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23/03/2008 Diminuir tamanho da letra
Judeus lutaram pelo Brasil na Itália
Pelo menos 43 militares brasileiros judeus lutaram em terra, mar e ar na Segunda Guerra Mundial. O especialista em história militar Israel Blajberg coletou depoimentos de veteranos e familiares
Israel Blajberg *

Levy Cardoso com o bastão de comando da FEBPelo menos 43 militares brasileiros judeus integraram as forças brasileiras de terra, mar e ar no maior conflito do século XX, sendo 27 na Força Expedicionária Brasileira (Itália), quatro no Exército Brasileiro (Defesa do Litoral), quatro na Marinha do Brasil, três na FAB e 5 na Marinha Mercante. Em princípios de 2008 apenas 13 estão vivos.

Sua participação foi quase ignorada. Mesmo os que se tornaram heróis, agraciados com medalhas concedidas apenas em casos de bravura excepcional em combate, foram praticamente esquecidos.

Em geral não se conheciam entre si. Brasileiros natos de primeira geração, seus pais e avós eram imigrantes de países como Marrocos, Polônia, Turquia.

Embora os cidadãos de fé judaica fossem mobilizados normalmente como qualquer outro, havia uma diferenciação. Os combatentes judeus participantes do conflito além de compartilhar dos riscos normais de uma guerra sujeitavam-se ainda caso fossem capturados a execução sumária ou envio aos campos de extermínio nazistas. Foi esse lamentavelmente o destino de quase todos os militares judeus russos (85 mil) e poloneses (65 mil) que caíram prisioneiros dos nazistas.

Aqui traçaremos breves perfis de alguns destes combatentes. Diversos se destacaram nas carreira das armas, Artes, Letras e outras.

Waldemar Levy CardosoTenente-Coronel de Artilharia Waldemar Levy Cardoso

Único Marechal vivo do Exército Brasileiro. Com 107 anos é o mais antigo ex-combatente, e como tal, detentor do Bastão de Comando da FEB. Na Itália comandou um Grupo de Artilharia da FEB.

Filho de Armando Cardoso e Estela Levy, judia de família originária do Marrocos, converteu-se ao catolicismo aos 54 anos de idade. Até hoje sempre alegre e jovial, diz-se “judeu de raça e católico de religião”.

Trata-se do militar judeu de maior patente à época.

Tenente de Infantaria Salomão Malina

Salomão MalinaEspecialista em minas, Malina e seu pelotão abriram caminho para a passagem da Infantaria no eixo de ataque através de terreno minado, sob pesado fogo da artilharia e de morteiros alemães, durante a epopéia do 11° Regimento de Infantaria - o Regimento Tiradentes de São João d'El Rey -, na conquista de Montese, uma das maiores glórias da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Pela sua bravura em ação na tomada de Montese, foi agraciado pelo Presidente da República com a Cruz de Combate de 1a. Classe.

Membro do Partido Comunista Brasileiro, destacou-se na política, tendo vivido na clandestinidade por vários anos.

Tenente de Artilharia Salli Szajnferber

O Tenente Salli efetuou a prisão de 200 soldados alemães quando da rendição da 148ª Divisão de Infantaria nazista, que se entregou à FEB com todo seu material, canhões, tropa a cavalo e remanescentes da divisão Panzer Grenadier e Bersaglieri italiana após o combate de Montese.

Foi o mais sangrento combate da FEB, com 574 baixas, entre mortos e feridos. O III Grupo de Artilharia disparou em Montese nove mil tiros de obus 105 mm. O General Otto Fretter Pico rendeu-se com o General italiano Mario Carloni, 892 oficiais, 19.689 soldados, 80 canhões, cinco mil viaturas e 4 mil cavalos.

Observador Avançado junto à 9ª Companhia do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, o tenente Salli foi levemente ferido na batalha. Pela sua bravura em ação na tomada de Montese, também foi agraciado pelo Presidente da República com a Cruz de Combate de 1a. Classe. Os diplomas, assinados pelo Ministro da Guerra General Pedro Aurélio de Góis Monteiro destacam a grande coragem, o sangue frio e a capacidade de ação durante os encarniçados combates de 14 e 15 de abril de 1945.

Tenente de Infantaria Moyses Chahon

Comandante de Pelotão do Regimento Sampaio na conquista de La Serra, Tenente Moyses Chahon, “o Herói de La Serra”, foi agraciado com a Silver Star e a Cruz de Combate de Primeira Classe, por atos de bravura excepcional em ação.

Sob pesado fogo de artilharia e morteiros alemães, Moyses foi ferido e portanto também agraciado com a Medalha Sangue do Brasil.

O irmão de Moyses, Alberto, também serviu à FEB. Os jornais da época noticiaram o fato entrevistando a mãe, Matilde Gammal Chahon. A ela fora concedida a possibilidade de indicar apenas um dos filhos para ir à guerra, mas sua decisão foi firme: “ou vão os dois ou não vai nenhum.”

Cabo de Artilharia Carlos Scliar

Jovem artista de Santa Maria, RS, Scliar desenhava até em papel de pão tudo que observava nas trincheiras, o que veio a ser a sua obra Cadernos de Guerra.

Sua mãe faleceu em Porto Alegre durante a sua ausência, preocupada com o filho. O poeta e amigo Vinicius de Moraes teve uma premonição de que a mãe de Scliar morreria antes do filho voltar da Guerra. O aviso foi dado pelo escritor Rubem Braga, então correspondente de Guerra, que no entanto aguardou o seu retorno de uma folga em Florença para dar a notícia, para que o artista não deixasse de ir.

Hoje, em Cabo Frio, RJ, Instituto com o nome do artista abriga as suas obras, que também estão expostas em seu site na internet.

Capitão de Artilharia Samuel Kicis

Comandou a 2a. Bateria do 4º. Grupo de Obuses 155 mm. Era a mais poderosa unidade da Artilharia Divisionária da FEB.

Capitão-de-Longo-Curso Jacob Benemond

Comandava o Olinda, segundo navio a ser torpedeado por submarino nazista. Conseguiu salvar toda a tripulação, a deriva no mar gelado durante 36 horas.

1°. Comissário Jacob David Niskier

A bordo de navios sujeitos ao ataque submarino, ajudou a salvar vidas judaicas na Europa. Esteve sob ameaça da Gestapo.

 

 

* Israel Blajberg é sócio-titular do Instituto de Geografia e Historia Militar do Brasil (IGHMB) e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – AHIMTB.

Fontes:

Depoimentos de Veteranos e Familiares, colhidos pela Comissão de Historia Oral do evento Heróis Brasileiros Judeus da Segunda Guerra Mundial, em que foram homenageados os ex-combatentes pela passagem dos 60 Anos do Dia V-E, 8 de Maio de 1945, da Vitória Aliada na Europa, no Grande Templo Israelita do Rio de Janeiro. Coordenador: Israel Blajberg. Entrevistadores: Fanny Lewin, Nelson Menda, Rosita Naidin e Sylvia Cohn Gali.

Saiba mais:

Lista (incompleta) de combatentes brasileiros judeus na II Guerra Mundial

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