Sugiro a experiência. Caminhem por um dos muitos acampamentos montados em mais de 800 cidades espalhadas pelo mundo, chamados genericamente de manifestações permanentes. Além do contagiante entusiasmo em não saírem dali, vocês irão encontrar uma série de slogans e símbolos referentes a 1968, como emblema de uma continuidade absurda, pouco comovente, mas muito coerente. Essa ponte direta, intencionada por nossos revolucionários contemporâneos, está cada vez mais visível. Na França, as barricadas viraram moda; na Alemanha, imagens de Rudi Dutschke (lenda do movimento estudantil da década de 60) se espalharam em tempo recorde, enquanto no Brasil prevalecem slogans da profundidade de “É proibido proibir”, da época da ditadura. Agora, com status de sabedoria popular. Ao contestarem os abusos do mercado financeiro e as medidas de austeridade, pagas sempre por aqueles que mais dependem do estado, estudantes e sindicatos se deram conta da impossibilidade de resolver a parada num só protesto. Em maio, os espanhóis já acampavam em praças das principais cidades do país. Em outubro, o movimento de ocupação de Wall Street criou filhotes em milhares de lugares, chegando até aqui, em celebrações do retorno retumbante de um engajamento perdido há muito. Fala-se com confiança até em comprometimento com a política, como não se via desde os simbólicos anos 60.
Até pouco tempo, esses protestos foram tratados como sinceras tentativas de pensar um mundo diferente. O acampamento de Nova Iorque foi visitado por inúmeros intelectuais, como o filósofo Slavoj Žižek e a jornalista canadense Naomi Klein. Outras ocupações, como a de Oackland, só ganharam destaque após a reação exagerada e violenta da polícia, como no vídeo que você confere abaixo. Depois disso, praticamente todas as grandes cidades do mundo se viram ocupadas por jovens eufóricos por suas barracas e algum acontecimento.
‘Protesto em forma de festa junina’
Há poucas semanas Wall Street foi desocupada, não se fala mais dos indignados espanhóis e tivemos que nos conformar por aqui, no Rio de Janeiro, com uma espécie de protesto em forma de festa junina na Cinelândia. Por algum tempo, toda essa mobilização produziu em estudantes, intelectuais, políticos e todos os órfãos de uma esquerda articulada a sensação de vertigem, de que a apatia das últimas décadas daria lugar a novos projetos para um outro mundo.
Insisto, por isso, na comparação com 1968, e no vigor ideológico de uma geração conhecida tanto pelos numerosos sonhos, quanto por não realizá-los. Lembramos sem dificuldade dos inúmeros estudantes nas ruas de Paris, da luta por direitos civis nos Estados Unidos ou mesmo da radicalização dos movimentos estudantis latino-americanos. Tratar a fabulosa concatenação de eventos e projetos daquela geração com certa admiração é razoável, mas visto assim, o argumento parece fora do lugar.
É preciso lembrar também que 68 foi seguido por longos anos sob predomínio de governos de direita. O credo revolucionário padeceu ao pragmatismo ultraconservador que varreu os hippies do mapa. Assistimos à catástrofe de um “projeto” de mundo vago e muito mal concebido. Não foi só a América Latina que viria a ser varrida por ditaduras militares, a atmosfera reacionária foi efetivamente contagiante. Richard Nixon nos Estados Unidos, o colapso dos trabalhistas na Inglaterra, a esquerda aos poucos desaparecia.
Parece que vivemos algo muito parecido, algo que justifica a memória desses anos para muito além do que nossos revolucionários contemporâneos gostariam. É incrível que tantas cidades estejam ocupadas e tantas pessoas se sintam indignadas com o abuso do sistema financeiro e o crescimento na desigualdade social. Mas não se enganem: a virada política que está por vir fecha a tumba de qualquer esquerda possível. Não se trata de acreditar que a extrema direita se tornará imediatamente hegemônica. É mais grave do que isso. Encontramos, hoje, indícios de argumentos e ideias que migraram de um ponto, até pouco tempo, condenado ao extremismo conservador, para o senso comum.
Resistência vaziaCerca de quatro semanas atrás o primeiro ministro britânico David Cameron afirmou que era dever de todo cidadão, em meio a grave crise, denunciar imigrantes ilegais. Ninguém reagiu com estranheza ou indignação. Um dos seus principais conselheiros teria afirmado que os cortes planejados pelo governo britânico são algo que nem a ex-primeira ministra Margaret Thatcher teria sonhado em conseguir. A Europa se cerca de cuidados e desejos de autopreservação enquanto tem suas cidades ocupadas.
Afinal, o que queriam os milhares que até pouco tempo ocupavam Wall Street? A resposta é curiosa, quando não ausente. A própria Naomi Klein, autora do livro Doutrina de Choque, uniu-se ao coro de que era necessário ocupar para depois saber o que poderiam reivindicar. A falta de um projeto crítico coerente, ou mesmo de um engajamento especifico, produziu apenas uma nuvem de insatisfação – como se precisássemos dessas aglomerações urbanas para saber que há algo de muito errado no mundo hoje. Ficou difícil reconhecer a grande maioria das iniciativas de 2011 como algo além de focos de resistência, por mais coerentes que pudessem parecer num primeiro momento. O problema é que toda resistência um dia cessa se não for capaz de criar ou fazer algo além de... resistir.
