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01/08/2006 Diminuir tamanho da letra
A charanga do Jaime
Sob a batuta de Jaime de Carvalho, a ruidosa banda rubro-negra promove a festa do público de futebol e organiza a torcida no Rio de Janeiro
Bernardo Borges Buarque de Hollanda e Melba Fernanda da Silva

“– Flamengo, Flamengo/ Tua glória é lutar/ Flamengo, Flamengo/ Campeão de terra e mar.”. Com este refrão adaptado do hino oficial do clube, a Charanga saudou por quase cinqüenta anos ininterruptos a entrada de seu time em campo. Nos famosos alçapões do subúrbio, com suas precárias arquibancadas de madeira, ou no maior estádio do mundo, o Maracanã, com sua engenhosa armação de concreto, a pequena orquestra musical fez-se presente com seus instrumentos, movida pela devoção ao clube, mas também pelos dez contos de réis e pela caninha oferecida a seus componentes nos intervalos dos jogos. À sua frente, Jaime Rodrigues de Carvalho, um simples funcionário público que no decorrer das décadas iria adquirir projeção nacional e internacional como chefe de torcida do Flamengo e da Seleção Brasileira.

Foi em 1942 que surgiu a Charanga Rubro-Negra, contribuindo decisivamente para a modificação do comportamento dos torcedores nos estádios de futebol. Foi depois da Charanga que marchinhas de carnaval passaram a ser tocadas durante os jogos, intercalando os solenes hinos dos clubes, que davam uma conotação épica e heróica às partidas. Foi também por causa da Charanga que as camisas dos times, até então de uso exclusivo dos atletas, passaram a vestir os torcedores. Se antes os espectadores dos jogos abanavam fitas e lenços coloridos durante a partida, depois que seus integrantes passaram a confeccionar artesanalmente as camisas do Flamengo, grupos compactos de torcedores com os uniformes de seus times começam a se destacar nos estádios. Até os anos 1940, a roupa dos espectadores de futebol não se distinguia da vestimenta das elegantes platéias de teatro, cinema e ópera, o habitual terno com gravata. A camisa do uniforme populariza a paisagem das arquibancadas. Em um setor reservado e separado dos demais por um

cordão de isolamento, as torcidas uniformizadas são convocadas a comparecer por rádios e jornais, em número que às vezes chega a mil integrantes. Após a realização de ensaios durante a semana, elas executam coreografias que usam painéis, cartões e sinalizadores luminosos, ainda mais atraentes nas partidas noturnas.  Com o aparecimento da Charanga, o público do futebol transforma sua condição inicial de assistência. As torcidas assumiam um caráter ativo nas disputas, encorajando seus times ou intimidando seus adversários.                 

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