
Marcello Scarrone
A origem austríaca não o impediu de ler e interpretar Machado de Assis como poucos críticos nacionais souberam fazer, articulando o estudo das formas literárias e a análise dos processos sociais. Intelectual dos mais agudos, Roberto Schwarz e sua obra foram celebrados e discutidos num seminário na Universidade de São Paulo em 2004. A Companhia das Letras publica agora boa parte dos depoimentos e das contribuições do evento, acrescentando novas, num volume que, desde o título, evoca temas e escritos de Schwarz: se Machado é reconhecido como Um mestre na periferia do capitalismo, deve-se a ele e à sua inovadora concepção da crítica literária, capaz de acolher e valorizar as melhores intuições do pensamento marxista.
Intelectuais, cientistas, colegas e amigos oferecem nas páginas do livro análises da obra e testemunhos sobre a vida e a atuação do crítico, desde sua participação no Seminário Marx, na USP dos anos 1960, ao exílio em Paris no auge da ditadura, passando pelas polêmicas geradas por muitas de suas afirmações, como a das “idéias fora do lugar”. Antonio Candido lembra a esse respeito: “A nossa perspectiva é sempre de dentro e de fora: Roberto Schwarz não escapa à regra, mas tem a peculiaridade de ser assim de maneira constitucional, porque teve desde sempre como próprias a língua e a cultura alternativas que [nós] precisamos adquirir com esforço”.
Entre as muitas contribuições, uma pérola: o depoimento de Fernando Novais. Para se conhecer um pouco mais de perto o sentido de fazer História, da profissão do historiador, um testemunho valioso para qualquer um, marxista ou não.