Política do efêmero

No segundo artigo da série ‘Cólera e melancolia’, sobre o movimento dos indignados, Bruno Garcia diz que ocupações como a da Cinelândia, no Rio, ainda não conseguiram ‘se tornar algo muito mais nobre do que obstáculos de pedestres’

Bruno Garcia

  • Sugiro a experiência. Caminhem por um dos muitos acampamentos montados em mais de 800 cidades espalhadas pelo mundo, chamados genericamente de manifestações permanentes. Além do contagiante entusiasmo em não saírem dali, vocês irão encontrar uma série de slogans e símbolos referentes a 1968, como emblema de uma continuidade absurda, pouco comovente, mas muito coerente. Essa ponte direta, intencionada por nossos revolucionários contemporâneos, está cada vez mais visível. Na França, as barricadas viraram moda; na Alemanha, imagens de Rudi Dutschke (lenda do movimento estudantil da década de 60) se espalharam em tempo recorde, enquanto no Brasil prevalecem slogans da profundidade de “É proibido proibir”, da época da ditadura. Agora, com status de sabedoria popular. 

    Ao contestarem os abusos do mercado financeiro e as medidas de austeridade, pagas sempre por aqueles que mais dependem do estado, estudantes e sindicatos se deram conta da impossibilidade de resolver a parada num só protesto. Em maio, os espanhóis já acampavam em praças das principais cidades do país. Em outubro, o movimento de ocupação de Wall Street criou filhotes em milhares de lugares, chegando até aqui, em celebrações do retorno retumbante de um engajamento perdido há muito. Fala-se com confiança até em comprometimento com a política, como não se via desde os simbólicos anos 60.

     Até pouco tempo, esses protestos foram tratados como sinceras tentativas de pensar um mundo diferente. O acampamento de Nova Iorque foi visitado por inúmeros intelectuais, como o filósofo Slavoj Žižek e a jornalista canadense Naomi Klein. Outras ocupações, como a de Oackland, só ganharam destaque após a reação exagerada e violenta da polícia, como no vídeo que você confere abaixo. Depois disso, praticamente todas as grandes cidades do mundo se viram ocupadas por jovens eufóricos por suas barracas e algum acontecimento.

     

     

    ‘Protesto em forma de festa junina’

    Há poucas semanas Wall Street foi desocupada, não se fala mais dos indignados espanhóis e tivemos que nos conformar por aqui, no Rio de Janeiro, com uma espécie de protesto em forma de festa junina na Cinelândia. Por algum tempo, toda essa mobilização produziu em estudantes, intelectuais, políticos e todos os órfãos de uma esquerda articulada a sensação de vertigem, de que a apatia das últimas décadas daria lugar a novos projetos para um outro mundo. 

    Imagem divulgada pelo Occupy Wall Street mostra uma das ações de protesto do movimento nos Estados UnidosInsisto, por isso, na comparação com 1968, e no vigor ideológico de uma geração conhecida tanto pelos numerosos sonhos, quanto por não realizá-los. Lembramos sem dificuldade dos inúmeros estudantes nas ruas de Paris, da luta por direitos civis nos Estados Unidos ou mesmo da radicalização dos movimentos estudantis latino-americanos. Tratar a fabulosa concatenação de eventos e projetos daquela geração com certa admiração é razoável, mas visto assim, o argumento parece fora do lugar. 

    É preciso lembrar também que 68 foi seguido por longos anos sob predomínio de governos de direita. O credo revolucionário padeceu ao pragmatismo ultraconservador que varreu os hippies do mapa. Assistimos à catástrofe de um “projeto” de mundo vago e muito mal concebido. Não foi só a América Latina que viria a ser varrida por ditaduras militares, a atmosfera reacionária foi efetivamente contagiante. Richard Nixon nos Estados Unidos, o colapso dos trabalhistas na Inglaterra, a esquerda aos poucos desaparecia. 

    Parece que vivemos algo muito parecido, algo que justifica a memória desses anos para muito além do que nossos revolucionários contemporâneos gostariam. É incrível que tantas cidades estejam ocupadas e tantas pessoas se sintam indignadas com o abuso do sistema financeiro e o crescimento na desigualdade social. Mas não se enganem: a virada política que está por vir fecha a tumba de qualquer esquerda possível. Não se trata de acreditar que a extrema direita se tornará imediatamente hegemônica. É mais grave do que isso. Encontramos, hoje, indícios de argumentos e ideias que migraram de um ponto, até pouco tempo, condenado ao extremismo conservador, para o senso comum.

     

    Foto divulgada pelo Centro de Mídia Independente da ocupação na CinelândiaResistência vazia

    Cerca de quatro semanas atrás o primeiro ministro britânico David Cameron afirmou que era dever de todo cidadão, em meio a grave crise, denunciar imigrantes ilegais. Ninguém reagiu com estranheza ou indignação. Um dos seus principais conselheiros teria afirmado que os cortes planejados pelo governo britânico são algo que nem a ex-primeira ministra Margaret Thatcher teria sonhado em conseguir. A Europa se cerca de cuidados e desejos de autopreservação enquanto tem suas cidades ocupadas. 

    Afinal, o que queriam os milhares que até pouco tempo ocupavam Wall Street? A resposta é curiosa, quando não ausente. A própria Naomi Klein, autora do livro Doutrina de Choque, uniu-se ao coro de que era necessário ocupar para depois saber o que poderiam reivindicar. A falta de um projeto crítico coerente, ou mesmo de um engajamento especifico, produziu apenas uma nuvem de insatisfação – como se precisássemos dessas aglomerações urbanas para saber que há algo de muito errado no mundo hoje. Ficou difícil reconhecer a grande maioria das iniciativas de 2011 como algo além de focos de resistência, por mais coerentes que pudessem parecer num primeiro momento. O problema é que toda resistência um dia cessa se não for capaz de criar ou fazer algo além de... resistir.

    No caso de Wall Street, sobrou o gesto simbólico lançado a um futuro incerto, e a certeza de que algo precisa ser feito. Paira no ar a sensação de que uma multidão silenciosa espera por alguma forma de milagre para renascer enquanto sociedade civil. Por aqui ficamos com nossos “indignados” na Cinelândia, nossos figurantes parados que por ali não conseguiram se tornar algo muito mais nobre do que obstáculos de pedestres.

     

     

    * Bruno Garcia é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e idealizador do Observatório de protestos, levantes e movimentos de dissenso

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