Bem-vindo visitante, clique aqui e faça seu login.
   Principal > Em dia > É duro ser índio no país do futebol
01/12/2007 Diminuir tamanho da letra
É duro ser índio no país do futebol
Para a Copa de 2014, o governo quer fazer um estacionamento no lugar de prédio histórico reivindicado por indígenas de várias etnias
Lorenzo Aldé

O anúncio do Brasil como país-sede da Copa de 2014 não foi uma boa notícia para os índios acampados ao lado do Maracanã. Na preparação para o maior evento esportivo do planeta, certamente voltará com força o projeto de expandir as vagas de estacionamento do estádio. E a área que os índios reivindicam está na mira do poder público.

Trata-se do terreno que abrigou a sede do Museu do Índio entre 1953, quando foi criado por Darcy Ribeiro, e 1978, quando foi transferido para a rua das Palmeiras, em Botafogo. No ano passado, o prédio desativado foi invadido por um grupo de indígenas de várias etnias, que permanece lá até hoje. O que leva os índios a reivindicarem terra em região tão urbanizada quanto o Maracanã? “Existe uma concepção equivocada, segundo a qual quem nunca viveu na aldeia não é índio. Nós, os descendentes, somos frutos de uma diáspora, estamos em um longo caminho de volta para casa”, explica a historiadora Marize de Oliveira Pinto, uma das líderes do movimento, que criou em abril o Instituto Tamoio dos Povos Originários. Marize também atende por Tamikuan, nome dado pelos pataxós (significa estrela), apesar de ser neta de guaranis. A proposta do grupo é instalar no local um centro de referência em estudos e pesquisas sobre temas indígenas, que promova o intercâmbio cultural entre várias etnias e sirva também de alojamento para índios que vierem estudar no Rio pelo sistema de cotas, para ali “dar continuidade à sua cultura”. Para isso, vem negociando a cessão da área pelo Ministério da Agricultura, e buscando patrocínio para restaurar o prédio.

A construção, por sinal, é patrimônio de quase cem anos. Erguida na década de 1910 como um centro de veterinária do Exército, é a única que restou do conjunto que circundava o antigo Derby Club da cidade, fundado em 1885 como palco do esporte mais popular àquela altura do século XIX. No lugar das corridas de cavalo, ergueu-se o Maracanã em 1950. O prédio ficou. Depois que perdeu o Museu do Índio, passou a se decompor a olhos vistos. A invasão dos índios revelou o estado de penúria em que se encontra.

Mas nem o prédio nem os índios comoveram o então vice-governador e arquiteto Luiz Paulo Conde, quando em 2006 declarou que um estacionamento seria bem-vindo na área. O atual secretário de Esportes do Rio, Eduardo Paes, também desdenha das aspirações indígenas, mas evita se posicionar sobre o futuro do prédio: “Gostaríamos muito de ter a área para que ao menos o terreno fosse agregado à área do Maracanã”. Marize diz que o Instituto Tamoio está na Justiça contra uma declaração ofensiva do secretário, desqualificando o movimento. “Nós vivíamos onde hoje é a cidade do Rio, lutamos contra os que vinham de fora e nos violentaram, mataram, se apropriaram das nossas terras. Não à toa a ocupação foi em outubro: foi nesse mês o início do grande genocídio de todos os povos das Américas, com a chegada dos espanhóis”, reforça.

Agora que Pindorama é o país do futebol, tudo indica que o desfecho do caso, mais uma vez, não será favorável aos índios.

 Versão para impressão |  Envie esta matéria para um amigo
 
Aumentar tamanho da letraDiminuir tamanho da letra
Principal | Quem Somos | Edições Anteriores | Tira-Dúvidas | Fale Conosco | Como comprar | Faça sua Assinatura
Com a palavra... | Observatório | Blog da Redação | Gente da História | Patrimônio em Perigo | Multimídia | Agenda | Links | Autores | Cadastre-se
Carta do Editor | Em Dia | Capa | Artigos | Entrevistas | Leituras | Perspectiva | Educação | Retrato | Dias na História
Decifre se for Capaz | Por Dentro da Biblioteca Nacional | Por Dentro do Documento | Livros
© 2007 - Revista de História da Biblioteca Nacional - Desenvolvido por FBS WebHouse
Ministério da Cultura Lei Rouanet Biblioteca Nacional Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional Petrobras