No caso de Wall Street, sobrou o gesto simbólico lançado a um futuro incerto, e a certeza de que algo precisa ser feito. Paira no ar a sensação de que uma multidão silenciosa espera por alguma forma de milagre para renascer enquanto sociedade civil. Por aqui ficamos com nossos “indignados” na Cinelândia, nossos figurantes parados que por ali não conseguiram se tornar algo muito mais nobre do que obstáculos de pedestres.
* Bruno Garcia é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e idealizador do Observatório de protestos, levantes e movimentos de dissenso
















































































Renato
23/12/2011Carlota foi muito baozinha ao dizer que a crítica contida no artigo deve ser apenas amadurecida. Um jornalista que tenta comparar o atual movimento com o de 68 (mesmo se fosse com a Revolução Francesa ainda teria passado longe) e chama pessoas de obstáculos-para-pedestres precisa amadurecer muito não apenas como profissional... Precisa aprender a ser gente.
Carlota
6/12/2011O Grupo de Trabalho da Educação do OCUPARIO atua com outros movimentos - com atividades em comunidades e escolas, além de educar na praça cidadãos abandonados pelo governo representativo que se encontram em situação de rua. O grupo realiza aulas de alfabetização, oferece material didático aos seus alunos. Além disso, Oficinas de Interpretação Musical e de Artes como pintura e teatro fazem parte deste pacote educadional do OCUPARIO. Quando já se viu pessoas em situação de rua entrarem em um Centro Cultural? O movimento OCUPARIO pode ser considerado pioneiro neste quesito. Mensagens políticas em obras literárias são uma grande ferramenta para a instrução de muitos que nunca tiveram oportunidades na vida. Acredito que para a mídia publicar algum artigo, a matéria deve ser investigada a fundo. Porém este artigo nos parece uma crítica que ainda deve ser amadurecida.
Renato
6/12/2011O autor do artigo “histórico” inicia sugerindo que caminhem (como, claramente, foi apenas o que ele fez em sua pífia pesquisa), ou seja, passem por um acampamento do movimento de ocupações? Não façam somente isso, pois é necessário muito contato direto e volume de pesquisas profundas para obter informações suficientes que redundem numa idéia do que está acontecendo. O exposto por Naomi Klein (Bruno Garcia prova ignorar a língua inglesa ou foi mal intencionado - provável motivo de ter fornecido um link sem legendas – em lamentável desrespeito com os leitores) é claro: o movimento de ocupações ainda precisa conhecer seu tamanho para saber o que pode demandar; em nenhum momento diz que é necessário ocupar para depois saber o que poderiam reivindicar; diz que os inconformados com os absurdos do atual sistema financeiro mundial e suas fatais conseqüências precisam ocupar, mesmo que ainda desconheçam em profundidade os desdobramentos de tão complexo tema para, no decurso da experiência (assembléias e conversas, leituras e investigações, etc.), calibrarem o próprio movimento. Em tempo: caso conhecesse os trabalhos ou a própria Naomi, saberia quais são os amplos objetivos os quais a jornalista acredita serem necessários alcançar... Apesar de ter dúvidas se são possíveis. Aproveito para registrar como estão ferrados os autores de periódicos os quais seus respectivos chefes de reportagem pedem uma matéria ou artigo sobre esse assunto. Estão todos fadados ao fracasso, pois certamente não têm conhecimento prévio suficiente e muito menos disponibilidade para investigações apropriadas. Ferrou-se Bruno e mais ainda seus leitores. Ponham a culpa no pobre editor e na patética revista (como se pessoa jurídica fosse alguém – como tentam fazer crer seus corruptos advogados). Verborragia com tentativa de historicidade não combina com jornalismo de verdade (caso existisse), tampouco com história. No entanto, apesar do pior título possível assinado pelo coitado Bruno, ainda há muito pela frente que marcará registros históricos impossíveis de serem previstos... E, também, impossíveis de serem deturpados ou mal entendidos. Tenham esperanças em que a verdade triunfa. Aguardem.
Bob Dylan
5/12/2011"Come writers and critics who prophesize with your pen And keep your eyes wide the chance won't come again And don't speak too son for the wheel's still in spin And there's no telling who that it is naming For the loser now will be later to win For the times they are a-changing"
Filipe
5/12/2011Os objetivos das ocupações mundiais tem seu significado em si. Revitalizar as praças mundiais como espaço do encontro para discutir política,por si, já é algo revolucionário! Ou acaso todos nós saímos de nossos lares para dormir na rua da 19ª maior cidade do mundo e do 2º país em desigualdade social do mundo, arriscando a própria vida, em prol de uma "festa junina política"? Isso para citar o exemplo da Cinelândia. Criar uma pontes de conexão de caráter mobilizador no hiato deixado por uma esquerda que capitulou e não deu conta dos próprios ideais, pensando novas formas de política que sim, demandam muito acumulo e tempo. E por que não um caráter mais lúdico? Muito As velhas fórmulas não trazem mais os jovens, não os conecta, não faz com que sejam mais do que perfiz em redes sociais. As ocupações e seu caráter multifacetado apresenta a estes a oportunidade de serem eles mesmos, adaptando os velhos escritos a realidade como cientistas políticos empíricos. Estão na praça. São o sintoma de uma sociedade doente que se reencontrou com sede de mudança. Mudar oq? mudar tudo quanto se julgar errado, debater e construir, nada é definitivo. Movimento lindo diria eu.