
A cena já virou corriqueira: milhares de jovens se espremendo em acampamentos improvisados nas principais cidades do mundo. A Praça Tahir, no Egito, foi a primeira a receber essa nova forma de protesto, chamado por alguns de manifestação permanente. Em maio, espanhóis ocuparam a Puerta del Sol, em Madri, e a Catalunya, em Barcelona. Em pouco tempo a idéia se espalhou, assim como seus slogans contra o sistema financeiro internacional. Ocupe Wall Street, em Nova Iorque, se espalhou pelos Estados Unidos e até pelo Rio de Janeiro, onde alguns manifestantes acampam na Cinelândia há duas semanas.
A série, iniciada hoje no site da RHBN, trata de alguns dos principais eventos relacionados ao conjunto de protestos que varreram parte do mundo ocidental em 2011. Famosos pelo título de “Indignados”, esses protestos vão muito além dos espanhóis ao quais foi atribuído pioneirismo na Europa. A proposta aqui é a de tratar as diferenças e semelhanças, oferecendo um breve panorama do cenário de protestos na Europa, Estados Unidos e América Latina.
O ressentimento de uma geração crescida num pós-guerra fria quase ausente de manifestações semelhantes é justificável. Em primeiro lugar, porque a crise financeira de Setembro de 2008 fez desabar o último dos alicerces da utopia construída na década de 90. A idéia de que a queda dos regimes totalitários da Europa Central e da União Soviética oferecia ao mundo uma oportunidade única para uma paz centrada nos direitos humanos. Em segundo
lugar, porque esse otimismo foi constantemente respaldado por um falso consenso de que as coisas finalmente estavam no rumo certo. Apesar de protestos localizados, poucas vezes o projeto de globalização neoliberal foi seriamente desafiado. A esquerda se encolheu, ou migrou para o centro, e a política passou a ser o lugar de tecnocratas e administradores.Um 2012 'promissor'
Antes que o ano acabe numa histeria otimista, já ensaiada por comparações diárias com 1968, convém fazer algumas observações. Ao contrário da maioria dos movimentos contemporâneos, a grande conquista da geração da década de 60 foi ter unido, no seu conjunto de demandas, diferentes categorias como intelectuais, sindicatos, cineastas e estudantes. Lamentavelmente, a maior semelhança dos "indignados" está na forma pela qual essas demandas não encontram saída em canais mobilizados pela esquerda. Assistimos, e essa é a nossa tragédia, ao crescimento da extrema direita, especialmente na Europa. Tal como a década seguinte a 68, a reação conservadora ameaça cristalizar uma imagem marginalizada dos movimentos sociais a partir do absoluto vazio de propostas ou formas por onde demandas tão vagas possam ser canalizadas.
Sugiro, portanto, que foi 2008 o ano que ainda não acabou. O ano que desencadeou um surto de desesperança e caos contra a surpreendente descoberta de uma globalização explicitamente injusta, mas por muito tempo ignorada. O pior ainda está por vir. O agravamento da crise, a intensificação dos movimentos sociais somados ao provável crescimento da extrema direita fazem de 2012 um ano ainda mais “promissor”.
Não se trata de diminuir a façanha dessa fabulosa onda de protestos, mas convém redimir o entusiasmo exagerado e ponderar os possíveis desdobramentos do cenário oferecido. Há nisso tudo uma celebração pelo simples fato de estarem ali, pelo evento em si. Por outro lado, melancolicamente, o apetite juvenil por mudanças sangra qualquer esperança de que o futuro possa ser minimamente distinto do nosso presente. A multidão às ruas atesta a perplexidade de que outro mundo é tão necessário quanto inimaginável.
Bem-vindo ao caos.
* Bruno Garcia é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e idealizador do Observatório de protestos, levantes e movimentos de dissenso















































































