma competição. Mas me parece relevante definir a mobilização chilena como acontecimento verdadeiro, como “irrupção de uma singularidade única e aguda, no lugar e no momento da sua produção” em oposição ao simulacro de indignação que tanto vimos. É claro, se não óbvio, que o impacto do movimento estudantil no Chile produziu um imenso debate no país e que ajudou a redefinir uma nova agenda política para 2012. Trata-se de um conjunto de políticas alternativas que potencialmente passarão a pautar novas formas de oposição e novas visões sobre o funcionamento das relações políticas no país. Assistimos ao nascimento de uma outra proposta no que diz respeito a relação entre estado e população. Algo muito diferente dos primos do norte, que, enquanto sentavam na praça, assistiam à vitória eleitoral e discursiva de forças conversadoras. 

    Chamei atenção diversas vezes nessa coluna para o paradoxo de muitas vezes o inchaço popular nas ruas produzir o efeito inverso do desejado. Efetivamente não basta se indignar sem cérebro. Quem esteve na proto-ocupação da Cinelândia ouviu muitas vezes a mesma ladainha. Lembro-me nitidamente de como a grande questão nos primeiros dias era muito mais o que fazer para manter o acampamento - como lidar com a guarda municipal, com a polícia... -  do que pensar numa razão mínima para estar lá. Como se o fato de existirem inúmeros motivos para se indignar hoje fosse razão suficiente para não argumentar nada. Dessa demência nasceram comentários do brilhantismo de “protestamos contra tudo isso que esta ai”. Não é genial? 

    Não surpreende que os “indignados” na Europa tenham conquistado o exato oposto do que desejavam, ou seja, a radicalização do status quo como paradigma da estabilidade e segurança. A direita promete varrer a Europa enquanto as medidas de austeridade não só são aprovadas, como se tornaram de tal maneira preciosas que justificam a remoção de um governo e a montagem de outro - sem eleição - para implementá-las.

    O impacto aqui não foi tão dramático, como é de nossa natureza. Ninguém realmente levou a sério as insignificantes manifestações locais que reproduziam a ocupação de Wall Street no seu pior. Não surpreende que em sua maioria tenham desaparecido de forma melancólica e silenciosa. O saldo positivo fica por conta do Mc Donald’s vizinho ao acampamento na Cinelândia. Provavelmente, nenhum outro no mundo vendera tantas tortinhas nos poucos dias em que os revolucionários estiveram por lá.

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