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01/11/2007 Diminuir tamanho da letra
A outra face da lua
Os catecismos kariris, escritos para os índios... silenciosos
Marcello Scarrone

 “A língua mais usada na costa do Brasil”. É assim que o padre Anchieta se refere ao tupi no título da Arte da Gramática, que escreveu em 1595. “Mais usada” ou, como diziam alguns, “mais geral falada”: missionários, colonos, grupos de índios tupinambás se comunicavam por meio dela, ajudados por catecismos e gramáticas. É desta forma que uma versão ocidentalizada do mesmo idioma chegou a ser moldada e difundida: a “língua geral”.  

Menos conhecido é o fato de que índios de outros grupos étnicos, inimigos dos tupis e por eles chamados genericamente de tapuias por falarem outras línguas, ganharam também catecismos e manuais para o conhecimento de seus idiomas, embora em época mais tardia. Dois destes instrumentos se encontram na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional e documentam a atenção de ordens religiosas com os kariris, uma das famílias tapuias do sertão nordestino, ao longo do Rio São Francisco. O Catecismo Índico da língua Kariris, acrescentado de várias práticas doutrinais e morais, adaptadas pelo gênio e capacidade dos índios do Brasil é publicado em Lisboa em 1709 pelo capuchinho francês Bernardo de Nantes, onze anos depois do Catecismo da Doutrina Cristã na língua brasílica da Nação Kiriri, composto em 1698 pelo jesuíta italiano Ludovico Vincenzo Mamiani della Rovere e do qual a BN conserva uma edição fac-similar.  

A produção desses catecismos mostra a importância que as ordens religiosas atribuíam à evangelização de índios como os kariris ainda no final do século XVII, e seu esforço para penetrar no mundo e na cultura deles, aprendendo sua linguagem, seus costumes, seus mitos. Até mesmo as diversidades entre um grupo e outro são percebidas e valorizadas pelos missionários. A este respeito, é significativa a insistência com que o autor francês, com medo de que seu trabalho fosse considerado inútil, reafirma no prólogo as diferenças entre o seu catecismo e o de Mamiani. O livro do capuchinho foi escrito para os kariris do dzubukuá, idioma falado no médio São Francisco (hoje, entre Petrolina e Paulo Afonso), enquanto o do jesuíta era para os kariris (ou kiriris) kipea, da bacia do Rio Itapicuru, na Bahia. A diferença entre os dois idiomas, segundo frei Bernardo, é comparável à que existe entre o castelhano e o português. 

Nos dois catecismos, temos assim, ao lado de expressões parecidas, opções semânticas diferentes para vários conceitos de fundamental importância. Ambas as obras são edições bilíngües, mas, enquanto o texto do capuchinho parece mais voltado para o beneficio dos próprios índios, o outro foi feito sobretudo “para os missionários novos serem ouvidos e entendidos dos índios, que é o fim principal que se pretende, pois por falta dele não se declaram aos índios muitos mistérios e muitas coisas necessárias a um cristão”.

Na introdução, os dois autores não deixam de enaltecer a ação dos missionários, com todas as suas dificuldades. “Não satisfeitos do que tinham obrado com os índios marítimos da língua geral, [os missionários] penetraram os sertões interiores deste Brasil, para reduzir ao rebanho de Cristo também os índios bravios e tapuias, e os primeiros que tiveram esta sorte foram os da nação a que vulgarmente chamamos dos Kiriris”, escreve o padre Mamiani, e o capuchinho lhe faz eco: “Nas perguntas encerrei às vezes a resolução das dificuldades das respostas para facilitallas ao gênio rasteiro dos índios, os quais, por estar muito avante metido dentro do certão (sic) interior do Brasil e afastados das povoações dos brancos, não podem ser instruídos em outra língua mais do que na sua própria, a qual até agora nunca teve livro doutrinal, nem outro posto à estampa. O meu intento neste trabalho foi servir ainda cá [Lisboa] aos índios, já que não o posso mais fazer lá”. 
 

Temos aqui, afinal, dois exemplos preciosos da tentativa de se conhecer e codificar alguns idiomas indígenas que, diferentemente da língua tupi, não eram muito falados. Até porque, como sugere a rápida notação de Mamiani na introdução ao seu catecismo, “Quiriri, alterado em Cariri, é qualificativo tupi, que significa calado, silencioso, e que indica uma característica etnográfica tanto mais notável quanto se sabe que os outros índios eram palradores incoercíveis”.

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